Internacional

CHILE: ATO ANTICAPITALISTA E INTERNACIONALISTA

Nicolás del Caño no Chile: “Nossa luta a nível internacional é por construir partidos revolucionários com um programa anticapitalista e socialista”

O deputado nacional argentino, ex candidato presidencial, e dirigente do Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS), participou no dia de ontem no Chile do “Ato Anticapitalista”, onde se referiu à situação política internacional e a crise econômica na Argentina. “Nossa aposta é derrotar Macri e as patronais com os métodos da classe operária”, afirmou o parlamentar.

terça-feira 20 de novembro| Edição do dia

Nicolás del Caño, o principal referente da esquerda na Argentina, deputado nacional, ex candidato presidencial - que obteve mais de um milhão de votos -, dirigente do Partido de Trabalhadores Socialistas (PTS), foi convidado a participar no Chile do Ato por uma Esquerda Anticapitalista e Internacionalista das e dos Trabalhadores, impulsionado pelo Partido de Trabalhadores Revolucionários (PTR).

Del Caño se referiu à situação política mundial, da América Latina - em especial pelo avanço dos governos de direita -, e também à crise econômica que se vive na Argentina. “ Estamos em uma situação internacional na qual as guerras comerciais antecipam maiores convulsões. Vemos no mundo fortes tendências à polarização”, expressou o parlamentar sobre a conjuntura internacional.

“Na América Latina é claro que a chegada de Bolsonaro à presidência do Brasil reflete estas tendências internacionais. Mas há que se dizer que os governos pós-neoliberais como o de Lula no Brasil, o Kirchneirismo na Argentina administraram o capitalismo em épocas de bonança econômica garantindo lucros recordes para as corporações e mantiveram o central da estrutura neoliberal”, denunciou Nicolás del Caño.

Um dos pontos principais que apresentou o parlamentar no Ato foi: “ construir a nível internacional partidos revolucionários que apresentem um claro programa anticapitalista e socialista na perspectiva de um governo dos trabalhadores e do povo em ruptura com o capitalismo”.

O PTS impulsiona a FIT (sigla em espanhol para Frente de Esquerda dos Trabalhadores), e se propõe a colocar todo a sua força conquistada para ser um fator determinante na luta de classes para que a crise seja paga pelos capitalistas e não pelos trabalhadores. E acreditamos que esta experiência da esquerda revolucionária argentina pode servir como ponto de apoio a nível internacional para construir partidos revolucionários da classe trabalhadora contra as variantes reformistas que tentam levar milhões em direção a novas frustrações”.

Acompanhe o discurso completo de Nicolás del Caño, deputado nacional da Argentina e dirigente do Partido de Trabalhadores Socialistas (PTS).

Boa tarde companheiras e companheiros, é um orgulho para mim estar presente neste ato. Trago saudações de nossa companheira Myriam Bregman, de “chipi” Castillo e de toda a militância do PTS na Argentina.

Estamos em uma situação internacional na qual as guerras comerciais antecipam maiores convulsões. Assistimos no mundo fortes tendências como a de Trump nos EUA, o Brexit na Grã-Bretanha, e o crescimento da extrema direita no restante da Europa; Bolsonaro no Brasil, com um discursos xenófobo e racista que busca culpabilizar os imigrantes pela crise, que ataca as mulheres e as pessoas LGBTI. São respostas pela direita à crise capitalista que eclodiu em 2008. Os partidos tradicionais sejam da velha social-democracia ou os conservadores naufragaram em cada um de seus países por aplicarem as políticas neoliberais que são rechaçadas pelas massas. Mas também surgem novos fenômenos onde milhões buscam saídas pela esquerda, ainda que se expresse de maneira distorcida através de partidos reformistas (inclusive do próprio establishment como é o caso do Partido Democrata), mostra que existe uma forte polarização política e social.

Na recente eleição de meio mandato nos EUA, ainda que Trump tenha conseguido manter a maioria no Senado, perdeu a Câmara de Deputados para as mãos do Partido Democrata e em especial para seus setores mais à esquerda. Novas figuras políticas representantes dos afetados por Trump. Ocasio Cortéz uma jovem mulher de 29 anos arrasou em Nova York com 78% dos votos. Mulheres afrodescendentes, ou muçulmanas, um governador abertamente gay, simbolizam a nova geração que está despertando para a política.

O principal país capitalista segue agravando suas contradições. A partir da América Central milhares de pessoas fogem da fome e a Caravana Migrante segue seu caminho até a fronteira com os EUA enquanto recebem a comovedora solidariedade dos povos, como sucede no México.

Neste ato internacionalista dizemos bem forte abaixo a xenofobia. A classe trabalhadora é uma e sem fronteiras!

A maioria das pesquisas dizem que mais de 50% dos jovens entre 18 e 29 anos consideram o socialismo um sistema superior ao capitalismo. Sim, no coração do imperialismo cresce o questionamento à exploração, à desigualdade e à opressão que sofrem milhares sob o capitalismo. A batalha para que os setores de esquerda ligados aos movimentos sociais, como o de mulheres, imigrantes, juventude, não sejam cooptados pelo partido Democrata está aberta.

