Política

Nos cem mil pelo Fora Temer, PT não consegue hegemonizar com a linha ’Diretas Já’

André Augusto

São Paulo| @AcierAndy

quarta-feira 7 de setembro| Edição do dia

O ato deste domingo em SP foi inesperado: soou o alarme para o governo golpista de Temer, a negócios na China. Foi bem maior do que se esperava. Questionado na China sobre o tamanho do ato que reuniu 100 mil pessoas em São Paulo pelo Fora Temer, Meirelles foi obrigado a admitir que se trata de “um número bastante substancial” , desdizendo a linha depreciativa de Temer que julgava que os atos eram de “40 pessoas”. O “zelador com mandato fraco”, termo com o qual os chefes de governo do G20 se referem cortesmente a Temer, ficou calado.

A imprensa golpista – que construiu a fábula da “manifestação de 1 milhão” da direita, atrás da qual Meirelles se escondeu na mesma declaração – também alertou Temer. “Uma boa dica, nesta largada [de governo], é evitar o risco de tropeçar nas palavras. Mais de 40 foram às ruas neste domingo. E eles fazem parte do Brasil que Temer terá de governar,” escreve Valdo Cruz da Folha.

Estes “mais de 40” são expressão de que a consumação do impeachment não pôde fechar a crise orgânica do regime político burguês. Esta se mantém aberta e a todo vapor: não importa os malabarismos que tente fazer Temer, é impossível esconder o ódio de setores de massas contra o golpe institucional. O “Fora Temer” e o “Temer golpista” retumbaram nas ruas, nos ônibus e nos metrôs da capital paulista (assim como se fizeram ouvir nos atos nacionalmente).

E não apenas contra Temer. Esta raiva de setores de massas da juventude e dos trabalhadores recai também sobre os partidos tradicionais da direita, o PSDB e o PMDB, e todo o espectro de partidos da ordem.

Se o PT está em frangalhos depois de aplicar duros ajustes contra os trabalhadores e assumir toda a corrupção própria dos governos capitalistas mais reacionários, o PSDB não anda muito melhor. Está rachado, sem um líder claro; a divisão tucana no Congresso, de um lado entre o paulista Aloysio Nunes junto ao paraibano Cássio Cunha Lima, e o mineiro Aécio Neves, mostra que há disputas internas fortes e ausência de plano claro. Ademais, os tucanos têm cargos no governo, mas não tem narrativa. Envolvidos nos esquemas de corrupção da Petrobrás, é notável como não encantam ninguém mesmo durante a crise histórica do petismo.

Haveria alas no tucanato ruminando nos bastidores a construção de uma nova mediação liberal de direita? Não seria impossível. A história da Operação Mãos Limpas na Itália mostra como investigações dessa envergadura já deram origem a novos partidos populistas de direita, como o de Berlusconi depois de 1992.

Do PMDB nem se fala, seus inúmeros caciques regionais se dividem de acordo com interesses próprios; a divisão mais notável é entre Renan e Temer. Renan Calheiros e Michel Temer já nutrem antipatia de longa data. Com a votação separada no Senado que permitiu que Dilma preservasse o direito de ocupar cargos públicos depois do impeachment, essa antipatia se tornou disputa aberta. Renan disse na posse “estamos juntos”, que soa como advertência que significa “me leve a sério senão o Congresso estará contra você”. Temer deu mais de um aviso, já na China, de que “quem estiver insatisfeito com o governo, que desembarque logo”. Ainda que sejam balas de festim, alertas com endereço certo.

A nova política do PT, “Diretas Já”

A consumação do golpe muda o cenário estratégico do país. O ato de domingo mostrou isso. Dilma vinha aplicando um ajuste brutal e impediu, através da CUT, CTB e outras burocracias, qualquer luta. O PT impediu uma luta decidida contra os golpistas. Uma vez consumado o golpe, o PT – que antes escondia suas intenções de desvio por trás da consigna de massas “Fora Temer” – aprovou em sua Executiva Nacional a linha de “Diretas Já”, através da qual busca transformar o ódio legítimo contra o golpe em atos eleitorais pró-PT para outubro e em especial para 2018.

