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RODOVIÁRIOS PORTO ALEGRE

"Nós não temos nenhuma proteção, estamos abandonados" denuncia rodoviária de Porto Alegre

Em meio à pandemia as empresas de transporte público de Porto Alegre demitem, cortam salários e submetem os rodoviários que continuam em serviço a condições extremas de exposição ao vírus. Fazem isso com o aval do prefeito Marchezan (PSDB) enquanto a Câmara de Vereadores vota a flexibilização da quarentena na capital, que acarretará em ainda mais passageiros nos ônibus, sobretudo com as reduções de horários. Veja o relato de uma trabalhadora da Carris ao Esquerda Diário.

terça-feira 28 de abril| Edição do dia

"Em primeiro lugar gostaria de expressar minha gratidão ao Esquerda Diário, porque ninguém mais nos da voz. Obrigada Esquerda Diário por permitir que possamos expressar o nosso sentimento.

Eu sou cobradora de ônibus, e sim nós estamos na linha de frente. Muito se fala em profissionais da saúde e da segurança, todo meu respeito e gratidão a esses heróis, mas nós, também estamos aqui. Garantindo que eles possam chegar ao seus locais de trabalho. Nós, transportadores de passageiros. Eu não gosto do termo “rodoviários”. Eu gosto de me sentir transportadora de pessoas, de seres humanos.

Nós não temos nenhuma proteção. Os veículos não recebem higienização adequada, nós não recebemos nenhum equipamento de proteção, a única coisa que nos é oferecida é um frasco de álcool gel. Máscaras muitos começaram a usar por seus próprios meios, agora pelo menos isso a empresa disponibilizou. Eu acredito que nós precisaríamos de pelo menos um par de luvas por viagem. Dinheiro é a coisa mais contaminada que existe já em tempos normais. Em tempos de pandemia dinheiro é quase como uma arma mortal. Hoje em dia, eu olho para uma cédula ou uma moeda, acelera os meus batimentos. Eu sinto medo, me apavora, me desespera.

Eu lembro da minha filha, eu tenho uma filha de 24 anos que é profissional liberal, ela optou por ficar em casa, até mesmo com muito dificuldade. Ela me disse: “mãe, se eu não trabalhar eu não ganho, mas se eu morrer eu não vou ganhar nunca mais”. Eu sinto muito saudade dela, vontade de abraçar ela, de beijar. Fazem muitos dias que nós não podemos nos encontrar. Eu não me atrevo a chegar perto dela ao saber por todo o risco que eu estou exposta. Mas nós estamos aqui. Claro, sem hipocrisia, também pelo nosso sustento. Mas principalmente porque as pessoas precisam se locomover. Eu acho que o mínimo que a gente merecia é um pouco de cuidado e proteção também. E nós estamos abandonados."




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