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Nossa Classe: 5 lições da luta dos metroviários de SP contra Doria em meio à pandemia

segunda-feira 10 de agosto| Edição do dia

No dia 28 de julho, os metroviários de SP demonstraram uma enorme força, quando entraram em greve, com uma fortíssima adesão e unidade dos trabalhadores contra os ataques de Doria e da empresa, barrando o avanço sobre dezenas de direitos, entre eles o plano de saúde, o auxílio doença e auxílio transporte. Uma importante vitória política que mostrou ser possível, através dos métodos da classe trabalhadora, impedir a ofensiva que Bolsonaro, os governadores, o congresso, o judiciário e os patrões estão fazendo com retirada de direitos e demissões de milhões de trabalhadores pelo país.

Foram quase 3 meses de uma longa batalha que os metroviários enfrentaram, em meio à pandemia, onde seguiram prestando um serviço essencial à população. Ao mesmo tempo em que Doria e a empresa deixaram a categoria, principalmente os terceirizados, expostos à contaminação por Covid-19, sem os EPIs adequados, sem contratação, convocando idosos para o retorno ao trabalho. E com isso deixaram mais expostos também os milhões de usuários, que são parte da maioria dos trabalhadores que não tiveram direito à quarentena.

Nós do Movimento Nossa Classe (MRT e independentes) saudamos todos os milhares de metroviários que participaram dessa luta e assim impuseram esse recuo ao governo, e com esse texto gostaríamos de contribuir apontando 5 lições que acreditamos que seja de muita importância serem tiradas desse longo processo, onde estivemos participando ativamente, defendendo nossas ideias e propostas na diretoria do sindicato (que compomos como minoria pela Chapa 4), nos debates nos nossos locais de trabalho, setoriais, assembleias e também através do Esquerda Diário.

1 - A determinação e unidade dos trabalhadores na luta foi o que garantiu esse resultado, e só com a luta é possível barrar os ataques e conquistar direitos
 

Várias foram as rodadas de negociação em que a empresa se mostrou intransigente. Como apontamos desde o início, esse não era mais um ano de “bode na sala” e o Metrô via nesse delicado momento de pandemia uma oportunidade de efetivar covardemente os ataques que já vinha tentando aplicar em outras campanhas salariais.

No mesmo sentido alertamos sobre a justiça, onde o TST, já em maio, caçou a liminar que garantia a extensão do prazo de validade do acordo coletivo por mais três meses, deixando assim aberta a oportunidade para o Metrô nos atacar. E também em nenhum momento durante as negociações a justiça determinou que o Metrô retrocedesse dos cortes salariais que efetuou de forma arbitrária, nem de nenhum ataque, e ao contrário ameaçou nossa greve com multas.

Por isso mesmo sempre dizíamos que só a força da nossa mobilização poderia impor um recuo ao governo e à empresa para manter nosso acordo coletivo. Posição que defendemos desde o dia 30, para que entrássemos em greve, naquele momento junto aos entregadores e onde infelizmente todas as demais chapas foram contra (com exceção de algumas organizações da chapa 2 como CST e MES, do PSOL).

No dia 28/07, ficou mais que comprovado: a determinação e unidade dos trabalhadores na luta foi o que garantiu a manutenção de nosso acordo coletivo. Desde o início nós chamamos a diretoria do sindicato a atuar em unidade com essa perspectiva de fortalecer a luta. Infelizmente não foi esse caminho que a Chapa 1 (CTB/PCdoB e CUT/PT) buscou construir desde o início, preferiram depositar suas esperanças na MP 936, que ataca os trabalhadores, na expectativa de aprovação de uma emenda na MP que garantisse a prorrogação dos acordos coletivos, o que obviamente foi vetado por Bolsonaro. E depois apostaram em negociações com a empresa e com a justiça que, sem a pressão da greve, na prática serviram apenas para adiar nossa luta. Uma atuação que é condizente com o que essas centrais fazem nos milhares de sindicatos que dirigem no país, onde também não constroem a luta, mantendo a trégua com os governos e deixando passar os ajustes e contrarreformas sobre os trabalhadores. Inclusive nas linhas 4 e 5, onde a chapa 1 negociou a aplicação da MP 936 e os metroviários estão sob redução salarial.

Ou seja, faltou uma decisão da direção de nosso sindicato em confiar no caminho da luta, preparando a categoria para uma forte mobilização desde o início, pela base e com seus próprios métodos, como é a greve. Também estendemos o balanço à Chapa 2 (integrada por PSTU, CST/PSOL, MES/PSOL), que depois do dia 30 reviu sua posição e passou a defender a greve, e à Chapa 3 (integrada por Resistência/PSOL, FPSM, UP) que teve uma postura adaptada à Chapa 1, depositando confiança nas negociações com a empresa e na justiça, sem apostar na força da categoria mobilizada.

