Sociedade

METRÔ

No meio da multidão: crônica de uma usuária

Rafaella Lafraia

São Paulo

sexta-feira 1º de abril de 2016| Edição do dia

“Todo dia ela faz tudo sempre igual...”. Já dizia Chico Buarque sobre a rotina de uma mulher que, aqui, pego emprestado para relatar a rotina dos trabalhadores no transporte público. Acordamos cedo – alguns mais cedo do que o cantar do galo, como diz o ditado popular – e nos preparamos para enfrentar nossa primeira luta diária: o transporte público!

Segundo dados estatísticos da Companhia Metropolitana de São Paulo, diariamente, mais de 4 milhões de usuários utilizam o metrô como meio de transporte. A própria empresa usa este dado de uma forma que a valoriza: “O transporte preferido dos paulistanos”. Como usuária posso dizer com propriedade: Sim, escolho este transporte não por questões de qualidade e sim pela agilidade. Baseada nesta diferença – que é, obviamente, ocultada pela empresa – e por utilização assídua deste transporte – já que atravesso a cidade duas vezes por dia, no mínimo – que tentarei abordar a real condição do transporte “preferido” dos paulistanos.

Apesar das promessas de expansão das linhas pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) o metro continua há anos com seus, aproximadamente, 78 Km de trajeto. Sim, mesmo com poucos quilômetros de linhas consigo ir de um extremo da cidade a outro em “apenas” uma hora. Comparando com outro transporte público – no caso o ônibus – uma hora é quase nada, já que demoraria, pelo menos, duas horas ou mais, dependendo do horário, para fazer o mesmo trajeto. Mas, como já disse, se as promessas fossem realidade, este meio de locomoção ligaria, realmente, todos os cantos de São Paulo. Entretanto, é óbvio que esta política não é interessante, já que, historicamente, este meio de transporte é visto como transporte para elite, além de garantir que a máfia dos transportes seja mantida pela colaboração de partidos que se colocam em oposição (PT e PSDB) mas formam bloco quando a questão é garantir os lucros de empresários!

Continuando, entro no metro em uma estação do extremo da cidade.... Escrevendo assim até parece fácil, mas não é! O problema já começa com a compra do bilhete. Na maioria das estações, haviam cabines de recarga de bilhete único, mas, já faz algum tempo que estas cabines ou foram desativadas ou substituídas por terminais que, geralmente, não funcionam, ou, como em algumas estações, estão do lado de “lá” da catraca! Assim, pego uma fila monstruosa para comprar meus bilhetes... e sempre é uma fila cabulosa, porque, geralmente, a maioria das cabines de bilheteria estão fechadas! As que estão abertas tem um funcionário que já, desde cedo, tem a expressão de cansaço por realizar um trabalho extremamente repetitivo em velocidade da luz.... Principalmente agora com a dificuldade em dar troco para os usuários! Ou seja, a fila quilométrica na verdade é o resultado de mais um “descaso” – coloco entre aspas pois de descaso não tem nada – do governo conosco e com os funcionários do metro!

Passada a primeira fase, realmente entro no metro, mas aí se inicia a fase dois: a disputa corpórea por espaço tanto para entrar no trem quanto para se manter naquele espaço quando consegue – se consegue. Mas vamos dizer que, no meu dia de sorte, consigo entrar no primeiro trem que para na plataforma e que este veio no tempo esperado – porque usuário que é usuário sabe que se isso acontecer como coloquei podemos nos considerar sortudos pelo resto do dia. Neste instante colocamos em prova a lei da física que diz que dois corpos não ocupam o mesmo espaço!!!! Entramos tão compactados que parecemos uma massa única! E lá, dentro do trem, percebemos que não são todos os trens que tem condições de transportar essa grande quantidade de usuários ao mesmo tempo, por uma questão básica, por exemplo: a ventilação. Claro que todos estes fatores estão associados com algo que não são todos que sabem: trens estão sendo retirados de circulação para servirem de estoque de peças para os que ficam e circulação. Esta associação faz com que os trens que restam em circulação fiquem mais tempo fazendo o mesmo trajeto para suprir a demanda de usuários para serem transportados.

Muito bem, eu, ali, apertada, e toda preocupada.... Afinal de contas, tais condições propiciam uma passada de mão “sem querer”, uma encochada ou até uma ejaculação na minha roupa…. Sim, este é um receio real da maioria das mulheres nas condições geradas pelo “descaso” do governo. Mas é claro que a empresa tomou “todas” as medidas necessárias: uma campanha publicitária contra abuso sexual! E você acha que foi por causa da quantidade de abusos ocorridos? Não! Foi como forma de se retratar por uma campanha vinculada pela Jovem Pan em que diziam que o Metrô lotado era "um bom lugar para passar cantada"! Para os funcionários, a empresa lançou uma cartilha de orientação para os casos de abuso no trem... Mas, venhamos, o necessário é algo mais eficiente, reivindicado pelos próprios funcionários do metro: treinamento adequado para os seus funcionários, um kit para atendimento, atendimento físico e psicológico, atestados médicos que sirvam como comprovação para que essas mulheres tenham o tempo necessário para se recuperar e não tenham que ir trabalhar em seguida e o imediato aumento do quadro de funcionários!

Depois desta minha “aventura” cotidiana, que tenho certeza que compartilho com milhões de pessoas, todos os dias, percebo que o transporte “preferido” do paulistano é, na verdade, a pérola dos olhos do governo, pois ali é possível fazer repasses menores de verba – já que é um transporte eficiente, como alega o Governador – garantindo então está péssima condição tanto para usuários quanto para os trabalhadores do metro. Também é possível usar deste meio de transporte para fazer propaganda eleitoral, como no momento que vivemos na política nacional, pois nas manifestações pró impeachment as horas extras para seus funcionários são liberadas além das catracas para os manifestantes!

Posso dizer que o metro está longe de ser meu transporte preferido.... Tenho certeza que também não é nada agradável trabalhar nestas condições! Sei que tal situação não é exclusividade do transporte metropolitano de São Paulo…. É parte de uma política bem planejada para garantir a privatização deste meio de transporte, tanto aqui como em outros lugares que possuem metro. Ou seja, governos (PSDB e PT) que na mídia se colocam como oposição, na verdade, formam um bloco para garantir que os trabalhadores paguem a crise econômica que estamos vivendo.




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