MUNDO OPERÁRIO

No dia da Empregada Doméstica, trabalhadoras relatam opressão enfrentada na profissão

segunda-feira 27 de abril| Edição do dia

Hoje é dia nacional das empregadas domésticas e o Brasil é o país no mundo que mais tem trabalhadoras domesticas. Dessas trabalhadoras, 95% são mulheres negras. Nós do Esquerda diário buscamos alguns depoimentos que mostram a realidade de exploração, opressão e preconceito que essas mulheres são expostas diariamente.

E. dos Santos 42 anos, Rio de Janeiro.

Passei a vida inteira escutando as minhas colegas falarem as mesmas histórias, não temos direito de comer, de dar nossa opinião, tem gente que trabalha de segunda a sábado dormindo no trabalho para ganhar um salário mínimo, eu acho isso uma exploração, eu acho isso um absurdo para as empregadas. Eles tinham que nos pagar bem pago, porque nós temos uma responsabilidade muito grande. Vocês não tem noção o que significa a gente trabalhar de segunda a sexta, tem umas que trabalham de segunda a sábado, tem umas que dormem, quem dorme não tem horário de dormir, comer e nem nada. O que significa cuidar do patrão e cuidar do filho do patrão abusado e ter que ficar fazendo tudo e eles acham que ainda é pouco. Então a nossa profissão é digna como qualquer outra mas nós sofremos muito e nós queremos nossos direitos, nós temos direitos de dar o nosso grito, temos que ter nossos direitos como qualquer outro trabalhador. Qual é o problema, qual a diferença da nossa profissão para a profissão de qualquer outra pessoa e o preconceito? O preconceito é 24 horas por dia que nós sofremos, se acontece algo, foi empregada doméstica, se some alguma coisa em casa que o filho deve ter perdido na rua, a culpa é da empregada doméstica. Isso é muito triste, muito doloroso, nós sofremos na pele e alma.

Hoje 26 de abril colocaram uma data para comemorar o dia das emprega doméstica, eu sou emprega doméstica desde dos 15 anos, que trabalho para sobreviver, mas nós sofremos na pele 24 horas por dia com preconceito, com o racismo. Eu já tive três trabalho, trabalhei de babá sete anos, trabalhei em outra casa seis anos e agora estou em uma casa há doze anos, e a gente sofre preconceito todo santo dia. Eu acho que a empregada doméstica tem direito como qualquer outro trabalhador, nosso trabalho é digno, o que eu não entendendo é por que as outras profissões tem direito de fundo de garantia, tempo de casa e nós não temos? Saiu uma nova lei, acho que tem dois anos para as empregas domésticas terem direito a três meses de fundo de garantia e no mês que surgiu essa lei, milhares de empregadas domésticas foram demitidas no seu trabalho porque os patrões não queriam pagar, achavam que nós não tínhamos esse direito. Queria entender por que nós não temos o direito como qualquer outra profissão? Eu acho isso um absurdo, uma falta de respeito, uma falta de amor, pela nossa profissão, porque a nossa profissão é digna.

Tudo que eu tenho hoje e tudo que eu construí foi pela minha profissão, eu não sei se falo que tenho orgulho da minha profissão, porque é uma profissão que diariamente sentimos o preconceito, nos sentimos na pele. Quando a gente vai no hospital, quando a gente vai abrir uma conta bancária, quando alguém pergunta qual é a minha profissão e a gente fala que é empregada doméstica, eles já olham para gente com preconceito, como se nos fossemos menores que qualquer outra pessoa, como se nós não significasse nada. Eles acham indiferentes, mas eles tinham que tratar nos com mais respeito, com amor, porque nós trabalhamos com dignidade, nos dedicamos nossas vidas para eles, quantas vezes eu deixei meus filhos doentes em casa, pra poder trabalhar, pra poder sobreviver, pra não deixar faltar o pão de cada dia dos meus filhos, inclusive quando eu trabalhei meu primeiro trabalho no Rio de Janeiro com 16 anos, trabalhei como babá sete anos, eu dedicava minha vida do fundo do meu coração, eu amava o garoto, cuidava como se fosse meu filho, eu era mãe dele, segunda mãe dele, porque a mãe biológica dele abandonou. O pai dele trabalhava das sete as onze da noite e eu era tudo, eu fazia tudo, lavava, passava, cozinhava, cuidava dele, levava para escola, futebol e tudo. Quando eu fiquei grávida, eu senti na pele a diferença, empregada doméstica não pode ficar doente, não pode engravidar, que eles já ficam indiferentes, eles não mandam embora porque eles não tem outra opção, porque existe uma lei, mas se eles tivessem outra opção quando a empregada doméstica faltasse ou ficasse grávida, a primeira coisa quando a gente chegasse na casa dos patrões a gente levaria um chute.

