Cultura

POESIA

Noites de paz em tempos de morte

Demar Oliveira

Serviço Social - UERJ

terça-feira 1º de agosto| Edição do dia

Arte: Isadora de Lima Romera

Talvez seja isso o que mais queiramos hoje: paz nesses tempos de morte. A doce loucura do prazer de gozar pela vida, de gritar pela liberdade do que está preso dentro de nós. Ou muito mais do que isso. Talvez seja por não querer a imbecil necessidade de ter que certificar papeis de posse pra estampar felicidade e sustentar uma falsa paz. Talvez porque estamos cansados dessa incessante busca de paz pela morte. Deus? Quem é e onde está? A miséria e a morte tomaram conta do paraíso criado em sete dias. O éden envenenado pelas divinas ervas daninhas está nos sufocando há milênios, dia a dia, e já não há mais como respirar. Será esse o seu querido inferno de estimação? Qual é a sensação de assistir os filhos queimarem à bala enquanto julga-os sub a ótica de uma sádica moral? A humanidade da vida foi abandonada pelo egoísmo da falsa divindade e pelo poder sobre a posse, demarcada com rios de suor e sangue, e em seu lugar criaram um falso Estado, enraizado e soterrado por uma hipócrita e cíclica moral cristã, patriarcal e burguesa. Uma criação verdadeiramente divina cujas as expressões se traduzem em miséria de amor, empatia e compaixão, miséria de pão, sal, açúcar e feijão. Expressões que se traduzem no sangue negro diluído em água suja e sabão em pó, esfregado com vassouras de piaçava nas escadas, ladeiras, calçadas e paredes mal revestidas dos becos e vielas. Nas vidas, que ainda em seu desabrochar, navegam revoltos mares buscando se refugiar da intolerância e amanhecem murchas em morte na areia da praia. Nas vidas que assistem o brilho das estrelas pela brecha dos farrapos cinzas enquanto dormem nas calçadas sujas e geladas, onde o único entretenimento é o jogo diário pra enganar a perseguição da fome e da morte. Expressões que se traduzem nas vidas que são roubadas, banalizadas e assassinadas pelo estupro... nas vidas ceifadas em escolas entre uma aula e outra, uma bala e outra... até mesmo nas vidas, que ainda no ventre, são baleadas e impedidas de nascer... Vidas que já não são mais vidas, onde a humanidade que restou, se pulveriza no individualismo. Essas expressões que nos sufocam num estrangulamento conjuntural, esgotam o oxigênio dos que não aceitam viver sob escombros e gritam sedentos. Gritam por um novo tempo... tempo de matar a divindade que nos mata, a negação da visão de um mundo sem fronteiras, a exploração que nos rouba o tempo, o suor e o sangue. É tempo de matar o que nos desumaniza pra dar vida a humanidade. É tempo de acabar com o jogo da sobrevivência e inciar a história da vivência de paz, amor e liberdade. É tempo de viver pra dar vida a Revolução e libertar a humanidade.




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