Sociedade

MANCHAS DE ÓLEO NO NORDESTE

Nossas praias estão mesmo limpas, ministro?

Enquanto centenas de localidades continuam visivelmente contaminadas pelo óleo, o ministro do turismo afirma em Morro Alto, no Pernambuco, que as praias do nordeste estão aptas para receber banhistas.

sábado 26 de outubro| Edição do dia

No dia de ontem (25), em entrevista ao jornal NE1, da TV Globo,o ministro do turismo, Marcelo Álvaro Antônio, molhou ou pés em uma praia em Morro Alto, Ipojuca, em um resort no litoral sul de Pernambuco, uma das poucas praias que já foram limpas e liberadas para o banho de mar. A partir de seu sobrevoo de helicóptero, o ministro afirmou que as praias da região (sem especificar quais) estão limpas, com a situação controlada, aptas para banho e que é preciso desmistificar a visão “equivocada” de que as praias do nordeste estão inacessíveis. Enquanto isso, Ibama soltou hoje que o óleo já atingiu 288 localidades, totalizando 2.250 quilômetros afetados. Especialistas não param de alertar como o impacto do óleo no meio ambiente vai durar décadas, tendo atingido em blocos submersos diversos corais da região de Pernambuco. Das 132 praias afetadas, 11 delas estão em processo de limpeza e 74 ainda tem manchas visíveis.

As praias nordestinas estão com altos índices de contaminação e a cada dia o óleo chega a mais e mais lugares, enquanto o ministro Ricardo Salles insinua que o Greenpeace estaria envolvido no desastre.

O descaso com a população é claro na reportagem: o ministro reuniu-se com empresários do litoral sul, em Porto de Galinhas, para discutir soluções para o turismo da região. A população que é quem de fato está sendo afetada econômica e fisiologicamente com a contaminação dos mares foi lembrada apenas como contribuidora auxiliar dos “eficientes” organismos do governo e estatais que teriam sido os responsáveis pelo “ótimo” trabalho na região. Segundo o ministro, era importante ressaltar “a ação conjunta e eficiente do governo federal liderado pelo ministério do meio ambiente, pela marinha, junto com o IBAMA, o governo estadual, as prefeituras e, sobretudo essa força e liderança do povo nordestino que voluntariamente se juntou a essas forças enviadas pela união, estado e município”.

A demagogia a serviço dos empresários é estonteante. A população nordestina sentiu na pele o descaso do governo em relação às manchas de óleo no litoral da região, ilustrado, por exemplo, pelo fato de que o ministro do meio ambiente acionou o plano de contingência no nordeste somente 41 dias após o desastre começar a ser evidenciado nos mares. Durante esse tempo, as populações locais se organizaram voluntariamente para limpar suas praias, entrando em contato com substâncias tóxicas, com vários relatos de voluntários que declaram sentir tontura, náusea e alergia nos dias subsequentes.

Nesse sentido, mais um ministro do governo Bolsonaro entrou no hall das declarações ultrajantes sobre o tema: o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou ontem (24) que essa intoxicação era acarretada pelo uso de produtos tóxicos para retirar as manchas que haviam ficado grudadas em suas peles. De toda forma, ele demandou à população que evitasse o contato direto e indireto com o petróleo cru. Segundo o portal G1, voluntários entrevistados que haviam tido sintomas de intoxicação após limpeza das praias negaram ter utilizado produtos tóxicos para retirar o óleo da pele, relatando que haviam usado apenas óleo de cozinha, água e sabão.

Após ser perguntado novamente pelo repórter se as águas estariam propícias para banho, afinal sua declaração otimista generalizada indicava que os mares do nordeste estavam em maior parte limpos, o ministro do Turismo afirmou que temos que aguardar que a limpeza possa ser feita nos pontos onde foram identificados que existe incidência de óleo para assim liberar para o banho de mar. Segundo a reportagem, o governo vai fazer campanhas publicitárias para continuar incentivando o turismo na região do nordeste para não afetar os empresários com essa imagem.

Ou seja, mais uma vez o governo usa de manobras para confundir e enganar a realidade das praias nordestinas de modo a favorecer os empresários que não querem perder seus lucros em cima da exploração do turismo da região. Para a população, também dependente do turismo, sobram desinformações e contágio tóxico. Tanto faz se nosso litoral está longa e amargamente contaminado. O importante é fingir que não está, é esconder o problema, é dizer que já está prestes a ser resolvido.

A população brasileira não cai nessa demagogia e sabe que seus mares não estão nada lindos e limpos e, por isso, estão organizando atos contra o descaso e a destruição do meio ambiente. Não vamos aceitar a negligência desse governo que não para de colecionar demonstrações de que está apenas a serviço do lucro de uma minoria e que fará tudo para tentar desviar os produtos da crise econômica, social e política criada por parcelas dessa mesma minoria sobre as costas dos setores populares e de trabalhadores.




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