Internacional

MOBILIZAÇÕES CONTRA O AUTORITARISMO

Noites de revolta no subúrbio de Paris

Desde domingo, vários bairros populares protagonizaram revoltas depois que um homem foi gravemente ferido pela polícia em Villeneuve-La-Garenne, no sábado. Uma faísca que revela que, com confinamento repressivo e um sistema de saúde emergencial, o governo está fazendo com que os habitantes de bairros populares paguem caro pela crise.

quarta-feira 22 de abril| Edição do dia

“Quando isso começar de novo, como 2005, você não deve se surpreender”. Essas palavras são as do rapper Dosseh, depois que um homem em uma motocicleta foi gravemente ferido na perna, pela polícia, no sábado, em Villeneuve-la-Garenne, um bairro popular da periferia de Paris. Como profecia, desde domingo à noite, vários bairros populares estão em chamas.

Começou em Villeneuve-la-Garenne, onde a raiva foi expressa em uma noite de revolta. O site Bondy Blog informa: "Por duas horas, os jovens do bairro desafiaram a polícia com morteiros e latas de lixo queimadas". Mas também em outras cidades do subúrbio parisienses: Fontenay-sous-Bois; Saint-Ouen; Aulnay-sous-Bois; Villepinte; e Neuilly-sur-Marne, e em outras cidades da França, como La Reynerie, em Toulouse, Amiens Nord, em Lormont, perto de Bordeaux, os jovens desafiavam o confinamento para protestar contra a violência policial. A resposta clássica do Estado consistiu em um desdobramento espetacular da polícia, que não hesitou em reprimir a imprensa, como evidenciado pela prisão, durante a noite, do jornalista e militante anti-racista Taha Bouhafs.

Desde que a epidemia do coronavírus chegou à França, o tratamento da crise dado pelo governo foi reduzido a medidas repressivas e anti-sociais, em que estabeleceu, em 23 de março, um estado de emergência sanitária. A falta de preparação e a estratégia catastrófica do governo, responsável pelo colapso do sistema público de saúde e de pesquisa, levaram-no a impor um confinamento brutal e repressivo, não sendo capaz de adotar uma estratégia de saúde à altura da gravidade da pandemia global. Seguindo os passos do racismo estatal e das políticas repressivas impostas aos habitantes dos bairros populares, em grande parte decorrentes da imigração pós-colonial, a gestão policial da crise da saúde exacerba a exclusão social e a miséria nesses bairros, já afetados pelas desigualdades, enquanto a polícia tem, mais do que nunca, as mãos livres para agir.

Nos bairros populares, o confinamento brutalmente imposto pelo governo resultou em uma perda significativa de renda para muitas famílias que já viviam com salários precários, especialmente nos setores mais afetados pela crise, como o de serviços e o de gastronomia. Muitas famílias sobrevivem hoje graças à ajuda de instituições de caridade e de coletivos de bairro.

"Mercado Vermelho" e repressão policial}

Em Marselha, o McDonald´s de Saint-Barthélemy http://www.laizquierdadiario.com/Trabajadores-de-McDonald-s-toman-un-local-en-Marsella-para-repartir-comida-en-barrios-populares foi ocupado por trabalhadores e moradores dos bairros do norte para organizar a distribuição de alimentos e o armazenamento em câmaras frigoríficas, contra a administração francesa do McDonald´s. De fato, na área de Marselha, muitos coletivos se organizaram para ajudar as populações mais vulneráveis: migrantes, sem-teto, famílias sem renda, trabalhadores pobres. Nair Abdallah, membro do coletivo Maison-Blanche, declarou em 9 de abril ao Révolution Permanente: "As famílias nos dizem que não têm mais nada para comer, por exemplo, uma mãe explicou que só havia tomado sopa de cebola com seus três filhos por mais de três dias".

