Cultura

ENTREVISTA

Naufrágil: coluna indisciplinada de arte e política

Naufrágil bateu um papo com o artista e ativista cultural Pedro Osmar. Nascido em João Pessoa em 1954, iniciou sua carreira em 1970 nos festivais de música da capital paraibana. Ao lado do irmão Paulo Ro, é um dos impulsionadores dos movimentos estéticos e políticos Jaguaribe Carne e Musiclube da Paraíba. Pouco divulgado pela grande mídia, acredita no experimentalismo e na democratização dos meios de comunicação.

Fábio Nunes

Vale do Paraíba

quinta-feira 9 de março| Edição do dia

Fabio Nunes: Eu sempre peço para o entrevistado se apresentar.

Pedro Osmar: Nasci numa família trabalhadora (pai operário da construção civil e mãe funcionária pública estadual), em junho de 1954. Vou fazer 63 anos bem vividos. Quando nasci a arte já estava dentro de casa, estava na frente de nossa casa, nos saraus da casa de sêo Oscar (policial militar) e Dona Iracy (dona de casa, minha tia). Foi nesse contexto que eu nasci. Contexto de serestas diárias na calçada, com muita cachaça e tiragosto. Naquele ambiente passavam boi de reis, tribos indígenas do carnaval, escolas de samba e clubes de frevo. Meu aprendizado fundamental foi nessa rua, nessas casas, na antiga Rua da Paz, em Jaguaribe. Nesse tempo ainda não tínhamos rádio e TV em casa. Final dos anos 60. Mas Jaguaribe evoluiu com rapidez, e logo me vi frequentando quatro cinemas, a biblioteca comunitária e os carnavais tradição, onde vim a aprender muita coisa de minha formação autodidata. Estive sempre muito distante das academias e circulos intelectuais. Muita coisa aprendi nas esquinas, nos cinemas, nos grupos de amigos do Colégio Estadual de Jaguaribe. É daí que vem a elaboração de minhas idéias, de meus projetos, minhas pesquisas e propostas para a cultura da cidade de João Pessoa. Quando surge o grupo Jaguaribe Carne em 1974, todas as inquietações dessa vivência cultural tomou forma e indicou um caminho., o caminho da compreensão das "vanguardas populares" oriundas da "Semana de Arte Moderna" de 1922 em São Paulo. De repente era o mesmo Brasil, indo e vindo, e me fazendo rir.

Fabio Nunes: O documentário Pedro Osmar, pra liberdade que se conquista (2016), de Rodrigo T. Marques e Eduardo Consonni tá rodando os festivais...

Pedro Osmar: São Paulo sempre foi muito cordial e amiga com meus trabalhos, com minha "Viola Mundira" antenada com as outras formas de tocar que aprendi ouvindo a música indiana nesse contexto de música do mundo. Experimentei as aproximações, as fusões, os trampolins com o Jaguaribe Carne, para os novos entendimentos de uma música mais voltada para as coisas mais estranhas que as vanguardas me ensinavam. Com os amigos das artes visuais (Unhandeijara Lisboa, Dyógenes Chaves e toda a turma do Clube da Gravura da Paraíba). A música comercial não fazia muito a minha cabeça e eu fui sempre buscar a coisa nova e a nova coisa em tudo que me interessava. E eu não estava sozinho. Sempre fui dos coletivos. Quando fui morar em São Paulo me vi diante de projetos como a Bienal Internacional de Arte e toda uma complexidade estética, ética e política, e a vida se abriu para tudo, para sempre. O filme PEDRO OSMAR, PRA LIBERDADE QUE SE CONQUISTA, é um tipo de resposta que São Paulo me dá. Os amigos que eu ganhei em São Paulo me revelaram ainda mais para o complexo político do eixo Rio/São Paulo. O filme vai me levar para outras realidades presentes nos contextos do cinema brasileiro. Estou gostando muito e aprendendo com os novos amigos do cinema brasileiro. Hoje minha vida está na fase de sua retrospectiva, em música, poesia, artes visuais e diálogos com pessoas interessadas em saber de minhas experiências experimentações. Isso o filme revela muito bem.

Fabio Nunes: No começo da década de 1970, você e o seu irmão Paulo Ro, impulsionaram em João Pessoa (PB) um movimento-experimento estético e político chamado Jaguaribe Carne. Comente.

Pedro Osmar: Eu sempre explico o JAGUARIBE CARNE como sendo o encontro da estética da poética de Geraldo Vandré, bem andina, com a estética da música de Hermeto Pascoal, com um pouco de molecagem da poesia dos marginais dos anos 70. Fiz com que o Jaguaribe Carne viabilizasse esse mistério do aprender autodidata nas concretudes e aproximações e preocupações do rock/jazz/blues nas linguagens experimentais que estamos aprendendo até hoje. O Jaguaribe Carne tem seu núcleo em Pedro Osmar e Paulo Ró a partir de 1974. O nordeste é a base com a qual trabalhamos na objetividade de seus intercambios realizados.

Fabio Nunes: Crise econômica e política, ataque a produção artística, a situação não é a das melhores.

Pedro Osmar: O que está acontecendo no Brasil da atualidade é resultado dos erros e equívocos da prática política dentro do capitalismo, onde ninguém tem moral para se defender. Todos estão responsabilizados pelo que está acontecendo, os avanços e recuos da democracia burguesa que tão mal tem nos feito. O povo brasileiro é inocente! Somos um povo usado pelos canalhas de todas as cores e ritos e partidos, esquerda, centro e direita, com muita coisa mal resolvida, gerando uma crise sem precedentes na história. E a arte, o que tem a ver com isso? Somos uns utópicos, arruaceiros, moleques de recado de um outro tempo, um tempo que independe da realidade em crise. Utopias e realidades correndo por fora das armações dos bandidos das políticas. Certamente isso nunca termina bem. Mas a arte e os artistas sempre terão saídas a declarar!




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