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Nascidas na crise, revoltas contra o terror policial abalam as bases do Estado norte-americano

Na quarta-feira (3), o prefeito de Minnesota anunciou que Derek Chauvin - o policial que sufocou George Floyd - será acusado de homicídio doloso, e que os outros três policiais que foram cúmplices de Chauvin serão finalmente presos. Esta é uma vitória importante para o movimento; mas esses protestos são diferentes de tudo o que vimos antes e há muito potencial para contínua agitação e resistência.

quinta-feira 4 de junho| Edição do dia

Há mais de uma semana, protestos irrompem diariamente nos EUA em resposta ao assassinato de George Floyd pela polícia de Minneapolis. O que começou em Minneapolis como um levante pequeno, mas furioso, contra décadas de violência policial, agora se espalhou por quase todas as grandes cidades do país, bem como muitas cidades menores. Chicago, Los Angeles, Nova York, Oakland, Seattle, Denver, Louisville, Washington DC, Atlanta e mais de 140 outras cidades explodiram em raiva e inquietação. Enquanto isso, os trabalhadores de todo o mundo realizam manifestações e marchas de solidariedade em Londres, Berlim, Auckland, Copenhague e Toronto. Na terça-feira em Paris, milhares de manifestantes entraram em conflito com a polícia exigindo justiça para George Floyd e o fim do policiamento racista. Apesar da ameaça do coronavírus, para não mencionar a retaliação policial, centenas de milhares de pessoas em todo o mundo foram às ruas espontaneamente para exigir o fim da violência policial e mostrar diretamente sua raiva por um sistema que os abandonou.

Manifestantes nos EUA entraram em choque com a polícia e queimaram viaturas, prédios do governo e lojas de varejo, e a Guarda Nacional foi enviada a várias cidades e estados do país para reprimir a agitação. Milhares de manifestantes foram presos, centenas foram feridos por armas "não letais", vários foram mortos e pelo menos dois repórteres perderam o olhos depois de serem alvejados pela polícia com balas de borracha. Enquanto isso, o presidente Trump - familiar com incitações controversas à violência - incentivou o estado e os vigilantes brancos armados a atacar manifestantes, e empregou a frase "quando os saques começam, os tiros começam", demonstrando bem onde estão suas prioridades. Desde então, houve pelo menos dois casos de violência de vigilantes brancos contra manifestantes e, no domingo, David McAtee, dono de um restaurante local, foi morto pela Guarda Nacional em Louisville, Kentucky. Seu corpo foi deixado na rua por 12 horas. No dia seguinte, em uma teleconferência com os governadores dos EUA, o presidente Trump disse que a resposta às manifestações foi "fraca" e pediu que eles "dominassem" manifestantes indisciplinados, acrescentando "você precisa prender pessoas e julgá-las, e elas têm que ir para a prisão por longos períodos de tempo". Essas declarações vieram apenas algumas horas depois que manifestantes em Washington DC cercaram a Casa Branca, tocaram um posto de guarda em chamas e entraram em conflito com o Serviço Secreto no Lafayette Park, enquanto Trump estava escondido no bunker da Casa Branca.

Apesar da retórica do presidente e das enormes marchas, danos à propriedade e saques, a maioria dos americanos continua apoiando os manifestantes e suas demandas. Os feeds das mídias sociais, incluindo os de várias grandes empresas e corporações, estão cheios de mensagens de solidariedade. Enquanto isso, uma pesquisa nacional da Reuters divulgada na terça-feira mostrou que 64% dos entrevistados eram "simpáticos às pessoas que estão nas ruas protestando” e 47% disseram que discordavam da resposta da polícia até agora. Apenas 27% disseram serem opostos aos protestos. Em uma pesquisa em Monmouth também divulgada na terça-feira, 78% dos entrevistados disseram que "a raiva que levou a esses protestos foi justificada ou totalmente justificada" e extraordinários 54% concordaram com a mesma afirmação mesmo quando solicitados a ponderar esse apoio à luz do que ocorreu durante o protestos. Isso sugere que, pelo menos por enquanto, existe um amplo acordo de que algo precisa ser feito sobre o problema da violência policial. Até onde a maioria dos americanos está disposto a ir em seu apoio aos manifestantes ainda está por ser visto, mas claramente existem grandes setores da classe trabalhadora prontos e dispostos a se levantarem por mudanças substanciais.

