Educação

RETORNO ÀS AULAS EM SP

"Nossas vidas importam?": os educadores da EMEF Senador Miltom Campos querem saber

Trabalhadoras e trabalhadores da educação do município de São Paulo estão lançando cartas em repúdio ao plano de retorno às aulas presenciais apresentado nas últimas semanas pela Secretaria Municipal de Educação. Abaixo publicamos a carta da EMEF “Senador Miltom Campos”.

quarta-feira 22 de julho| Edição do dia

O prefeito Bruno Covas, do mesmo PSDB de João Doria, junto ao secretário da educação Bruno Caetano, apresentaram um plano com protocolos de retorno às aulas presenciais que foi rechaçado pelos professores e professoras municipais. Isso porque, em meio a uma pandemia que segue ascendente, o governo municipal não apenas quer obrigar estudantes e trabalhadores da educação a retornar à escola, como faz isso com um plano completamente distante da realidade do chão das escolas.

Diante dessa situação, as educadoras e educadores começarem a se auto-organizar para manifestar que são contrários à esse retorno, enxergando muito bem como não há entre os governantes nenhuma preocupação real com a saúde e a vida dos estudantes e profissionais. Nós do Esquerda Diário vemos esse processo com muito entusiasmo, pois acreditamos que é com a auto-organização dos trabalhadores que poderemos dar saídas reais à essa crise sanitárias, assim como são os professores e todos trabalhadores da educação - incluindo as equipes de limpeza e alimentação - quem podem realmente planejar um possível retorno às aulas presencial que seja seguro para todos.

Publicamos abaixo a carta escrita pelos trabalhadores da EMEF “Senador Miltom Campos”, que logo no título traz o questionamento mais essencial que deve ser feito aos governos que atuam movidos pelos interesses do capital e não da saúde das pessoas: nossas vidas importam? Não confiamos nesses governos, para nós as nossas vidas valem muito mais do que os lucros deles.


E daí? Nossas vidas importam?

Os 66% dos trabalhadores que morreram devido à covid-19 ganhavam menos de três salários mínimos. Ou seja, menos de R$ 3.135,00. Isso demonstra o endereço, cep e bairro dos óbitos: são os pobres que estão morrendo. Qualquer vida importa? Essa pergunta parece uma provocação, mas “E daí?”, como disse certo elemento.

No El País, Alberto Aragon, professor da UGR Universidade de Granada disse “... a preparação para a volta em setembro não é só insuficiente, mas também foi deixada nas mãos das escolas, algo que ‘obviamente’ excede sua capacidade organizacional e de recursos”. No mesmo material, o professor faz projeções sobre o retorno e a multiplicação de possíveis novos casos. Levando em conta as interações em uma sala de aula com 20 alunos, chegaríamos a 74 contatos em um dia, 808 em dois dias e 15 mil em três dias, isso “sem distanciamento e sem máscara da própria classe e das classes de seus irmãos e irmãs”.

É uma matéria para a Espanha. Na mesma matéria, faz também projeções para uma turma com 25 alunos, mas não precisamos apontar os números levantados, porque o parágrafo anterior dá uma dimensão do tamanho da crise.

O que há de comum entre nós e a Espanha? É a existência da escola. Sobre a pandemia não, pensando em quantidade de infectados e mortos não, principalmente tendo como exemplo o distrito da Brasilândia (maior número de infectados e óbitos). Outro elemento que não coincide com os espanhóis é a previsão de retorno às aulas, o que para eles aconteceria em setembro, enquanto aqui seria agosto. Mas o comum é que um formulário busca “democraticamente” colocar na mão das escolas as propostas de acolhimento (alunos, familiares e educadores), além de uma mudança no currículo, ou seja, adaptá-lo a esse retorno, com formulações sobre o espaço predial. Aqui, ressaltamos que anteriormente esse espaço já necessitava de reformas e adequações importantes, que há anos não conseguimos realizar por questões financeiras e burocráticas, que tão bem conhecemos. Teria agora verba e facilidade para tais necessidades e adaptações em tão curto espaço de tempo?