Queria entender isso o porquê desse preconceito, porque milhares e milhares de trabalhadoras domésticas sofrem isso? Nosso trabalho é digno e igual a qualquer outro. E quando eu tive minha filha nos primeiros sete meses eu vi a diferença da minha filha para o filho dele, eu vi e sentir o racismo. Em uma tarde de domingo, esse meu patrão chegou pra mim e disse que na segunda eu não precisava vim trabalhar. Ele não quis saber se eu tinha casa, que não tinha lugar nenhum para ir com minha filha, porque eu morava no trabalho, eu era escrava, porque não tinha horário nem pra dormir, quem mora com os patrões não tem horário pra dormir, eles não tem consideração, não tem respeito, não tem nada, a única coisa que patrão gosta e quer das empregadas é só trabalho e mais nada, eles acham que nós somos robôs, nós só temos que trabalhar, nós não temos direito de falar um não. Se nós damos nossa opinião eles acham que nós somos abusadas, então eu acho que isso é um absurdo, acho que nós não temos nada que comemorar no dia das empregadas domésticas, o que nós temos que comemorar? Porque o preconceito continua, existem milhares e milhares de empregadas doméstica no Brasil e a maioria são mulheres negras, nordestinas, que eles acham que as nordestinas são analfabetas, são escravizadas, e acham que nós temos a obrigação de aceitar tudo o que eles faz e governo não faz nada.

Uma coisa que doeu na minha pele e levarei para meu túmulo é que eu sou mãe solteira, tenho dois filhos, um de sete anos e uma menina de dezessete, sempre trabalhei pra não deixar faltar nada aos meus filhos, os pais deles nunca ajudaram em nada, certo dia essa minha atual patroa disse que filhos de mães solteiras cresciam e se tornavam traficantes, eu sentir uma dor tão grande na minha alma, na minha pele, eu sentir uma vontade de esmagar ela e hoje eu continuo aqui, eu preciso do trabalho, eu tenho que trabalhar, porque se eu não trabalhar como que meus filhos vão sobreviver? E se hoje temos o pouco dos nossos direitos não é porque patrão é bonzinho não, é porque eles são obrigados, se não fossem obrigados as pessoas continuariam a trabalhar 24 horas a troco de nada, porque até hoje existe escravidão de emprega doméstica, isso não acabou. Esse negócio de falar que escravidão acabou, foi abolida, isso não existe, isso é ilusão, porque nós sofremos na pele 24 horas por dia, nós mulheres negras, nos mulheres das favelas, mulheres pobres, lutadoras, nós sofremos. Eu acho que não temos nada a comemorar, o que o governo beneficiou a gente? O pouco que nós ganhamos eles querem retirar, salário mínimo, de miséria, como que um pai de família, uma mãe de família, vai sobreviver com um salário mínimo? Esse aqui é meu depoimento.

N. dos Santos 46 anos, Rio de janeiro

Eu não tenho nada contra nós, que somos empregadas domésticas, mas eu estou falando por mim, o que eu já passei na minha vida, ser empregada domésticas é um trabalho que os próprios patrões nos veem como um lixo dos lixos e nós servindo a eles, esse trabalho deveria ser muito mais muito reconhecido, porque é um trabalho que nós estamos ali trabalhando, não é porque somos pretos, pobres, brancos, seja o que for, nós estamos ali porque estamos trabalhando, é um trabalho igual outro qualquer. Mas as pessoas não pensam assim as pessoas veem a gente como um lixo e toda minha vida que eu fui empregada doméstica foram momentos de humilhação, era assustador como as pessoas me tratava, as pessoas não me enxergava, era como se eu fosse um objeto, um objeto para lavar vaso, lavar louça que eles sujavam, limpar o chão que eles pisavam e eu me sentia muito, mais muito humilhada.