Agora é o tempo dos monstros

Enquanto os eventos que agora se desenrolam diante de nós são muito fluidos, evoluindo quase diariamente, uma coisa é clara: a natureza, o alcance e a volatilidade desses protestos são diferentes de tudo o que foi visto nos EUA por muitas décadas. O equivalente imediato seria a agitação que se seguiu ao espancamento brutal de Rodney King em 1992, que durou cinco dias e se espalhou de Los Angeles para várias cidades do país. Mas os protestos de George Floyd já duraram uma semana inteira e, apesar do toque de recolher e da repressão policial, eles mostram poucos sinais imediatos de desaceleração. Além disso, o contexto social e político do levante desta semana é muito mais dinâmico e volátil do que em 1992, quando o poder dos EUA estava no auge. Por causa dessas diferenças, é possível que possamos ver uma fase muito mais longa de inquietação periódica e revolta, ao contrário das manifestações e confrontos do “longo verão quente de 1967”, quando mais de 150 levantes - principalmente em resposta à violência policial - ocorreram em todo o país no curso de três meses. Como as revoltas globais do final dos anos sessenta, das quais o longo verão quente foi apenas uma parte, as revoltas desta semana são o produto de uma série entrelaçada de crises sociais, políticas e econômicas que foram levadas ao ponto de ebulição pela pandemia de coronavírus.

Mas essas crises cruzadas são elas mesmas partes de uma "crise orgânica" ainda maior e mais longa do capitalismo, de proporções e profundidade tais que pôs em dúvida a própria legitimidade de todo o sistema. Tais situações, como Antonio Gramsci as descreveu, são uma espécie de interregno, um período de mudança em que "o velho mundo está morrendo e o novo mundo luta para nascer". Nesse contexto, podemos entender melhor esses protestos como talvez a primeira de muitas dores de parto que podemos esperar ver nos próximos meses ou anos.

No entanto, enquanto essas crises ainda não resolvidas estão atingindo os trabalhadores em todos os lugares, elas atingiram, sem dúvida, os norte-americanos negros de forma particularmente dura. E como um dos grupos mais explorados de trabalhadores nos Estados Unidos, é natural que eles sejam os que estão na vanguarda desses levantes. A pandemia de Covid-19 e a resultante crise econômica, o desemprego em massa, o extremismo de direita e a violência policial em curso devastaram as comunidades negras. Os negros norte-americanos, por exemplo, têm mais de três vezes a probabilidade de morrerem de Covid-19 do que os norte-americanos brancos. Desde a quarentena, a taxa de desemprego oficial dos negros norte-americanos atingiu 16,7%, dois pontos e meio a mais do que o desemprego branco. Enquanto isso, a riqueza negra, que já foi devastada pela crise econômica de 2008, agora é menor quando comparada aos brancos do que em qualquer outro momento nos últimos 40 anos. E, é claro, os negros continuam enfrentando policiamento opressivo e racista, violência policial e assédio em suas comunidades. Mas, como revelam as imagens noturnas desses protestos, não são apenas os negros que se levantam.

Juventude negra e branca na linha de frente

O que estamos vendo nas ruas agora é a expressão da raiva generalizada de uma vanguarda multirracial, principalmente de jovens que foram os que estão na linha de frente de muitas dessas manifestações e confrontos com a polícia. Embora o terror e a repressão policial sejam de longe as principais preocupações dos manifestantes - que já conseguiram com sucesso a prisão dos quatro policiais envolvidos no assassinato de Floyd - é claro que a indignação vai além da própria polícia. Afinal, o terror policial é apenas o exemplo mais óbvio e flagrante do que são níveis muito mais amplos e profundos de repressão e privação de direitos. Por trás de toda matança policial, existem milhares de jovens negros que foram espancados, perseguidos e presos. E por trás de todos as revoltas contra policiais, há milhões de trabalhadores e pessoas negras e latinas que enfrentam privações econômicas, adoecimento, violência doméstica, desemprego, fome e falta de estrutura habitacional.

Essas manifestações não apenas revelam a raiva reprimida de toda uma geração de jovens negros e brancos, mas também apontam para uma ampla e crescente desconfiança nas instituições estatais. Os altos níveis de desemprego que muitos jovens enfrentam atualmente, mais de 30% entre os 18 e os 24 anos, combinados com dívidas enormes, queda nos padrões de vida e a ameaça sempre presente das mudanças climáticas, deixaram uma geração com pouca esperança e ainda menos confiança nas instituições empresariais, no governo e na polícia. Em uma pesquisa de juventude de Harvard, conduzida em 23 de abril, um mês inteiro após o isolamento em todo o país, apenas 8% dos americanos entre 18 e 29 anos acreditavam que o governo estava trabalhando como deveria estar, enquanto 39% consideravam que as instituições precisavam ser substituídas em vez de meramente reformadas. Isso está muito longe do reformismo que, meses antes, havia sido um componente normativizado do apoio da esquerda a Bernie Sanders, candidato nas primárias do Partido Democrata.

