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“No setor de TI, as mulheres são pior remuneradas e são minoria nos cargos executivos mais elevados” – Entrevista com Bárbara Castro

“No setor de TI, as mulheres são pior remuneradas e são minoria nos cargos executivos mais elevados” – Entrevista com Bárbara Castro

Por Vitória Camargo, para o Ideias de Esquerda.

Nesta entrevista, Bárbara Castro, professora de sociologia da Unicamp, conversa com Vitória Camargo sobre as novas formas de precarização do trabalho, os trabalhos de TI, a questão de gênero e trabalho, e também conta um pouco de seus estudos sobre o mundo do trabalho na França e na China.

Ideias de Esquerda: Ao longo do tempo, as formas como o capitalismo trata da questão das jornadas de trabalho se alteram. Ainda mais nos marcos da crise econômica internacional, a ideia de "flexibilização", que marcou a ofensiva neoliberal, tem se aprofundado. Como você enxerga a relação entre essa noção de flexibilização, as jornadas de trabalho e a questão de gênero?

Bárbara Castro: Em primeiro lugar, chamaria a atenção para que a flexibilização da jornada sempre foi um marco do capitalismo. Estender, intensificar e melhor aproveitar o tempo de trabalho é o centro da chamada "guerra oculta" entre capital e trabalho. A regulação desse tempo sempre passou pela implementação de novas tecnologias, que ditam ritmo e controle do trabalho e pelas técnicas de gestão científica. Mais contemporaneamente, as tecnologias da informação e comunicação permitiram intensificar o borramento das fronteiras de tempo e espaço de trabalho. Em algumas profissões, volta-se a medir o trabalho pela entrega (produto, meta) e o controle do tempo passa a ser feito pelos próprios trabalhadores. Junto a isso vieram uma série de mudanças na regulação da jornada. No Brasil, com grande força nos anos 1990, com o trabalho em tempo parcial, aos finais de semana e a autorização da implementação dos bancos de horas. A regulação do tempo também aparece nos contratos por tempo determinado e no tempo de experiência. Com a reforma, a regulação do tempo de duração de um contrato também esteve no centro, com a regulação da intermitência, e a da jornada aparece, por exemplo, na regulação do teletrabalho (que sobrepõe tempos e espaços sociais distintos) e nas jornadas initinere, que torna legal o não pagamento do deslocamento do trabalhador - e que tem levado a intermináveis negociações coletivas em setores cujo conteúdo do trabalho é baseado em deslocamento, com visitas a clientes, por ex. Todas essas formas de regular a jornada e o tempo de contrato vão de encontro às dinâmicas de gênero. Muitas vezes são justificados como formas de "estimular" uma maior participação das mulheres no mercado de trabalho ou de "reter" talentos femininos em grandes empresas. Estudos feministas têm buscado mostrar que as mulheres têm jornadas compostas por diferentes temporalidades: aquela cronológica, do tempo do trabalho voltado ao mercado, e a qualitativa, voltada aos trabalhos da reprodução. As responsabilidades dos dois trabalhos se sobrepõem. As mulheres não tem "tempo morto" em suas jornadas de trabalho pago. Elas estão sempre preenchidas com um trabalho de organização e planejamento das tarefas domésticas e de cuidado. Ou com a própria execução dessas tarefas. A flexibilização é sempre debatida na chave de melhorar a qualidade de vida das pessoas. O que precisamos atentar é: qual é o trabalhador (seu sexo, sua profissão e sua posição na hierarquia do mercado de trabalho) que realmente consegue fazer uso da flexibilidade para ter maior autonomia na gestão do seu tempo? Para as mulheres que acumulam trabalho pago e não pago sobra pouco espaço para exercer essa autonomia. Quando falamos de flexibilização e gênero precisamos ficar atentos, portanto, para os diferentes trabalhos que elas exercem e para as consequências que isso tem para suas vidas. Além disso, a ideia de flexibilidade na jornada também pode esconder outro uso perverso da ideia de maior autonomia. Quando disse que o controle sobre o tempo de trabalho é introjetado contemporaneamente, quis dizer que mesmo em ocupações em que não é feito uso de controle do tempo de trabalho de maneira mais racionalizada, isso não quer dizer que o tempo não conte. Para as empresas, os trabalhadores e trabalhadoras devem estar sempre disponíveis para resolver questões do trabalho. Mas quem é que tem disponibilidade total para servir prioritariamente as demandas das empresas? Destaco, ainda, que isso leva, obviamente, à mercadorização do trabalho doméstico e de cuidados, levando as mulheres melhor remuneradas no mercado de trabalho a comprar o tempo de outras mulheres, em geral de classes baixas e racializadas. Ao buscarem liberar tempo para se dedicar ao trabalho, repõe um padrão de desigualdade de classe e raça entre as mulheres.

IdE: Você estuda a área de TI (Tecnologia da Informação). Como você vê a relação entre desenvolvimento tecnológico e superexploração da força de trabalho?

