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RIO DE JANEIRO

“No céu não existe policial covarde”: carta dos amigos de Gabriel, jovem negro assassinado pela polícia de Witzel

Esta semana o Rio de Janeiro viveu um sanguinário período com o assassinato pelas mãos da polícia de 6 jovens negros em um intervalo de dias. Gabriel, 18 anos morador do Borel, foi uma dessas vítimas. Veja a carta escrita por seus amigos em homenagem e com indignação diante de mais um brutal assassinato de um jovem pelas mãos da polícia.

sexta-feira 16 de agosto| Edição do dia

A polícia racista e assassina de Witzel atinge mais um corpo negro, atinge mais uma família de trabalhadores que têm seus filhos assassinados pelo Estado. Na quinta-feira 08/08, a polícia fez uma operação militar no morro do Borel pela manhã. Era pra ser mais um dia de ida a escola, mas foi marcado pela violência policial tirando a vida de um jovem cheio de sonhos. Gabriel 18 anos, acordou na quinta-feira (8) com tiros, era uma operação no morro onde morava, esperou um tempo para o tiroteio passar, para sair de casa e ir para a escola, porém foi atingindo por um tiro no peito no ponto de ônibus.

Veja mais: Sangue jovem e negro escorre nas operações de polícia de Wilson Witzel no RJ

Poderia ser um dia como outro qualquer, mas foi um dia que mais um jovem negro foi brutalmente assassinado por essa política racista e de extermínio contra o povo negro e pobre nas favelas legitimada por Witzel e Bolsonaro. O reacionário e racista Witzel já vez abertamente declarações, afirmando que o problema do asfalto está nas favelas do Rio de Janeiro, sem pensar nos trabalhadores moradores de favelas que são superexplorados nos trabalhos precários e na juventude negra que é negada cotidianamente todo e qualquer direito à vida. Bolsonaro, por outro lado, legitima cada ação violenta da polícia contra negros e trabalhadores a partir de sua política racista, para ele a vida de Gabriel pouco importa como a de tantos negros que a polícia assassina de Witzel vêm matando nas periferias e favelas cariocas. Não fosse isso o bastante, Bolsonaro segue precarizando a vida dos negros através da reforma da previdência e com o pacote anti-crime de Moro que vai intensificar ainda mais esses assassinatos.

Gabriel era um jovem negro, pobre e morador de favela, que teve sua vida arrancada por essa política mascarada de guerra as drogas com operações policiais dentro das favelas, que é a principal causa das violências e assassinatos cometidos pela polícia de Witzel. Dona Rosimar, mãe de Gabriel expressou em entrevista logo depois da morte de seu filho que Gabriel era carinhoso, estudioso, apaixonado por esportes e sonhava mudar de vida. Essa política que o governador Witzel e o presidente Bolsonaro tanta se orgulham em suas falas, impediu mais uma mãe negra trabalhadora de ver os sonhos do próprio filho se realizar, mais uma mãe negra segurando uma camisa com buraco de bala e suja de sangue.

De um lado a fala Rosimar Marçal: "Quando eu via, na TV, as outras mães de filhos assassinados, eu chorava. Eu chorava pelas outras mães de filhos mortos pela violência. Mas nunca imaginei que essa também seria a minha dor". Do outro lado a fala do governador do Estado do Rio Janeiro: “A nossa Polícia Militar não quer matar, [...] se fosse com autorização da ONU, em outros lugares do mundo, nós teríamos autorização para mandar um míssil naquele local e explodir aquelas pessoas”.

Quando o governador Witzel, declara que mandaria um míssil para uma favela, ele não quer saber dos sonhos da juventude negra e pobre, ele não quer saber dos trabalhadores que trabalham duramente todos os dias para minimamente terem o que comer e educar seus filhos, Witzel quando pensa em mandar um míssil, ele quer que toda essa juventude com os trabalhadores morra. Não à toa em seis meses de mandato bateram-se recordes de mortes pela mão da polícia, são cinco pessoas mortas pela policia por dia e sabemos que essas pessoas tem cor e classe social. Falas como do governador Witzel só intensificam esse tipo de violência.

Os moradores do Borel e amigos de Gabriel fizeram uma manifestação no dia que o jovem foi morto pela polícia 08/08 na Rua Conde de Bonfin exigindo justiça. Nesse domingo 11/08 Gabriel foi enterrado no cemitério da penitência no Caju, o enterro foi de grande tristeza e dor por todos que estavam presente. Os amigos de Gabriel fizeram uma carta como se fosse o próprio Gabriel falando com a família e amigos após sua morte. Nela Gabriel falava aliviado: “no céu não existe policial covarde”. .

CARTA

Oi mãe, oi pai. Tudo bem? Sou eu Gabriel, o filho de vocês. É, eu estou vendo tudo o que meus amigos estão fazendo. Estou vendo toda a confusão na rua e todo o protesto.

Mãe, não fica triste, estou bem. Estou morando com Deus e aqui é lindo. Encontrei amigos meus que partiram antes de mim. Eles estão todos aqui morando com Deus. Eu, só quero pedir obrigado por tudo o que vocês estão fazendo por mim. Quantos amigos, conhecidos e familiares.

(Eu) estava indo para a escola. Não estava traficando, matando, roubando e nem fazendo mau para ninguém. Eu vim para um lugar melhor. Aqui não tem covardia, gente ruim e nem policial covarde. Mãe e pai, vocês não tem noção do quão lindo é aqui no Céu. Deus me recebeu de braços abertos. Aqui eu vou ser bem cuidado.

Fiquei triste pelo fato de não conseguir realizar meu sonho. Mas, Deus sabe o que faz. Ele achou melhor me trazer de volta para o Céu. Ele não quis deixar eu viver a covardia daí debaixo.

Minha blusa suja de sangue, minha mochila no chão e eu caído morto. Cenas que talvez não saia da cabeça de ninguém. Enfim.

Gente, se cuidem. Tomem cuidado aí nesse mundo tão cruel. Vou olhar por vocês daqui de cima. Eu e Deus. Amo muito vocês.

Mias uma vez a polícia assassina de Witzel legitimada por seus discurso racista e o de Bolsonaro, acabaram com a vida de mais um jovem negro e de sua família, essa política racista não tem nada a oferecer para negros e o povo pobre além da precarização de suas vidas, desemprego e assassinatos. Basta da polícia cotidianamente assassinar centenas de jovens negros. Toda solidariedade à família de Gabriel e de tantas outras famílias vítima da violência de Estado.




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