Cultura

EMICIDA

Nossos “chapas” estão sendo assassinados pelo Estado – sobre o novo clipe de Emicida

No último dia de agosto Emicida lançou o clipe para a música Chapa de seu mais recente disco “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa”.

Gabriela Farrabrás

São Paulo | @gabriela_eagle

segunda-feira 12 de setembro| Edição do dia

A música que fala sobre saudade e a esperança de ver um dia um amigo, um “chapa”, voltando para casa ganhou com o clipe um tom extremamente político ao abordar e colocar como protagonistas as mães de maio, “mulheres que não se curvaram ao Estado”, grupo de mães de filhos assassinados pela polícia que surgiu em maio de 2006 na luta contra a polícia militar, braço armado do estado, que tirou delas seus filhos.

Essas mulheres aparecem na bela fotografia preto e branco do clipe com os retratos de seus filhos assassinados em mãos, as lágrimas naturalmente correm nas faces, mas não há nada de delicado ou frágil nisso, são todas, em cada detalhe e expressão muito fortes.

As imagens do clipe são todas imagens que remete a falta, a perda, “a cadeira vazia” lembra que sempre falta alguém, a violência da PM, “o copo estilhaçado”. “As velas acesas, flores”, o que sobra é a morte. “O relógio” lembrando que do tempo que não traz de volta os jovens negros assassinados todos os dias. “Dinheiro manchado de sangue, celular quebrado”, são os restos das cenas dos crimes, não reconhecidos como tais, em cada esquina da periferia.

“Máscara, bombas, balas, o policial”; não há engano, acaso, o assassino da juventude negra é a polícia militar, a civil, a GCM, são as instituições de segurança do estado.

“O jovem negro, o vaso estilhaçado por um tiro”, a “tal bala perdida” que sempre tem alvo certo, a juventude negra.

Depois da música vem o silêncio, duro e difícil de processar sem que seja com ódio. No vídeo, o fundo preto e em branco os dados que comprovam por a+b que a polícia militar é uma polícia assassina, educada pelo estado para matar preto na periferia.

Os dados são:

Entre julho de 1995 e maio de 2006:

11.909 pessoas foram mortas por PMS no Estado de São Paulo.

9.576 sob alegação de “resistência seguida de morte” ou “morte sob intervenção policial”.

Em todos os casos nos quais os PMS estavam no horário de trabalho e mataram, os registros apontavam para “resistência seguida de morte”.

Nesses registros , os PMS apareciam como vitima e as pessoas mortas por eles como indiciados.

1.291 PMS foram mortos.

3 pessoas são mortas por PMS a cada 2 dias.

1 PM é morto a cada 6 dias no Estado de SP, no horário de trabalho ou na folga.

No Brasil entre 2002 e 2012 a taxa de homicídios de brancos diminuiu 24,8% e o de negros aumentou 38,7%.

O número de negros mortos em decorrência de ações policiais em SP para cada 100 mil habitantes é 3 vezes maior que o de brancos.

Entre 2009 e 2011:

61% dos mortos pela polícia no Estado de SP eram negros.

57% das vítimas tinham menos de 24 anos e eram homens quase na totalidade.

80% dos policiais autores de mortes acompanhadas pela ouvidoria da polícia do Estado de São Paulo são identificados como brancos.

A maioria tem entre 25 e 39 anos.

Quase todos são homens.

95% são policiais militares.

90% são praças, com destaque para soldados e sargentos.

1,6% doas autores foi indiciado como responsável.

Atualmente, o código de processo penal, de 1941, autoriza qualquer agente público e seus auxiliares a utilizarem os meios necessários para atuar contra o suspeito que resista à prisão, sem prever regrar para a investigação de uso de força nesses casos

Em 2014 na cidade de SP.

50% das mortes em decorrência de ação policial se concentrou em 14 distritos, sendo Jardim São Luis, Ermelino Matarazzo, São Miguel e Sapopemba, as áreas com índice de letalidade mais alto.

Apresentando em 19 de setembro de 2012 a câmera de deputados, o projeto de lei n° 4471/2012 defende medidas para combater a impunidade das mortes cometidas por agentes do Estado.

Ainda em tramitação, o PL não tem previsão para votação.




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