Sociedade

DUAS POLÍCIAS

Nos Jardins a abordagem deve ser diferente, afirma comandante da assassina Rota

O novo comandante da Rota (Ronda Ostensiva Tobias Aguiar), uma das tropas mais assassinas da polícia militar de São Paulo, afirmou que a abordagem policial deve ser diferente nos Jardins e na periferia, colocando em palavras a barbárie policial cotidiana com a população negra da periferia paulistana.

quinta-feira 24 de agosto| Edição do dia

A entrevista do tenente-coronel Ricardo Augusto Nascimento de Mello Araújo, 46, o novo comandante da Rota, foi dada ao portal UOL um dia antes da operação tolerância zero nas ruas da capital. Veja um trecho abaixo:

"A gente pega um policial que trabalha numa área de periferia e um policial que trabalha nos Jardins. Já muda. Você pega o policial que trabalha nos Jardins, a forma que ele vai lidar com a comunidade, ou com as pessoas que transitam por lá, é totalmente diferente de um policial que trabalha na periferia. Ele usa a mesma técnica, ele vai trabalhar com a mesma doutrina, mas a forma de se abordar e de se falar com a pessoa é diferente. Porque aquela comunidade numa região periférica, se eu colocar o policial dos Jardins pra trabalhar, ele vai ter no começo uma dificuldade pra se adaptar a essa realidade. É uma outra realidade. São pessoas diferentes que transitam por lá. Se ele for abordar a pessoa da mesma forma que abordaria uma pessoa aqui nos Jardins, ele vai ter dificuldade, ele não vai ser respeitado. Da mesma forma se eu coloco um da periferia pra lidar, falar da mesma forma, com a mesma linguagem que uma pessoa da periferia fala aqui nos Jardins, ele pode estar sendo grosseiro com a pessoa dos Jardins que tá ali andando. Até a forma de falar."

Assim, Araújo deixa claríssima a forma como a polícia é treinada explicitamente para tratar de um jeito "menos educado", nos eufemismos usados em frente às câmeras, a população da periferia.

O que sabemos é que uma das polícias mais assassinas do mundo mata indiscriminadamente nas periferias, e encarcera em massa, principalmente a juventude negra. Casos como o de Rafael Braga, no Rio de Janeiro, que segue preso por flagrantes forjados, são a regra. Execuções às centenas e milhares, como vimos nos crimes de maio de 2006 ou em recorrentes chacinas policiais, sempre ocultadas sob o disfarce jurídico dos "autos de resistência", uma verdadeira legalização dos assassinatos policiais, são a forma de agir da Rota nas periferias.

Nos Jardins, no entanto, onde os moradores ricos são "diferentes", o policial deve ser mais "educado". É assim que funciona essa instituição assassina, cujo papel social é exatamente o de manter a distinção social em um mundo dividido em classes e profundamente desigual.




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