Na Europa não apenas se deu o fenômeno de polarização e crise dos velhos partidos do consenso neoliberal com o Brexit na Grã Bretanha, onde hoje prevalece uma forte crise no governo de Teresa Mey, como também vemos em outros países como na Espanha, Itália, e agora também na Alemanha.

Mas os novos fenômenos reformistas têm fortes limites. Na Grécia vimos com clareza. Syriza assumiu o governo como uma coalizão de esquerda que se propunha a rechaçar os planos de austeridade da troika. Até fizeram um plebiscito onde a maioria da população mostrou a sua oposição aos ajustes. Entretanto, levaram adiante duros planos de austeridade que acarretaram no desemprego de milhões. Não se pode reformar o capitalismo.

Contra esse horizonte de gestão do capitalismo que apresentam os reformistas nossa luta a nível internacional é por construir partidos revolucionários que levantem um claro programa anticapitalista e socialista na perspectiva de um governo dos trabalhadores e o povo de ruptura com o capitalismo.

Na América Latina é claro que a chegada de Bolsonaro à presidência do Brasil reflete essas tendências internacionais. Mas há que se dizer que os governos pós-neoliberais como o de Lula no Brasil, ou o Kirchnerismo na Argentina administraram o capitalismo em épocas de bonança econômica garantindo lucros recordes para as corporações e mantiveram o central da estrutura neoliberal. Não apenas não enfrentaram a direita no continente como conviveram com ela. No Brasil quando começou a crise Dilma aplicou um duro ajuste contra o povo que lhe custou a perda de parte de sua própria base social. São esses governos os que abriram caminho à direita.

Piñera e Macri foram os primeiros a saudar entusiasmados o triunfo da extrema direita no Brasil inimiga da classe trabalhadora, das mulheres, das pessoas LGBTI e de todo o povo pobre. São os que festejam as ameaças de Trump com a intervenção imperialista na Venezuela.

Na Argentina Macri se prepara para receber com honras aos presidentes das potências que participarão do G20, enquanto aplica as receitas de ajuste que lhe ordena o FMI.

Esta mesma semana foi aprovado um orçamento que aumenta em 50% os pagamentos da dívida enquanto caem os investimentos em saúde, educação, obras públicas. Conseguiram sua aprovação graças a colaboração do peronismo que votou todas e cada uma das leis de ajuste e entrega a Macri o Congresso, o presenteando com uma maioria que não possui nem na Câmara dos Senadores, nem na dos deputados. Tampouco possui a maioria do povo que rechaça o pacto com o FMI e que sofre as consequências de um ajuste brutal com aumentos de tarifas na luz e no gás que chegaram a mais de 1000%, com demissões que começam a golpear com mais força a classe trabalhadora, e a pulverização do salário diante de uma inflação que esse ano será superior a 45%.

Frente a isto o povo trabalhador vem dando mostras de resistência muito importantes. Em dezembro do ano passado uma massiva mobilização enfrentou a repressão durante horas na frente do Congresso quando foi votado a reforma previdenciária. Este ano vimos novamente o protagonismo das mulheres que tomaram as ruas com a enorme maré verde pelo direito ao aborto legal. A juventude também protagonizou a luta pela defesa da educação pública com ocupações de faculdades, marchas e assembleias. Importantes lutas de trabalhadoras e trabalhadores também ocuparam o centro da cena, como a enorme luta dos trabalhadores do Estaleiro Río Santiago de grande tradição de luta contra a privatização de Menem. Nosso camarada José Montes, histórico dirigente desta emblemática empresa do estado, junto às novas gerações, está na primeira fila da batalha.

A burocracia sindical vem cumprindo um papel nefasto. Em primeiro lugar os setores mais acessíveis ao governo, mas também aqueles que estão vinculados ao Kirchnerismo e que estão deixando passar o ajuste sem convocar medidas de luta unificada qe permitam derrotar as políticas de governo. Não é casual. Sua estratégia é levar tudo para o terreno eleitoral para que alguma das frações do peronismo retorne ao poder para gerir eles mesmo o capitalismo. Sem romper com o FMI e sem deixar de pagar a dívida é inevitável que se apliquem ajustes contra o povo.
Neste importante ato internacionalista queria intervir especialmente com algumas das que fizemos na Argentina e algumas conclusões que me parecem importantes para aqueles que se propõem a colocar de pé um partido revolucionário da classe operária.

Nossa aposta é derrotar Macri e as patronais com os métodos da classe operária. Com a greve geral impondo um programa favorável ao povo trabalhador, para que a crise a paguem os capitalistas.

Partimos da experiência da Frente de Esquerda (FIT) que a partir de 2011 se consolidou como uma importante força da vida política nacional levantando uma alternativa de independência política da classe trabalhadora frente às variantes patronais. Com um milhão de votos conquistamos mais de 40 parlamentares entre deputados nacionais e legisladores provinciais e municipais.