Consideramos que, nesse momento, diante de tais circunstâncias, ouvirmos e participarmos das propostas das unidades escolares é uma grande armadilha, que nos remete a uma imensa responsabilidade que não é nossa e sobre a qual não temos a menor condição de opinar garantindo a segurança e integridade dos envolvidos. Não somos especialistas em saúde, nossa especialidade é a educação!

Podemos, no entanto, apontar que não há segurança para ninguém. Não há instalações, em nenhuma escola, que sejam adequadas. Não há EPIs que deem conta do contágio (haja vista a propagação da doença entre os profissionais da saúde). Não há funcionários que consigam evitar que crianças e adolescentes se aproximem a menos de 2 metros uns dos outros. Não há número reduzido de alunos que garanta que não haja contaminação, e ninguém está disposto a pôr a vida em risco para mostrar o que a ciência e a realidade, em outros países, já comprovaram. Qualquer pessoa infectada estará transmitindo a doença, sem saber, vários dias antes de aparecerem os primeiros sintomas, antes da primeira tosse ou antes que apresente febre. Como colocar tantas vidas em jogo? Brincaremos de roleta-russa? Nessa situação, falar em rever o Projeto Pedagógico parece ser um escárnio sobre os cadáveres dos milhares que já se foram.

Serão as nossas vidas e de nossos alunos que estarão ali, a vida de toda a comunidade que estará exposta no chão da escola! Com uma política que nega as orientações da OMS e expõem ao coronavírus a classe trabalhadora em locais e transportes públicos lotados, o governo conta que a população sobrevivente ficará imunizada para retornar rapidamente ao setor produtivo. Porém isso levará ao extermínio de milhões de vidas negras e pobres no Brasil. Quem se importa com isso?

A nossa escola não é diferente das outras da periferia da cidade, trabalhamos com um rodízio de água, muitas vezes devido à problemática da Sabesp, aliado à constante falta de material de higiene como sabonete, papel higiênico, álcool em gel e bebedouros em condições salutares.

Entendemos que as famílias precisam ter onde deixar seus filhos e que eles precisam estudar, mas a vida é um bem irrecuperável depois da morte e estaremos condenando essas crianças se as enviarmos para as escolas enquanto os níveis de transmissão não estiverem de acordo com a OMS. Além disso, vale ressaltar que a situação financeira em que o Brasil se encontra é um plano minuciosamente construído para deixar a maior parte da população cada vez mais pobre e uma minoria privilegiada cada vez mais rica. Não podemos ceder ao massacre que se deseja impingir aos menos favorecidos.

“Ora! Vão dizer que são contra ouvirmos as propostas das unidades escolares?” Diremos que sim nesse momento, porque é uma armadilha participar disso. “Não estamos entendendo! Quando o governo faz, ouve que não consultou e, quando consulta, não querem ser consultados?” É isso mesmo e explicamos o porquê.

Seguem alguns dados sobre as consequências da covid-19:

17/03 – 1 MORTE;
17/04 – 2.041 MORTES;
17/05 – 15.662 MORTES;
17/06 – 45.456 MORTES.

Ao escrevermos esse texto já passamos de 46.510 mil mortes. Qual a novidade do momento? O retorno do comércio, que deveria ocorrer com alguns parâmetros de distanciamento, portas entreabertas, meio período, etc., mas vemos que no dia a dia, na prática, não é bem assim que acontece. Aqui, a prática é um critério da verdade. Para os educadores, outro fator é parte desse momento: um formulário e pautas nas reuniões de Coordenadores Pedagógicos, Gestores e professores da DRE FÓ/Brasilândia para um “possível” retorno às aulas. Qual o critério para qualquer avaliação para essa “possível” abertura das escolas para alunos e alunas? Não há critério. Pior! As intenções são sempre baseadas em apenas intenções.

Novamente a SME erra quando orienta para as DREs – a partir de um formulário – mas o que é pior, busca corresponsabilizar o conjunto dos educadores quando propõe para eles que pensem propostas de acolhimento, de medidas para cada escola...