Apontamos essas questões porque é preciso aprender com essa experiência para fortalecer as próximas lutas. Sempre batalhamos pela unidade de toda a diretoria na luta. Mas é natural que existam divergências, e a forma de construir a unidade é justamente debatê-las abertamente, e não tentar apagar a posição de ninguém, pois assim o conjunto dos trabalhadores pode decidir quais as melhores propostas para defender nossos direitos. O que dificultou nossa luta durante as primeiras semanas não foi a existência em si de divergências, e sim o motivo delas, que foi uma parte da direção querer seguir por um caminho que não era a luta (o que nos levaria a perder direitos), e a falta de espaço para os trabalhadores discutirem, apresentarem propostas e decidirem em setoriais e assembleias democráticas.

2 - É preciso avançar na democracia dos trabalhadores, com assembleias democráticas e a auto-organização pela base

Desde o início, nós da Chapa 4 sempre buscamos defender a participação ativa e democrática da base da categorianas decisões e nos rumos de nossa mobilização para fortalecer a luta. Mesmo com todas as dificuldades impostas pela pandemia e pela empresa, que proibiu a realização de setoriais, buscamos propor meios que possibilitassem a discussão de forma segura, por entender que esse era um ponto fundamental de democracia operária. Por isso, viemos defendendo que as assembleias deveriam ser abertas para falas e propostas dos trabalhadores, mesmo que de forma virtual. A forma como se deram as assembleias, sem esse espaço, como uma enquete com perguntas pré-estabelecidas entre os coordenadores do sindicato, não contribuiu para que se expressassem diferentes posições ou propostas surgidas de debates feitos na base que poderiam ajudar a luta a avançar.

Por isso também defendemos desde o início a auto-organização na categoria, com a criação de um comitê de representantes metroviários eleitos em reuniões de base virtuais, que pudessem sistematizar as propostas feitas nessas reuniões e que assim fossem levadas para votação em assembleias, que poderiam ser virtuais também. Propostas estas que não foram aceitas e defendidas pelas demais chapas na diretoria.

3 - Precisamos nos unir e defender os interesses do setores explorados e oprimidos da população

Nossa categoria possui uma localização estratégica, ou seja, por prestar um serviço essencial de transporte de pessoas podemos atingir outros setores da economia, impactando a circulação na cidade de São Paulo. Por isso mesmo, no dia 28, em poucas horas de greve conseguimos impor um grande recuo por parte da empresa e do governo.

Além disso, ficou muito evidente para todos, por conta dessa pandemia, o quanto os governos e patrões, que já descarregaram em nossas costas os efeitos da crise, querem aprofundar essa ofensiva, com milhões de demissões, retirada de direitos e condições de trabalho completamente inseguras e de exposição ao coronavírus, atingindo principalmente os setores mais precários que não tiveram direito a uma quarentena remunerada.

Vimos isso com os terceirizados no próprio Metrô, que mesmo prestando um serviço essencial como é a limpeza nessa pandemia, foram os primeiros a serem demitidos, onde nossa categoria teve um gesto de solidariedade de classe, arrecadando dinheiro para poder contribuir com essas trabalhadoras que perderam seu sustento. Mas precisamos avançar para construir a unidade na luta contra ataques como esses, e por igualdade de direitos entre efetivos e terceirizados, a partir de nosso sindicato, na perspectiva da luta pela efetivação de todos, sem necessidade de concurso público. 

Por esses motivos, desde o momento da aprovação da nossa greve, se expressou um importante apoio da população, pois ao estarmos trabalhando todos os dias enfrentando a retirada de direitos e o descaso dos governos frente à pandemia, ficou claro para todos que nossa luta era contra o mesmo tipo de medidas que estão causando um sofrimento ainda maior grande parte da população.

Isso se expressou também na forte repercussão da entrevista à Globo de um dos coordenadores do sindicato, Altino Prazeres (Chapa 2/PSTU), que respondeu muito bem quando o apresentador direitista Bocardi quis desmoralizar os trabalhadores dizendo que nossa greve mostrava descaso com a população, contrapondo o enriquecimento dos bilionários na pandemia ao que os trabalhadores estão sofrendo.

Mas justamente por tudo isso, essa batalha para nos unirmos com a população é fundamental, e tem que ser feita na prática. Nesse sentido, propusemos na diretoria que na assembleia que aprovou a greve pudesse ser colocada em votação também uma declaração de que “Os Metroviários em luta apoiam os entregadores, trabalhadores da CPTM, dos correios, professores e toda a população que está sendo atingida pela retirada de direitos, pelo desemprego, e pelo descaso dos governos frente à pandemia”. Mas infelizmente os companheiros da Chapa 2 (PSTU) foram os primeiros a se colocarem contra sequer apresentar isso à votação, deixando de colocar o discurso na prática, e essa foi a posição também do restante da diretoria. Ainda assim, ficou claro, e é uma lição fundamental a gravarmos, que a chave da nossa força está em mostrar que é pela luta dos trabalhadores que se pode defender os interesses das parcelas mais oprimidas e exploradas do povo.

