Política

IMPEACHMENT

Negociações a todo vapor na corrida do impeachment

Após a aprovação por parte da comissão especial do pedido de impeachment para o plenário da Câmara por uma apertada margem, governo e oposição se movem no complexo tabuleiro à procura de garantir os votos necessários no domingo.

Fernando Pardal

@fepardal

quarta-feira 13 de abril de 2016| Edição do dia

O governo sofreu um primeiro revés ao perder por 38 votos contra 27 a votação para tentar barrar o encaminhamento do pedido de impeachment de Dilma ao plenário da Câmara. O governo já previa a derrota, mas a calculava por uma margem menor. Contudo, na Câmara, a oposição enfrentará um novo desafio, necessitando obter dois terços dos votos, ou seja, 342 dos 513 deputados, para que o pedido de impeachment vá para sua etapa final, a apreciação no Senado.

Entre os favoráveis ao impeachment na votação da comissão estavam PSDB, DEM, PRB, PSB, PTB, SD, PSC, PPS, PV, PMB, PHS e Pros, enquanto os que defenderam o fim do processo foram PT, PCdoB, PDT, PEN, PR, PSOL, PTN, PTdoB e Rede. Três partidos, PMDB, PP e PSD, tiveram votos divididos entre seus representantes.

Se a mesma proporção da votação da comissão se mantivesse no plenário da Câmara, o governo sairia vitorioso, com uma defasagem de 30 votos para a oposição conquistar o prosseguimento do pedido. Contudo, conforme era de se esperar, a derrota na comissão coloca mais pressão para que os partidos que cogitavam ficar com Dilma em troca de cargos debandem para o outro lado. O PP, por exemplo, que o governo vinha bajulando com a promessa de Ministérios importantes, como o da saúde, hoje ocupado pelo PMDB, declarou hoje sua debandada. Na comissão, de seus 4 representantes, 3 votaram contra o governo e um 1 a favor. Mas, após a vitória da oposição, o partido declarou que irá votar a favor do prosseguimento do impeachment para o Senado. O PP tem a quarta maior bancada na Câmara, com 47 deputados. Além do PP, o PRB também decidiu abandonar o governo, e seus 22 deputados apoiarão o impeachment na Câmara.

O governo precisa tirar 171 votos da oposição, que não precisam ser votos contrários ao impeachment: podem ser abstenções, uma posição mais “confortável” para os deputados que não querem se comprometer com medo de ficar no lado derrotado. De acordo com levantamentos feitos por Luís Nassif a partir de consultorias que realizam análises para o mercado financeiro, há 39 deputados indecisos, dos quais a oposição precisa garantir 26 para ter o quórum. Cunha sabe que não tem ainda esse número, e a partir disso torna-se uma questão fundamental ele controlar a ordem de votação dos deputados, para tentar garantir que o “efeito manada” - em que os deputados tenderão a votar a favor do lado que achem que vai ganhar – pese a favor do impeachment e não o contrário. Para isso, Cunha tem que iniciar a votação pelo sul, que é a bancada mais pró-impeachment. Se começar pelo norte e nordeste, o efeito manda favorecerá o voto contra o impeachment.

Outra forma do governo tentar derrubar o impeachment é por meio das abstenções, que é o simples não comparecimento ao plenário. Assim, um deputado que queira votar pelo governo em troca de favores, mas que não queira “ficar mal” com seus eleitores, simplesmente não comparece à sessão.

A oposição trabalha ainda com o fator lava-jato, que continua sendo usada como forma de criar fatos políticos para favorecer o impeachment. O mais recente é a abertura de investigação contra Renan Calheiros, presidente do Senado e do PMDB, que é contrário ao impeachment.

O que esses dados demonstram é que a disputa entre governo e oposição ainda está em aberto. E também, que o método do governo para barrar o impeachment continua sendo o mesmo de qualquer partido desse regime podre e corrupto: as negociatas e trocas de favores. Se foi isso que durante os treze anos de governo do PT abriu espaço para bancadas como a ruralista e a evangélica, fez crescer partidos fisiológicos de direita como o PP, agora fica cada vez mais claro que para se manter no poder o PT continua disposto a rifar cada centímetro do poder para conquistar uma base “aliada” para derrotar a votação no plenário. Se nas ruas colocam seus burocratas da CUT e UNE para vociferar contra o impeachment e defender o governo, está claro que não é por meio da força de qualquer mobilização que pretendem derrotar a votação, mas sim se enfiando cada vez mais fundo na lama desse regime apodrecido.

É com essa lógica que negocia hoje o PP, partido de caudilhos corruptos pautado em oligarquias regionais como a da família Amin em Santa Catarina ou Maluf em São Paulo. Depois de conseguir a oferta de um dos principais ministérios por parte do governo, o da saúde, cobiçado por todos os abutres pelo seu alto orçamento e número de cargos para fazer negociatas, o PP decidiu que poderia ir por mais e se fiar no desespero do governo. O peso de sua bancada possibilita pressionar o governo até o último minuto. Por isso que mantém o tempo inteiro uma posição ambígua. Antes da votação na comissão, se mantinham no governo, com o presidente do partido, o senador Ciro Nogueira (PI), dava declarações públicas de que era contrário ao impeachment. Enquanto isso, uma de suas principais figuras públicas, o deputado Paulo Maluf (SP), proferia bravatas cínicas dizendo que era favorável ao impeachment pelo método baixo com o qual o PT queria angariar votos pela manutenção de Dilma: justamente com a distribuição de cargos. Nas entrelinhas se lê: se formos ficar do lado de vocês, queremos mais cargos. Contudo, pode ser que efetivamente existam aqueles dentro do partido que já apostam na derrota certa do governo e não querem correr este risco, mas, considerando o enorme peso da bancada da sigla na câmara, pode ser também que estejam blefando para conseguir mais um pedaço do governo de um PT cada vez mais encurralado. Partidos menores, como o PRB, certamente atuam com lógica semelhante. Outra variante é que, assim como o PMDB, tenham votado essa ruptura mas que uma parte vote concretamente contra o impeachment.

Quanto a nós, enquanto continuam as podres negociatas, precisamos continuar de forma independente nos mobilizando contra a manobra reacionária do impeachment, exigindo das centrais sindicais e entidades estudantis como CUT, CTB e UNE que rompam sua submissão ao governo e passem das palavras à ação, colocando em pé um plano de luta contra o impeachment, os ataques do governo do PT e as demissões, onde os trabalhadores e jovens sejam sujeitos, com seus métodos, dessa imensa batalha política. Não há que ceder um milímetro de confiança a esse governo que, como seus métodos para tentar se preservar no poder deixam claro, estará com forças redobradas para implementar os ataques (mesmo que possa vir com a demagogia lulista) sobre trabalhadores, juventude e povo pobre caso consiga se sustentar.




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