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No quarto dia sem Ágatha, veja fala emocionada de uma mãe após mais essa tragédia

terça-feira 24 de setembro| Edição do dia

Já são 4 dias sem Ágatha, a menina de 8 anos que adorava a Mulher Maravilha. Pensando bem, para a família de Ágatha não deve ser “já" e nem o “ainda”, mas deve ser algum lugar entre a dor sem tempo e a revolta urgente, e vou aqui me apegar ao segundo.

Foi Witzel e sua política de extermínio dos pobres e negros que assassinaram Ágatha Félix, com um tiro de fuzil disparado por um policial militar. Foi assim com Kauê, Kauã e Kauan de 12, 11 e 12 anos. Os nomes parecidos e a mesma faixa etária, não são as únicas coincidências, porque infelizmente, as crianças e jovens negros são todos alvos em potencial para o estado racista e o capitalismo. Jenifer e Vitor também eram e assim morreram pelas mãos sujas de muito sangue do estado.

No sábado, logo após o assassinato de Ágatha, os moradores do Alemão protestaram pelas ruas com revolta por mais uma morte. Transcrevemos a seguir a fala de uma mãe, Monica Cunha, no ato:

“Mais um, a gente não tá aguentando mais.
Eles dão tiros nas crianças, nos adolescentes... e tão nos matando. Tão matando quem fica.
A gente tá tudo desesperado. A gente não consegue pensar estratégia.
Como é que a gente vai tirar se o homem tá aqui, e tá passando pior que um trator.
A gente fala todo dia que luta pra não ter mais familiar de vítima, porque eu sou uma.
Sabe por que eu tô assim? Porque eu tenho 54 anos e todo dia uma luta pra mim acordar sem o meu filho e saber que mais uma mãe vai ter que viver isso.
Isso é muito ruim Ana Paula, é muito ruim!
Sabe, a gente perde tudo, estrutura, expectativa.
A gente vê uma criança hoje, tem quase que certeza que não vai ver amanhã.
Isso não pode ser real gente.
A gente tem que acabar com isso, a gente junto consegue.
É como a Martina falou, se é pra vir pra rua vamos vir pra rua toda hora.
Não vamos sair da rua, porque nós somos muito mais que ele, é real.
Não podemos mais. Não tem como só ver caras desse jeito, inchadas, arrasadas.
Isso aqui não é um bloco, a gente não tá fazendo bloco de mãe.
Eu não quero mais ficar nessa cidade tumulo.
O que virou o Rio de Janeiro foi uma cidade tumulo, agora!
Eu não quero mais viver nela. Que isso? Eles querem nos tirar a bala, é só a bala.
Então, a gente não vai sair da rua, tá escutando Ana Paula? Nós temos que ser a primeira a vir pra rua, porque a gente sabe o que essa mãe tá sofrendo aí.
Oito anos essa criança. Semana retrasada foi um de doze, lá do Chapadão.
O sonho do garoto era ver Neymar.
Porra, que isso? Toda hora?
Eu não admito mais. Nós não admitimos mais. Nós queremos viver, nós queremos.
Vê se escuta isso governador!
Eu não nasci pra ser abatida dessa forma.

O meu povo tem o direito de ficar nessa terra, porque quem construiu isso aqui fomos nós. Não temos que sair abatidos, não temos que sair!
Isso aqui é nosso, antes de ser seu. Você não pode nos tirar a bala.
E a gente vai resistir sim, a todo momento vamos resistir. Estamos resistindo!
Fique com ódio, olha nossa cara, porque a gente vai resistir, vamos resistir sim!
Eu tô chorando hoje, mas eu vou estar de pé daqui a pouco sim, pra te enfrentar!
Porque é isso que a gente tem feito e é isso que a gente vai continuar fazendo.
A gente não vai se curvar pra você, a gente não vai se curvar.
A gente não vai admitir. Estamos dizendo não e vamos continuar dizendo não!”

Essa forte e emocionada fala de Monica, assim como o choro e a revolta pelo assassinato de Ágatha é porque precisamos nos levantar. Precisamos lutar por todas as Ágathas, e essa batalha deve ser encarada como continuidade da luta por justiça a Marielle.

A luta para que jovens negros e pobres não sejam mais abatidos, como disse Monica, e para que não sejam mais alvos certos como a lista infinita de nomes dos mortos pelo estado mostra.

A vida da juventude negra e da população pobre passa por lutar por emprego, educação. Lutar contra Bolsonaro e Witze, começando por rechaçar o pacote de Moro, com seu excludente de ilicitude. Lutamos pelo fim das operações nas favelas, pela indenização aos familiares dos assassinados e que todos os que os processos desse tipo sejam apurados por júri popular composto pelas comunidades, organismos de direitos humanos e sindicatos. Pelo fim dos tribunais militares e que os crimes policiais sejam julgados por júri popular, pelo fim dos privilégios dos juízes e que todo juiz ganhe igual a um professor e sejam eleitos pelo povo e pelo fim de todas as tropas especiais como o BOPE, a Tática e a Força Nacional, que são criadas para massacrar o povo pobre e as lutas. Pelo fim imediato das UPP.

Na próxima sexta-feira o ato será em São Paulo, é lá que a revolta urgente deve se expressar com força, como uma só classe, ao lado dos moradores do Rio de Janeiro e da família de Ágatha.




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