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Notas: Wim Wenders e o decurso do tempo

Romero Venâncio

Aracajú (SE)

quarta-feira 14 de setembro| Edição do dia

Existe um problema na crítica cinematográfica que é a de definir com precisão o que é um “cinema de arte”. Toda obra cinematográfica não seria ela mesma uma “obra de arte”? Difícil responder de chofre uma questão como essa. Talvez essa questão de cinema de arte seja semelhante à aquela enfrentada por Santo Agostinho quando tentou definir o tempo.

Pensava o santo, quando não me perguntam o que é o tempo, sei do que se trata, mas quando me pedem uma definição exata, não a tenho. Podemos aplicar, com reservas, esse pressuposto agostiniano para definir o tempo ao problema do cinema de arte: acreditamos saber o que seja um cinema de arte, mas quando vamos ao papel e com calma, já não sabemos.

Arriscamos uma dica: há algo num “filme de arte” que é perene e que não há num filme exclusivamente comercial e de entretenimento. É como se um “filme de arte” nos colocasse questões que transcendem a sua época e permanecem como um desafio no tempo para além de conjunturas especificas vividas por todos nós.

Um cinema de “puro entretenimento” esgota-se nele mesmo e muito pouco fica na memória para ser trabalhado fora das salas de exibição. Para uma compreensão mais direta: um filme de arte nos faz mobilizar todos os sentidos possíveis de nosso corpo/alma e nos coloca “imaginariamente” diante de questões decisivas da existência.

Um filme de arte tem “compromisso de engajamento” com a existência situada no sentido sartreano. Numa perspectiva dessa natureza, entendemos o cinema do alemão Wim Wenders. Mais especificamente, destacamos o filme: “Im lauf der zeit” (1976), traduzido como “No decurso do tempo”. Título por si só, filosófico ou de arte por natureza.

Segundo os principais estudiosos da obra cinematográfica de Wenders, esta película situa-se numa espécie de trilogia iniciada com Alice nas cidades (1974) que mostra um jornalista alemão obrigado a tomar conta de uma menina abandonada pela mãe enquanto vaga pelos EUA para terminar uma reportagem. Iniciaria aqui um “road-movie” que seria uma marca constante de Wim Wenders em outros filmes marcantes.

O segundo filme da trilogia é “Falso movimento” (1975) que trata da viagem de uma trupe improvisada de atores por vários lugares da Alemanha. Uma recorrência ao preto e branco e a lugares e paisagens pouco vistos nos cartões postais germânicos. O “road-movie” é saída, movimento, viagem sem destino certo, mas é acima de tudo, saída si mesmo para um outro desconhecido e misterioso através de uma câmara cinematográfica. Segundo Fréderic Gros num belíssimo livro de filosofia, “Caminhar: uma filosofia”, o grande “road-movie” da filosofia teria sido Sócrates.

Como se sabe, ele não conseguia ficar quieto, sobretudo quando o mercado grego funcionava e havia grande afluência de pessoa. Sócrates fazia da sua saída de si um caminhar constante em direção ao conhecimento de si mesmo através de um diálogo com um outro. Percebemos esse elemento socrático nos filmes de Wenders.

No caso de “No decurso do tempo” isto é explorado de maneira impressionante. O filme trata de uma estranha amizade encontrada ao acaso por dois homens e numa paisagem das estradas entre as duas Alemanha ainda divididas em plenos anos 70. O técnico de projetores Bruno e o suicida em potencial Robert ficam amigos e partem numa viagem pelas decadentes rodovias alemãs.

Solitários e introspectivos (o filme tem poucos diálogos para o normal de um filme de arte), os dois estão em busca de algo que só vai ficando claro no decorrer do filme e do tempo. A esperança deles é terminar a jornada encontrando um significado para as suas vidas. Só que isto não está dado em nenhum momento do filme.

O sentido para uma vida está no decurso e não necessariamente no início ou no fim. Nada mais filosófico e existencial do que está compreensão da existência. O filme é ao mesmo tempo uma “celebração das coisas simples” ou como na poesia de Manoel de Barros “uma louvação das grandezas do ínfimo”. Um ônibus velho e cheio de latas de filme a serem exibidos, um lugar de morada do personagem Bruno (que não sabemos de onde vem e pouco ficamos sabendo da sua história mambembe).

Robert aparece pela primeira vez no filme guiando um fusca em direção loucamente a um rio e depois saindo dele pelo teto numa alusão a uma forma de desapego total. De cidade em cidade eles vão exibindo filmes e procurando entender o desaparecimento do cinema de interior e o seu fascínio mesmo no ocaso. A vida é movimento e mudança. Por mais que isto nos seja duro e caro.

Passam as pessoas que amamos, passam as coisas que temos, passam os sonhos e a vida vai ficando mais rica e nostálgica. A verdadeira dialética do pertencer e ser livre. Há um bonito momento no filme em que Bruno se lamenta ao afirmar que a vida é como a saudade das mulheres que amamos e que deixamos ou fomos deixados.

O perder algo precioso nos transmite algo de mágico e doloroso ao mesmo tempo. O filme é também uma alegoria com o próprio cinema que está entrando no seu fim, mas que resiste enquanto utopia. Em dois momentos precisos, o personagem Bruno encontra pessoas que refletem sobre o sentido do cinema no mundo de hoje.

Se vale ou não a pena continuar exibindo filmes ou se não seria melhor abandonar o trabalho com a arte cinematográfica. E assim, relacionamos a vida ao cinema. Os principais filmes de Wim Wenders nos passam a ideia de que o sentido para uma vida é uma construção feita por nós mesmos com a ajuda da arte.

A dimensão radical do imaginário nos faz avançar num “road-movie” particular que é vivido por todos, mesmo que inconsciente. Como nos informa o poeta compositor Walter Franco: “viver a afinar o instrumento. De dentro pra fora, de fora pra dentro”. Serviria de epigrafe para este filme magistral de Wenders.




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