Cultura

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Naufrágil: coluna indisciplinada de arte e política

Fábio Nunes

Vale do Paraíba

sexta-feira 3 de fevereiro de 2017| Edição do dia

Depoimento do cineasta "marginal" Rogério Sganzerla (1946-2004)

Como? Por que se faz o processo criativo? Eu acho que tem que perguntar para as crianças, as crianças podem responder isso.

Arte para a burguesia semicolonial brasileira:

Jóias, acessórios e concertos moderados

Cuidado Madame (1969), do diretor também "marginal" Júlio Bressane

Personagem 1 (Helena Ignez) - Eu vi Jesus! Eu vi Nossa Senhora!

Personagem 2 (Maria Gladys) - Então pede pra eles dá um pulo aqui embaixo que a barra tá violenta.

JN

William Bonner (homem branco rico heterossexual) é o editor-ancora-chefe do "Jornal Nacional" e a Glória Maria (uma das poucas jornalistas negras da Rede Globo) é praticamente a única que foi/vai ao ar escorregando, levando susto, "pagando mico". Quase não tem "meme" do Bonner caindo no chão. Por que justamente uma mulher negra é transformada em motivo de piada no telejornal da "família brasileira"?

Orgia ou O homem que deu cria (1970)

Um filme de ficção.

Diretor e roteirista: João Silvério Trevisan.

Elenco (os mais famosos): Pedro Paulo Rangel, ator que depois fez inúmeras novelas; o cineasta "marginal" Ozualdo Candeias; Fernando Benini, aquele das "pegadinhas" do Silvio Santos; Jairo Ferreira, crítico e diretor "marginal"; o critico de cinema Jean Claude Bernardet etc.

Fotografia e câmera: Carlos Reichenbach, diretor de "Lilian M: Relatório Confidencial" (1974)

Figurino: Walcir Carrasco, hoje autor de novelas da Rede Globo.

Vozes de: Marco Nanini, Zezé Motta, Walter Cruz e Silvio Abreu.

Locação: Francisco Morato-SP

Termos Descritores : "Descoberta do Brasil"; liberação sexual; terror; contracultura.

Descritores secundários: Canibalismo; cangaço.

Sinopse: Um jovem camponês mata seu pai e inicia uma caminhada-procissão- carnaval antropofágico rumo à cidade grande (Eldorado?). Aos poucos vão se agregando ao cortejo uma travesti negra interpretando uma Carmen Miranda escrachada, um padre, um "rei" negro cadeirante, prostitutas, um "anjo" de asa quebrada etc. Personagens alegóricos e lisérgicos que querem "descobrir o Brasil". Mas o que é o Brasil? O Brasil de "Orgia" é pós AI-5, auge da Ditadura Militar.

Restrições apresentadas pela censura em 1970: "na primeira parte, sequências nas quais as personagens são focalizados em atitudes animalescas; na segunda parte, eliminação dos palavrões e corta da tomada que focaliza dois atores limpando as nadegas; na terceira parte, supressão de pornografias; na quinta parte, corte das tomadas alusivas ao cangaceiro tendo uma criança e da sequência que mostra os canibais devorando o recém-nascido logo após o parto".

"O homem que deu cria" foi proibido e o diretor, assim como outros artistas brasileiros, foi para o exílio.

Trevisan é um ativista gay, ajudou a construir o grupo LGBT "Somos" nos anos 70, editou o jornal "Lampião de Esquina" e escreveu o clássico "Devassos no Paraíso" (1986), importante ensaio sobre a homossexualidade no Brasil. "Orgia" também aborda a homossexualidade, a travestilidade e outras questões de gênero e sexualidades, tudo no espírito transgressor dos anos 60. O que avançou ou retrocedeu de lá para cá? Trevisan transgrediu ou se adaptou às opressões da época? A personagem da travesti negra rompeu com os "clichês" burgueses? Fica o debate.

Transcrevo um dos poucos monólogos do filme:

- A gente nunca sai do lugar. Tem ruína por todo canto e gente besta se lastimando, como eu, aos montes. Vou embora porque caí da cama, deixei aquela felicidade doméstica de lado. Os santos, eu acho, são uma gente desnecessária, porque a vida é uma comédia que se deve representar. Procuro um animal como Deus, procuro alguém pra brigar, procuro uma nova mentira para dizer, procuro sangue pra pisar. Ahhhhh! Eu dei uma cagada encima de todo mundo, só pra mostrar que eu existo, que eu sou perigoso. To conhecendo o país para me destruir. Você é um sabidao porra! Vou dar uma lição nesta gente de merda, gente de merda, gente de merda. Os bichos tão me ensinando o sentido da vida. Ahhhh!

Não vi ainda

O musical “La La Land - Cantando Estações", do diretor Damien Chazelle, ganhou tudo no Globo de Ouro e é favorito ao Oscar de melhor filme. Os críticos dos grandes jornais dizem que é "maravilhoso". O filme "canta" a velha história da jovem atriz (Emma Stone) que tenta a sorte em Hollywood e se apaixona por um pianista amador (Ryan Gosling) que sonha em montar um clube de jazz.

A mocinha branca, o mocinho branco, o sonho em Hollywood, o "happy end", nada muito diferente, mas, como não vi o filme não posso opinar até o final. Uma crítica mais pesada disse que "La La Land" promete transportar o espectador à "época de ouro" do musical estadunidense mas na realidade o favorito ao Oscar é um "catadão" dos "melhores momentos" dos musicais antigos.

Já a atriz Cassia Kis falou na Rede Globo que "Redemoinho" (Globo Filmes) é um dos filmes importantes do cinema nacional.

Enquanto isso

A 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes (MG) anunciou na noite deste sábado (29) os filmes vencedores do evento. Os prêmios se concentraram em produções das Regiões Sudeste e Nordeste do país. Filmes brasileiros, independentes, alguns bastante criativos, mas de difícil acesso. Nos cinemas de shopping tá rolando o "La La Land" mesmo, e caro. Assim fica difícil para a crítica operária "acompanhar".

Glauber Rocha no "Programa Abertura" (1979) da Rede Tupi

- Dediquei mais de vinte anos de minha vida ao cinema brasileiro, sou um dos principais artistas da Embrafilme, realizei alguns filmes de repercussão internacional e me encontro no Brasil marginalizado e sem nenhuma perspectiva de saída para o cinema.

Apenas um filme

"Garganta Profunda" (1972) foi sucesso de bilheteria e se tornou um clássico do cinema pornográfico. Linda Lovelace (1949-2002), atriz que protagonizou o filme, também ficou muito famosa, por conta do filme e das declarações que fez depois sobre pornografia, prostituição e estupro. Conforme Linda, ela era espancada e estuprada no set de filmagem deste ícone do pornô que rendeu milhões de dólares para os seus produtores.

Rebelde índigo blue: parceria cinema-jeans americano

Hollywood adotou a calça jeans como figurino do "jovem rebelde" no pós II Guerra Mundial. Marlon Brando vestiu uma calça Levi’s 501 no filme "Selvagem" (1953), James Dean usou uma Lee Rider 101 em "Juventude Transviada" (1955) e Elvis Presley vestiu um "look" da Levi’s no filme "Jail House Rock" (1957), com direito à linha "Elvis Presley Jeans".




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