Distantes da armadilha política dos partidos tradicionais nossos parlamentares estão a serviço da luta de classe trabalhadora, do movimento de luta das mulheres e da juventude, pondo o corpo em cada batalha e sendo parte de sua organização.
Formamos parte de duras batalhas da classe trabalhadora não apenas sob o atual governo, mas também sob o kirchnerismo, que foi parte dos governos chamados pós-neoliberais e elogiado por alguns setores de centro-esquerda a nível internacional.

Em 2009 sob o primeiro governo de CFK (Cristina Fernández de Kirchner) estourou uma greve em uma das maiores fábricas d o país: Kraft. A patronal despediu um setor do ativismo e reprimiu aos trabalhadores. A maioria da comissão interna conduzida pelos maoístas firmou uma ata traindo a luta. Nossos companheiros em pouco tempo ganharam a condução na maior fábrica alimentícia do país com 3 mil trabalhadores.

Em 2014, sob o segundo mandato de CFK, se deu outra luta emblemática da vanguarda operária também nesta estratégica zona industrial se deu na montadora Lear. Ali enfrentamos a multinacional norte-americana que despediu 300 ativistas entre os que se encontrava a comissão interna que se negou a firmar um convênio flexibilizador. Foram nove meses de batalha onde fomos reprimidos mais de 20 vezes pela polícia e guarda militar. Dezenas de companheiras e companheiros foram feridos e detidos, eu mesmo fui vítima de gás e 7 balas de borracha.
Aqui tenho que mencionar a burocracia sindical da Smata aliada do governo e que atuou como polícia interna no movimento operário com métodos de máfia intimidando o ativismo. Outra constante do governo kirchnerista foi sua aliança com a burocracia sindical, a mesma que assassinou o companheiro do PO (Partido Obrero), Mariano Ferreyra.

Por volta da metade do ano passado a luta das trabalhadoras e trabalhadores de Pepsico onde nossas companheiras e companheiros do PTS que durante anos organizaram a fábrica, batalharam ombro a ombro com os trabalhadores resistindo a reintegração por parte da polícia, expressaram a vontade de resistência. Se calcula que pela TV e as redes sociais mais de 20 milhões de pessoas (quase metade da população do país) seguiu o desenvolvimento dessa jornada de luta. Algo que gerou o repúdio da população enquanto a demanda dos trabalhadores ganhou a simpatia de milhões. Vários sindicatos foram parte do chamado à mobilização de 30 mil pessoas que repudiaram a repressão. Ainda que não se tenha alcançado o objetivo da reincorporação dos trabalhadores, esta batalha que contrastou com passividade da burocracia sindical, e foi um dos motivos que levou ao governo a desistir de avançar com a reforma trabalhista como foi noticiado pelo Clarín, porta-voz do governo e das patronais.

O PTS tem orgulho de contar com milhares de militantes e simpatizantes entre a vanguarda operária e estudantil, assim como possui um papel destacado no movimento de luta das mulheres. Mas sabemos que não é suficiente para impor aos grandes sindicatos a frente única operária que conduza à greve geral para derrotar
Macri e seu plano de guerra.

Temos adiante a tarefa de conquistar fortes frações nos sindicatos que possam pesar a balança. Mas para isso necessitamos romper a divisão entre o trabalho sindical e político, entre estudantes e trabalhadores, ou com as companheiras protagonistas do grande movimento de luta das mulheres. Nós estamos propondo revolucionar nossa prática política, que cada companheira e companheiro não milite exclusivamente em seu setor. E não apenas estamos falando de trocar experiências ou de apoiar uma luta circunstancial, nos propomos fundir aos setores mais avançados do movimento operário com a energia da juventude e do grande movimento de luta das mulheres para fazer tremer as burocracias sindicais e estudantis. Para recuperar essas organizações que hoje estão esvaziadas para que sejam uma verdadeira ferramenta de luta.

O PTS impulsiona a FIT e se propõe a pôr toda a força conquistada para ser um fator determinante na luta de classes para que a crise seja paga pelos capitalistas e não os trabalhadore. E acreditamos que esta experiência da esquerda revolucionária na Argentina pode servir como ponto de apoio a nível internacional para construir partidos revolucionários da classe trabalhadora contra as variantes reformistas que tentarão conduzir milhões a novas frustrações. Junto às companheiras do PTR do Chile e o MRT do Brasil impulsionamos a FT que impulsiona a rede de diários La Izquierda Diario em 11 países e 7 idiomas, como parte da luta por reconstruir a Quarta Internacional fundada por León Trotsky, um partido mundial da revolução socialista.

A grande combatividade da juventude e do movimento operário do Chile tem que abrir frente para a construção de um partido revolucionário da classe operária para tomar o poder dos capitalistas.

Viva a luta dos povos contra o imperialismo! Que vivam os estudantes que se enfrentam com a ordem estabelecida! Viva a luta das mulheres contra este sistema capitalista e patriarcal!

Pela unidade da classe trabalhadora e dos povos oprimidos do mundo contra o imperialismo! Pela unidade socialista da América Latina!
Pela construção de partidos revolucionários e a reconstrução da quarta internacional!




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