B.C.: As mulheres são minoria no setor de TI. Poucas estão no coração do desenvolvimento tecnológico e, seguindo o padrão do mercado de trabalho, são pior remuneradas e são minoria nos cargos executivos mais elevados. O que aprendi investigando as condições de trabalho de trabalhadores e trabalhadoras de TI é que uma das profissões mais faladas da contemporaneidade - e tratada sempre como o trabalho do futuro, aquele que tem empregabilidade e sucesso financeiro garantido - é, também, laboratório de superexploração e desconstrução de direitos trabalhistas. Contratos fraudulentos e jornadas de trabalho excessivas são muito comuns no setor. Quase sempre justificadas pelo espírito empreendedor do contrato PJ, pela experiência que se tornar gestor de si pode produzir para que um dia os/as trabalhadores/as tenham seu próprio negócio.

IdE: Sabemos que a reprodução social é parte essencial da manutenção desse sistema, ao mesmo tempo em que os direitos das mulheres nesse âmbito também são cada vez mais atacados. Como você pensa essa relação entre maternidade e trabalho?

B.C.: A maternidade é o momento que revela que há, na empresa/indústria/lugar que se trabalha, uma mulher vendendo sua força de trabalho. As formas de controle sobre o corpo das trabalhadoras são reveladoras de como a maternidade segue sendo pensada como uma interrupção improdutiva. É exemplar, por exemplo, os "benefícios" que empresas de alta tecnologia do Vale do Silício oferecerem às trabalhadoras mulheres: congelamento de óvulos. Há uma perversidade absurda aí: as empresas estão dizendo que a maternidade atrapalha seus negócios e a carreira das mulheres. Como saída, oferecem o controle de seu corpo e o postergamento de projetos pessoais, manipulando o tempo da natureza e da vida. A ausência de políticas públicas voltadas às crianças na primeira infância e de um conjunto de direitos trabalhistas vinculados ao cuidado que deixem de fora os homens repõe que o lugar o das mulheres é o do cuidado dos filhos. É preciso pensar em políticas públicas que redistribuam o tempo que mulheres e homens dedicam a essa tarefa. Essa é uma questão de ordem social porque gera desigualdade. Enquanto for tratada como questão privada, familiar, seguirá repondo desigualdade.

IdE: Recentemente, você esteve na França. Quais, ao seu ver, são as tendências internacionais no mundo do trabalho que você pôde perceber, colocando novos desafios também à luta das mulheres?

B.C.: A tendência mundial é o da desconstrução dos direitos trabalhistas vinculados a um Estado que garanta um mínimo de direitos sociais. As mudanças de legislação na França também foram e seguem justificadas pelo governo como forma de estimular a empregabilidade. No início do ano haviam batido recorde na redução do desemprego. Mas com formas de contratação e assalariamento que o próprio governo reconhece como precárias. O que uma série de estudiosos tem indicado é que estamos vivendo um momento da história global marcado pelo achatamento do poder de consumo das classes médias, que tem escolhido saídas políticas pautadas, muitas vezes, nos valores meritocráticos e de defesa de privilégios que imaginavam ter assegurados. Com isso, segue-se um recrudescimento de ataques às conquistas recentes das mulheres, população LGBTQI, movimento negro e reivindicações da população de imigrantes. O desafio da luta das mulheres é o de colocar a desigualdade no centro. Se nossa experiência no mercado de trabalho é reveladora da diferença com a qual somos tratadas e das desigualdades que isso gera, essa experiência tem que se repercutir em agendas de luta. O maior desafio hoje é o das articulações. O crescimento da pobreza, da precariedade e da desigualdade traz como desafio aos movimentos sociais a articulação de suas agendas, reorganizando a luta na experiência de classe sem deixar de apontar para as diferenças das mulheres e da população racializada nessa agenda - deixar isso de lado ou tratar como "mera luta identitária" é repor sexismo e racismo na luta política.

IdE: Em particular, o padrão de superexploração da China, país que se coloca estrategicamente como grande competidor dos EUA na arena internacional, torna-se cada vez mais objeto de reflexão no tema do trabalho. Que "modelos" podemos dizer que a China exporta para o mundo nessa área e qual impacto isso tem?

B.C.: A China tem sido objeto de denúncias de superexploração do trabalho baseado na larga migração da jovem população camponesa pauperizada para o trabalho das indústrias de ponta de tecnologia que buscam melhorar seu padrão de vida. E na larga participação de mulheres nesse mesmo contexto. A China não necessariamente criou modelos de superexploração. O que parece chocar a sociedade é que ele se dê em cadeias de produção que envolvem países que assinam protocolos internacionais de trabalho decente. Choca ainda mais porque produz para uma elite global que se coloca contrária, muitas vezes, a esses modelos de superexploração. Isso não é necessariamente novo. Mesmo na área de tecnologia. Os EUA tem transferido suas plantas para o sudeste asiático desde os anos 1980, valendo-se da mão de obra barata da região e se instalando estrategicamente em países com baixa proteção de direitos trabalhistas. Sem uma regulação e fiscalização internacional rigorosas da cadeia e em um contexto de competição capitalista que se vale de países em diferentes momentos de desenvolvimento, esse modelo de superexploração só tende a se manter, como sempre se manteve, com o capital migrando de território em território em busca de melhores condições de extração de mais-valia às custas de direitos humanos e do trabalho da população empobrecida. As mulheres são grande parte dessa população superexplorada. E é preciso lembrar, sempre, dos efeitos que sua dupla disponibilidade, para o trabalho no mercado e na família, produzem na sua subjetividade.

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