Eu questionava o que eles tinham de diferente de mim? A diferença é que o trabalho deles era diferente do meu, mas era um ser humano humilhando o outro, um ser humano escravizando o outro, era muito humilhante, entende? A gente comia o resto que sobrava na mesa, não podíamos ficar na sala na hora que eles estavam na sala, eu era um ser humano que não existia para eles, eu só existia quando estava servindo. E as vezes mesmo trabalhando direitinho eles achavam que ainda era pouco, como se não bastasse a exploração no trabalho, eles tratavam a gente como lixo, exploração da humilhação, mas precisávamos do trabalho o que nós poderíamos fazer? Nós tínhamos que aceitar, aceitar todas as humilhações. Pra falar a verdade é um trabalho, o problema não é o trabalho, mas como os patrões tratam a gente, eles nos tratam muito mal, não reconhecem nossos trabalhos, sabe? Eles acham que somos empregadas domésticas porque somos lixo dos lixos, eles não olham pra gente como trabalhadoras. Sinto muito mas um trabalho que é pra limpar chão para as pessoas pisarem isso não é um trabalho, ninguém nasceu aqui na terra pra limpar chão para outro pisar, entendeu?? É humilhante, lavar vaso que eles cagam, nos limpamos o nosso porque temos que limpar, mas limpar dessa forma para patrão é muito humilhante.

Rosiane, 48 anos, Alagoas.

Sempre fui empregada doméstica infelizmente é uma situação muito triste no nosso país porque não tem valor nenhum ser empregada doméstica, ninguém quer essa profissão e precisamos não temos recursos, não temos estudos na maioria das vezes, então temos que passar por isso ser humilhada, ser ofendida, ser maltratada é um descaso total, empregada doméstica não tem valor nenhum, principalmente para o nordestino, porque para os empregadores eles estão fazendo um favor muito grande por estar dando condições para a pessoa comer e isso que para eles bastam, a humilhação é gigantesca, os patrões na maioria das vezes nos assedia de todas as maneiras que nos roubam a paz, o respeito, a consideração por tudo é um descaso total, é lamentável, no nosso país nos dias de hoje, passamos por isso, é muito, muito triste, mas infelizmente é um caso que eu espero que um dia os governantes façam alguma coisa, esses que estão no poder jamais vão fazer porque eles são os primeiros a nos tratar com descaso na televisão, no público para todo mundo vê. E infelizmente o povo colocou eles no poder e parece quanto mais poder é mais descaso, mais tristeza, que acontece todas essas tragédias que temos no nosso país, infelizmente, se esse depoimento ajudar, pra mim será um prazer.

Ana Claúdia 50 anos, Rio de Janeiro.

Me chamo Ana Claudia, tenho 50 anos, sou estudante de Serviço Social na Uerj e sou diarista. Trabalho em casa de família desde os meus 13 anos e já passei por todas as situações que permeiam essa profissão. Assédio moral, sexual, psicológico.

Já trabalhei em casas que só posso comer depois que todos comem, mas também já me sentei a mesa com os patrões. Já fui assediada sexualmente por alguns e moralmente por outros. O que posso dizer dessa profissão é que é preciso ser muito forte pra estar na casa de pessoas estranhas, com seus conflitos, suas mágoas, seu cotidiano. Vc tem que aprender a lidar com o outro pois querendo ou não vc passa a fazer parte do dia a dia daquela pessoa. Tem os que gostam de falar mas não querem te ouvir e os que te ouvem só por educação, mas também tem os que te escutam, pois escutar é diferente de ouvir.

Apesar de estar nessa profissão por tanto tempo, as pessoas para quem trabalho atualmente já estou com eles a algum tempo. Hoje me dou ao luxo de escolher pra quem quero trabalhar, pois aprendi que o meu bem estar precisa vir em primeiro lugar. Espero um dia que essa profissão seja extinta e que a gente não precise mais cuidar da casa do outro. Quem quiser comida feita, contrate uma cozinheira, roupa lavada, lavadeira e assim vai. E que no lugar de empregada doméstica tenhamos secretárias do lar.




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