4 - A necessidade de unidade da classe trabalhadora, das diferentes categorias

Nesse mesmo sentido, defendemos desde o dia 30 a unidade dos metroviários com outras categorias que estavam se colocando em luta, como os entregadores de aplicativos que prestam um serviço essencial nessa pandemia, que são do setor dos transportes assim como nós, mas com inúmeras vezes menos direitos. A aliança entre trabalhadores que têm mais direitos conquistados em lutas passadas com os trabalhadores que mais estão sofrendo com a precarização hoje é estratégica, vai contra a divisão da nossa classe que patrões e governos querem fazer para atacar todos. Naquele momento, nossa paralisação junto aos entregadores teria sido muito potente, defendendo nenhuma retirada de direitos aos metroviários e todos os direitos aos entregadores, por isso lamentamos que a maioria da diretoria tenha se colocado contra essa proposta. Mas o pior é que foram contra até mesmo colocar em votação uma proposta na assembleia do dia 30/6 de apoio à paralisação dos entregadores no dia 1, também com os companheiros da Chapa 2 sendo os primeiros a defenderem contra realizar essa votação.

Por isso, chamamos a todas as demais chapas a seguirmos apoiando os entregadores, e demais categorias que sejam atacadas impulsionando campanhas em defesa de seus direitos e aprofundando iniciativas como as campanhas de fotos em apoio aos entregadores e aos profissionais da saúde, porque cada categoria que perde significa uma perda para toda a nossa classe. Assim como nossas conquistas significaram um grande impulso para as demais!

5 - Corte de todos os supersalários! E subsídio estatal para o metrô público, não para os empresários!
 

Enquanto o Metrô e Doria atacavam nossos direitos, mantêm 400 altos cargos da empresa recebendo acima do teto definido pelo "salário" do governador de R$23 mil, que no total ganham o equivalente a mais de 4 mil trabalhadores recebendo o piso de agente de estação. Além disso, o governo repassou aos empresários das linhas privadas 4-Amarela e 5-Lilás mais de R$200 milhões só em 2019, valor que deve subir muito esse ano, mas não repassa nada para o Metrô estatal. E a direção do metrô defende isso porque, para receber subsídios, o Metrô teria que respeitar esse teto salarial de R$ 23 mil. Assim, queriam manter esses supersalários, às custas de nossos direitos. Por isso nós da Chapa 4 defendemos que a nossa contraproposta à empresa deveria ser o corte de todos os supersalários, com subsídio estatal para que não houvesse nenhum corte de direitos. E achamos que devemos seguir lutando por isso, denunciando que esses são os verdadeiros privilegiados.

 
*

 

Essas são as contribuições que nós do Nossa Classe gostaríamos de apresentar à categoria e debater amplamente com todos os nossos colegas de trabalho e também com o restante da diretoria do sindicato. Tirar as lições e fazer balanços é fundamental para o avanço da nossa luta e para colocar em ação toda a força e potencial que essa categoria demonstrou, para não perder nenhum direito e ajudar a fortalecer a luta dos trabalhadores e dos oprimidos. Inclusive colocando na perspectiva de que a força que demonstramos poderia ter servido para avançar não só em garantir nenhum direito a menos já (pois ainda teremos cortes por seis meses, que afirmam que serão pagos retroativamente, e por isso na assembleia que aprovou a greve, diferente das demais chapas, defendemos também que não deveríamos aprovar essa proposta do MPT, especialmente antes de instalar a greve para verificar a nossa força, que afinal foi enorme, e também por isso chamamos a votar contra encerrá-la na votação da madrugada, posição esta defendida também pela CST/PSOL), mas também avançar por outras demandas como não aceitar a terceirização das bilheterias (com a defesa de incorporação de todos os terceirizados com mesmos direitos e salários), o calote no vale peru e PR. 

A nossa luta não se encerra por aqui, por isso também os debates são importantes para seguirmos mobilizados e organizados desde a base, para as próximas batalhas que certamente virão. Fazemos um chamado a todos que concordem com esses pontos a construírem junto ao Movimento Nossa Classe essas ideias na categoria. E também chamamos a esquerda a debater essas questões pois são conclusões valiosas que essa experiência tem a nos ensinar, fundamental para fortalecer nossas lutas, e que defendendo em unidade teríamos muito mais força para superar os entraves que as direções burocráticas impõem aos trabalhadores.




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