Trata-se da defesa de “Lula já” ou de instaurar uma longa campanha eleitoral para colocar um novo governo ajustador no poder, desta vez ungido pelas urnas. A condução do ato por Vagner Freitas da CUT e Guilherme Boulos do MTST quis imprimir este caráter à manifestação.

Ou seja, o PT tem sua nova fórmula para recompor o regime pactuado com a direita, com a realização de novas eleições. Busca assim desviar a raiva contra o golpe e os ajustes a um desgaste até outubro de 2018, e bloquear uma luta séria agora.

Entretanto, também foi visível neste ato que, por ora, o PT não conseguiu identificar a raiva contra o golpista Temer com sua linha política de Diretas Já. Se a agitação por Diretas Já teve alguma ressonância, foi expressivamente menor que esta raiva contra a direita e o potencial de uma política independente. Para amplos setores, as consignas “Fora Temer” e “Diretas Já” não estão identificadas como querem os aparatos petistas.

Está aberta a disputa política pelo conteúdo do Fora Temer.

A disputa pelo conteúdo do Fora Temer

Nós do MRT preparamos um bloco para intervir com uma política independente e fomos parte da disputa num setor significativo do ato para que a luta contra a direita se desse de maneira independente do PT e seu “Lula Já”. Fomos a única organização da esquerda que colocou com personalidade a exigência de que a CUT e a CTB rompessem sua passividade e cumplicidade com o golpe, e convocassem assembléias de base para preparar um plano de luta sério com piquetes e paralisações e uma greve geral contra os ataques e para derrubar o governo Temer com os métodos da classe trabalhadora.

A maioria da esquerda presente no ato, o PSOL (MES, NOS, LSR, RUA, APS e 1º de Maio) e o MAIS, ergueram juntos a bandeira das “Eleições Gerais”, chegando a cantar junto com a burocracia sindical o lema de Diretas Já. A consigna de Eleições Gerais, compartilhada desde o golpista PSTU até o MAIS que repudiou o golpe, já era incapaz de se delimitar com as alas da direita burguesa insatisfeitas com Temer, como Marina Silva da Rede; neste novo cenário, é também funcional ao “Lula já” do PT, que busca recompor o regime com a direita. Querendo alterar os políticos sem questionar as regras do jogo, a esquerda segue levantando uma política de relegitimação dos ataques e dos ajustes com a chancela das urnas, fazendo o jogo eleitoral da burocracia sindical petista, que mais que nunca buscará paralisar a ação independente dos trabalhadores e desviar sua insatisfação à campanha por Lula.

O MES, corrente de Luciana Genro, agrega a isso seu vergonhoso golpismo através do autoritarismo judiciário, exigindo o seguimento da pró-imperialista Lava Jato e apoiando o direitista Sérgio Moro em suas “10 medidas contra a corrupção”, que buscam substituir um esquema de corrupção com a cara petista por um com o rosto da direita.

Nem a Lava Jato, nem a reforma política que censura a esquerda já nestas eleições, e muito menos as “Eleições Gerais” (filial política do Diretas Já do PT) pode dar uma saída progressista à profunda polarização social e à crise orgânica no Brasil. Para a esquerda, é fundamental entender que o combate aos golpista exige a mais irrestrita independência política do PT e o combate à burocracia sindical. Dessa forma, a partir da candidatura anticapitalista de Diana Assunção, defendemos que um plano de luta sério encabeçado pelas centrais contra os ataques é a base para impor, através da mobilização, uma nova Assembléia Constituinte, desde uma perspectiva anticapitalista, que questione todo o podre Regime de 1988 e que comece a combater os privilégios e a corrupção, impondo o fim da dívida pública e que todo juiz e alto político seja eleito e revogável e que recebam o mesmo salário de uma professora. Uma constituinte que coloque em discussão os grandes problemas da população trabalhadora, que é o direito à saúde, educação, moradia, emprego a subordinação do país ao imperialismo com a dívida pública.

Estas consignas podem avançar em “perfurar” as instituições da democracia dos ricos, questionando seus privilégios em meio a tamanha crise econômica que gera quase 12 milhões de desempregados no país, preparando as condições de sua derrota e substituição por um governo dos trabalhadores em seu aspecto anticapitalista e antiburguês.




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