Apenas alguns meses atrás, os jovens estavam empolgados com a candidatura de Bernie Sanders. Sanders capturou as aspirações da juventude nos Estados Unidos e, por um breve momento, pareceu a muitos que o Partido Democrata poderia ser, afinal, capaz de ser um veículo para reformas significativas. No entanto, sua campanha costumava estar vários passos atrás do que a massa de seus apoiadores pedia, e seu fracasso em entregar até mesmo uma parte modesta das reformas que havia prometido, sem mencionar o apoio de Sanders ao repudiável Joe Biden, que deixou muitos de seus apoiadores desiludidos e zangados. Depois veio a pandemia e, com ela, a segunda crise econômica colossal da geração millenial, que já atingiu a maioridade em meio à recessão de 2008. As condições da pandemia e a onda de luta de classes que se seguiram contribuíram para a radicalização de toda uma camada de trabalhadores jovens e precários, essenciais e de linha de frente. Os jovens negros e brancos que marcham lado a lado na rua agora, ao grito de “Sem justiça, sem paz!" não estão fazendo ameaças a esmo, e parece claro que a paz burguesa não será fácil de restabelecer.

Para o que estamos nos preparando?

Embora seja muito cedo para dizer se esses protestos continuarão por semanas ou meses, ou se os confrontos entre manifestantes e a polícia se intensificarão, é evidente que há milhões de jovens, e até não tão jovens, trabalhadores prontos para lutar. Mas o movimento tem muitos desafios pela frente. A espontaneidade crua pode se esgotar e se desgastar rapidamente se o movimento não se garantir objetivos claros. As mobilizações de rua podem ser poderosas, mas não são suficientes para forçar o Estado a acabar com os tipos de violência racista que mataram George Floyd, Breonna Taylor, Sean Reed, Ahmed Arbery e muitos outros. Resta ver se o movimento se tornará mais massivo, abraçará um objetivo claro, e começar a organizar-se em formas mais concretas de auto-organização, como assembleias por cidade capazes de atuar como embaixadores entre a vanguarda nas ruas e o resto da classe trabalhadora. Embora muitos sindicatos apoiem o movimento e haja muitos casos de solidariedade dos trabalhadores em todo o país, isso não é suficiente. As lutas pela frente só vão se intensificar e, portanto, é mais vital do que nunca que os setores já organizados e os desorganizados da classe trabalhadora lutem juntos.

O maior risco que paira sobre a cabeça do movimento agora é que a vanguarda mobilizada, que lidera esses protestos, seja dividida do movimento de massas. Esse é certamente o resultado que o Partido Democrata gostaria de ver e já está buscando ativamente. Ao distinguir entre bons e maus manifestantes, ou entre "ativistas reais" e os chamados "agitadores externos", o Partido Democrata e um conjunto de enganadoras lideranças negras estão tentando dividir o movimento e direcionar a energia de volta para políticas eleitorais e campanhas legislativas. Para esse fim, o movimento deve rejeitar explicitamente a política do Partido Democrata e exigir que os políticos responsáveis ​​pela morte de George Floyd e pelo abuso de manifestantes, como o prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, e o governador de Minnesota, Tim Walz, renunciem imediatamente.

É importante, neste momento, que o movimento continue a denunciar e se distanciar dos dois partidos capitalistas, em particular o Partido Democrata, que pretende representar a comunidade negra. A esquerda precisa lutar também pelo surgimento de uma nova organização socialista nos Estados Unidos.

É bem possível que um setor da vanguarda dos trabalhadores essenciais e o movimento contra a brutalidade policial continuem a se radicalizar em busca de novas alternativas políticas. É por isso que os socialistas, além de serem parte do movimento e dos protestos, devem também agitar por uma ruptura definitiva com o Partido Democrata e a criação de um partido socialista independente dos partidos capitalistas. Somente essa organização pode transformar essa experiência de luta de classes em uma ferramenta para lutar as batalhas que estão por vir. Não podemos permitir que a energia que foi despejada nas ruas seja diluída pelo óleo de cobra do mal menor. Precisamos de uma organização política própria. A hora é agora.

Artigo originalmente publicado no Left Voice, seção norte-americana da rede La Izquierda Diario.
Tradução para o Esquerda Diário: Caio Reis




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