Cultura

NAUFRÁGIL - CINEMA

Naufrágil: coluna indisciplinada de arte e política

O cinema de Ozualdo Candeias

Fábio Nunes

Vale do Paraíba

sexta-feira 24 de março de 2017| Edição do dia

Um pouco sobre Ozualdo Candeias. Quem? Candeias. Não é o diretor de cinema mais marginalizado mas também não anda assim tão lustroso nas vitrines. As vezes a life é meio bosta.

O cineasta Ozualdo Candeias (1918-2007) é uma das figuras mais importantes que surgiram na Boca do Lixo, pólo cinematográfico que existiu no centro de São Paulo entre meados dos anos 1960 e final dos anos 1980.

De origem pobre, o jovem Candeias estudou pouco, trabalhou como office-boy, foi sargento da Aeronáutica na década de 1940 e depois funcionário público na Prefeitura de São Paulo. No final dos anos 1940 e início dos anos 1950 Candeias comprou um caminhão e passou a trabalhar como caminhoneiro.

Viajava pelo interior de São Paulo, Paraná, Mato Grosso, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Neste período comprou uma câmera da marca McSonic de 16 mm para filmar discos voadores em alguma estrada que percorria na boleia de seu caminhão. Obviamente não filmou extraterrestres, mas passou a se interessar por cinema.

Em 1955, surge a história do padre Donizetti, que fazia milagres na cidade de Tambaú, perto de Ribeirão Preto. A história se espalhou e a cidade virou centro de romaria. Candeias procurou a distribuidora Polifilmes, localizada na Rua do Triunfo, centro nervoso da Boca do Lixo, e propôs registrar a história do padre "milagreiro". A distribuidora decidiu investir e Candeias realizou "Tambaú, Cidade dos Milagres" seu primeiro documentário em 16mm.

Candeias foi um autoditada. Assim como outros grandes diretores, ele aprendeu as artimanhas da sétima arte na "raça". Foi diretor, roteirista, montador, cenógrafo etc, etc, etc. Chamado de "primitivo" e "marginal", não foi um representante da intelectualidade burguesa e pequeno burguesa, encarnação da triviliadidade e da futilidade prosaica.

Candeias fez TV, ganhou algum dinheiro fazendo uns documentários, apesar de toda dificuldade econômica, conseguiu manter uma linha honesta no cinema. E talvez por isso tenha sido lançado na galeria dos desconhecidos. Seus filmes tiveram lançamento comercial limitado e alguns nunca foram exibidos fora dos circuitos alternativos (cineclube, cinemateca, universidade etc).

Apresento aqui alguns trabalhos deste diretor inventivo e marginalizado:

A Margem (1967)

Primeiro longa-metragem de Candeias, um dos marcos do "Cinema de Invenção", também chamado de "Cinema Marginal". O cineasta decidiu realizar um filme sobre uma realidade brasileira, principalmente paulistana e apresenta quatro personagens que vagam pelas favelas da Marginal do Tietê. Miséria e lirismo sem eira nem beira. Clássico total. Mas sem o pedantismo dos doutores em cinema.

Meu nome é Tonho (1969)

Candeias conta a história de um bando de criminosos que invade a casa de uma família de agricultores, rouba, mata e sequestra uma das filhas da família. Um dos filhos consegue fugir. Depois de alguns anos irmão e irmã se encontram numa casa de prostituição. A jovem sequestrada tornou-se prostituta. Como um Edipo do faroeste, Tonho transa com sua irmã e vai em busca de vingança. Incesto e violência, que causou certa indignação no público.

Uma Rua Chamada Triunpho (1969/1970) - (1970-1971)

Dois documentários sobre os personagens e a produção cinematográfica na rua do Triunfo.

A Herança (1971)

Adaptação cinematográfica da peça Hamlet de William Shakespeare para o interior do Estado de São Paulo da primeira metade do século XX. Um rico fazendeiro, manda seu filho, Omeleto, para estudar Direito na capital paulista. O fazendeiro é morto pela mulher, mãe de Omeleto e pelo o seu irmão, que assumem o controle da fazenda. O filho volta e encontra a mãe com o tio e promete distribuir suas terras para as famílias pobres que vivem e trabalham na fazenda.

Trilogia Proibida: três médias-metragens criticando o governo militar. Os filmes não foram mandados para a censura e foram exibidos apenas em circuitos alternativos.

Zézero (1974)

Zézero é um "zero a esquerda" que saiu do campo e veio para a cidade grande para trabalhar como operário da construção civil. Zezero tem o sonho de ganhar e ganha na Loteria Esportiva. Uma crítica ao regime militar e ao sonho de ficar rico na cidade grande, embalado por violência e sexo.

Candinho (1976)

Trabalhador do campo explorado e oprimido é expulso da fazenda onde mora e vai para a cidade grande à procura de Jesus Cristo. Crítica à Ditadura, as Igrejas e ao latifúndio. O Messias toma café com fazendeiros e Candinho é mais um pobre coitado. Crucifixo e metralhadoras.

Senhor Pauer (1988)

O último média-metragem da trilogia – se passa em Curitiba durante uma greve de ônibus. Candeias apresenta uma série de personagens como um catador de papel, um burguês etc, metáfora de um mundo dividido em classes sociais onde quem manda é o dinheiro.

BocadoLixoCinema ou Festa na Boca (1976)

Em dezembro de 1976, Candeias organizou a festa de fim de ano na Rua do Triunfo e compôs este poema visual sobre este momento importante da cinematografia nacional.

A opção ou as Rosas da Estrada (1981)

As rosas das estradas são mulheres que se prostituem e sonham com uma vida melhor. O caminhoneiro e cineasta da Boca do Lixo em São Paulo conheceu a prostituição de perto, mas o olhar não é o do artista que fetichiza a exploração sexual de mulheres pobres.

Manelão, o Caçador de Orelhas (1982)

Manelão é um trabalhador do campo que precisa se curar de uma gonorréia e não tem dinheiro para pagar o tratamento médico. A única alternativa que lhe aparece é prestar serviços a um rico fazendeiro. Manelão se transforma num frio matador de aluguel.




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