Em 10 de abril, durante uma distribuição organizada pelo coletivo El Manba, no 1º distrito de Marselha, a polícia interveio e multou cinco ativistas, acusados ​​de não respeitarem o confinamento e os sinais da barreira, antes de deixar o "mercado vermelho". O grupo respondeu em um comunicado à imprensa: "Não nos divertimos em correr o risco de violar as medidas sanitárias de segurança, medidas que não questionamos. No entanto, é urgente organizar solidariedade com as pessoas mais afetadas por esta crise; e sabemos que não temos nada a esperar do Estado, pois, confinados ou não, ele maltrata essas pessoas diariamente.” Ao vincular essa situação à repressão e ao racismo estatal que geralmente ocorrem nos bairros da classe trabalhadora, aumentados agora durante o período de confinamento, os ativistas do grupo continuam em seu comunicado à imprensa: “O número de abordagens em pessoas racializadas se multiplica e aqueles que vivem nas ruas nos dizem que as abordagens são violentas, com espancamentos, gases e perseguições de carros, estão mais diários do que nunca. Quando as ruas estão livres de possíveis testemunhas, todo o espaço fica livre para a impunidade da polícia ".

Embora os habitantes dos bairros populares estejam hoje na linha de frente, é preciso lembrar também que, há apenas alguns meses, eram os coletes amarelos nas rotatórias, e depois os grevistas da RATP (empresa de transporte urbano de Paris, N.T.), contra a reforma da previdência nas estações e nos protestos, que pagavam o preço da repressão policial.

Diante do sofrimento diário, o confinamento exacerba a exclusão dos jovens dos bairros da classe trabalhadora. A "continuidade educacional" parece muito difícil para todos os jovens na escola, muito pobres para terem o computador e a conexão à Internet necessários.

Condenados a ficar com a família em casas pequenas, às vezes insalubres, o confinamento acaba sendo um pesadelo para todos esses jovens, que não têm escolha a não ser encontrar a polícia quando saem dos bairros. Sofian, 21, estava a caminho do trabalho. Entregador da Amazon forçado a trabalhar, apesar da pandemia. Ele vê os policiais à distância e, como tinha esquecido a sua permissão, tenta sair rapidamente. Na sequência, um vídeo viralizado nas redes sociais testemunha isso, nele ouvimos os gritos de dor do jovem. Ele foi espancado enquanto estava imobilizado no chão, depois a polícia o levou para a varanda de um prédio para continuar atingindo-o fora da vista de todos.

Este aumento da violência policial é, portanto, combinado com os ataques anti-sociais do governo contra o mundo do trabalho e, antes de tudo, contra os mais precarizados. Nestes tempos de crise econômica e sanitária, os habitantes dos bairros da classe trabalhadora desempenham o papel de variável no ajuste estrutural no mercado de trabalho para as classes dominantes, são "os primeiros contratados e os primeiros demitidos", conforme resumido pelo sociólogo o ativista, Saïd Bouamama, em seu artigo "Inmigración y lucha de clases". Isso implica que o governo mantenha pressão permanente sobre esses jovens suburbanos, geralmente de origem imigrante, através de intimidações policiais regulares e da exclusão permanente de empregos "estáveis". Mas tudo isso não seria nada se os habitantes dos bairros populares não servissem para instilar medo, por parte do governo, da grande mídia e da extrema direita, que os culpam por "não respeitarem o confinamento", na tentativa de esconder a gestão catastrófica da crise da saúde, consequência da falta de recursos nos hospitais e da falta de pesquisas devido às políticas neoliberais para os serviços públicos.

Por todas essas razões, devemos nos opor à "união nacional" defendida por Macron e pela MEDEF (organização de empregadores, N.T.), que serve de cobertura para a política governamental repressiva e racista de fazer os trabalhadores e moradores dos subúrbios pagarem pela crise. Para unificar nosso campo social, é necessário que todas as organizações do movimento trabalhista denunciem, primeiramente, essa escalada de segurança, os crimes da polícia e do racismo estatal direcionados, mais especificamente, contra os habitantes dos bairros populares e realizem um programa exigindo: contratos permanentes a todos os trabalhadores precarizados; proibição das demissões; proibição dos despejos, com a ocupação de casas vazias para que todos tenham moradia; controle dos preços dos alimentos pela população e pelos trabalhadores do ramo; e, diante da crise que está por vir, uma estratégia de saúde que realmente ataque o vírus, e não a população, estabelecendo testes massivos - e não apenas àqueles com sintomas - e máscaras de qualidade para todos.




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