Ora, a SME não sabe como tratar essas questões? Claro que sim. Mas busca-se democratizar a reflexão para pôr em risco vidas. Então a resposta à indagação provocativa “Todas as vidas importam” não é tão evidente. As vidas, com essas iniciativas, não importam, porque “a economia não pode parar” e se o motor produtivo não para, por que a escola deve se manter fechada?

Não há currículo que se sustente quando a vida está em risco.

Não há pedagogia que sobreviva quando não há gente para praticar.

Responder as questões que a SME quer significa o quê? Significa que, infelizmente, poucas vidas importam. Mesmo que muitos e, aqui são muitos mesmo, apontem todas as medidas necessárias, porque essas medidas colocarão as vidas em riscos.

Haverá contratação de ATEs? Haverá mudança arquitetônica? Haverá descongelamento de salários? Haverá teste? Haverá rodízio de alunos? Haverá máscara para todos? Haverá Termômetro? Haverá alimentação no mesmo horário? Haverá, haverá, haverá? Quantos “haverás” merece a resposta? Para planejarmos retorno, precisamos ter como pauta as respostas desses “haverá”.

Nós, profissionais da educação, conhecedores da realidade das escolas e das comunidades onde estão inseridas, não compactuaremos com a inépcia governamental que pratica uma política de genocídio contra pobres e negros no país e que agora recebe apoio de governadores e prefeitos nessa descabida reabertura do comércio, antes mesmo de se atingir o pico de propagação da covid-19. Devido a isso, haverá ainda milhares de mortes nas próximas semanas. Não permitiremos que tamanha irresponsabilidade ocorra também nas escolas.

No Portal PEBMED, há uma publicação atualizada em 16 de junho sobre o potencial de transmissão do vírus e a disseminação a partir de hábitos simples. Nela há a descrição de como se deram as transmissões nos escritórios da empresa Webasto, Stockdorf, Baviera, Alemanha. O que vale ressaltar nesse caso é que “todos os pacientes citados estiveram assintomáticos ou com quadro subclínico durante os eventos associados à transmissão viral”, ou seja, transmitiram o vírus sem apresentar nenhum sintoma. (Fonte: https://pebmed.com.br/a-possivel-transmissao-de-sars-cov-2-por-simples-habitos/).

Na página do jornal “O Globo”, do dia 16 de junho, o MEC diz que vai estender o prazo para atividades à distância no ensino superior até 31 de dezembro. No ensino superior(!), no qual é muito mais fácil a manutenção do distanciamento mínimo e o uso de EPIs. (Fonte: https://oglobo.globo.com/sociedade/ministerio-da-educacao-vai-estender-prazo-para-atividades-distancia-no-ensino-superior-ate-31-de-dezembro-24482687).

Nenhum argumento justifica o retorno às aulas nesse panorama. Não há como justificar nem mesmo essa discussão. Se há alguns tão inconsequentes no governo, o mesmo não pode ocorrer entre profissionais da educação. Nossa responsabilidade é com a vida, com o bem-estar e a segurança de nossos alunos e a nossa própria. A pior alternativa é penalizar quem já está penalizado: os filhos e famílias de nossas escolas. Vale ressaltar aqui que muitos profissionais das Unidades Escolares, em trabalho, pelo fato das escolas não terem sido totalmente fechadas, já perderam suas vidas e infectaram também seus familiares.

Não se fala em retorno às aulas enquanto houver mortes. Qualquer pessoa sã compreende que é impossível prever quais serão as necessidades reais quando o momento de retorno chegar. Portanto qualquer “previsão” ou “planejamento” é leviano e irresponsável.

Nosso documento também é um desabafo. Qualquer vida importa? Categoricamente não temos dúvidas. Sim, nossas vidas importam! O que precisamos discutir nesse momento? Tudo, menos o retorno!

Equipe Gestora e Professores.
EMEF “Senador Miltom Campos”




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