PLENÁRIA DO QUILOMBO VERMELHO

"Não temos nada a perder a não ser nossas correntes", veja a fala de Julia Wallace na plenária do Quilombo Vermelho

Compartilhamos a seguir a transcrição da fala da companheira do Left Voice Julia Wallace diretamente dos EUA, realizada durante a plenária do Quilombo Vermelho por justiça para George Floyd e João Pedro.

quarta-feira 3 de junho| Edição do dia

Transcrição da fala de Julia Wallace na Plenária do Quilombo Vermelho do dia 31/05/2020, domingo, que teve a participação de mais de quinhentas pessoas. Julia Wallace é negra, norte-americana e militante do Left Voice, está neste levante contra o racismo nos Estados Unidos após o assassinato de George Floyd. Entre os participantes estavam estudantes e trabalhadores de diversos setores : metroviárixs, aeroviárixs, motoristas de aplicativo, enfermeirxs, pesquisadores.

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[Transcrição por: Cássio da Silví]

"Sentimos os esforços de luta contra o racismo, o capitalismo e o imperialismo. Sentimos raiva contra o sistema pela morte de George Floiyd. Pessoas estão se levantando contra o capitalismo, o racismo e perguntando-se sobre isto.

O assassinato de George Floyd foi uma provocação da polícia e as pessoas se levantaram na rua com muita combatividade. Não podemos esquecer: o policial sufocou George por oito minutos, com uma multidão assistindo. O assassinato foi filmado por um garoto de 17 anos. Depois da morte aconteceram protestos em Londres, Berlim, África do Sul e em outras cidades do mundo inteiro.

Este levante é mais unificado porque é contra a ordem econômica mundial, já que a pandemia e a crise estão conectadas e quem morre mais são os pretos e os pobres. Quantos de nós estão no trabalho precário? Quantos de nós estão na linha de frente, na saúde, na assistência social, como motorista de aplicativo, nas bicicletas de delivery? E nós sabemos que os capitalistas perseguem os trabalhadores organizados.

Nesta pandemia quem tem acesso rápido aos exames? Veja no caso do Brasil: Bolsonaro é o pior que Trump. Porque nesta crise sanitária ele simplesmente não se preocupa com o povo. Está disposto a arriscar a vida das pessoas para fazer o lucro dos ricos. Disposto a avanças contra os povos.

Sabemos todos que amanhã a conta do aluguel continuará chegando e quem não pagar será expulso. Muitos não tem como pagar água, luz, remédios. As pessoas que voltam aos trabalhos, ou que não pararam de trabalhar na pandemia, são na maioria pessoas pretas e pobres. As que estão nos denominados trabalhos essenciais.

Neste contexto os brancos de direita vão às ruas para protestas sem problemas. Por que? Porque a polícia concorda com os manifestantes de direita, tem muito policial da Ku Klux Klan. Neste cenário milhões de pessoas nos EUA estão desempregadas. Quantos desempregados desde que a pandemia começou? E quantos de fato conseguem acessar os benefícios sociais? Pretos e pobres não tem conseguido acessar os benefícios com a mesma facilidade do que os brancos. Para quem é a tal ajuda do Estado, afinal?

Então o ódio surgiu contra este ataque generalizado. Até os pequenos negócios foram atingidos na administração Trump. Até os pequenos comerciantes foram atingidos com Bolsonaro. As pessoas estão com raiva.

A mídia burguesa tem condenado a resposta do povo mas não condena as violências que os capitalistas lançam contra nós. A mídia burguesa nunca condenou os saques que os capitalistas fizeram em países africanos, sul-americanos, caribenhos, asiáticos…

É trágico.

É por isto que nós falamos do ponto de vista da classe trabalhadora contra este sistema. Trump está contra todos os protestos: Se houver saque haverá tiro”, ele diz. Trata-se de uma ameaça explícita para matar manifestantes. Sabemos que quando os manifestantes foram até a Casa Branca Trump correu para se esconder. Ele deve ter falado enquanto corriar “Façam a América ser grande de novo!” e se enfiou no bunker. Quer permanecer vivo e estimular sua base de direita.

Há uma luta multi-étnica contra o racismo e esta é uma luta poderosa. Acho que os capitalistas estão com medo da fúria negra pois os democratas, por exemplo, nos EUA, estão sem crédito. O movimento Black Lives Matter cresceu no governo Obama que executou a política do imperialismo. Hoje Obama diz que as mulheres devem ocupar todas as presidências do mundo. Mea Culpa ou exagero para o erros de sua administração? Muitas perguntas do Black Lives Matter voltaram agora. Nós não queremos pequenas mudanças.

O que está sendo questionado é todo o racismo estrutural. Como combater de maneira eficaz as ideias da supremacia branca? Como combater o imperialismo?

Devemos manter o ódio e canalizá-lo para continuação da organização da nossa classe trabalhadora. Muitos trabalhadores da linha de frente estão organizando e fazendo barreiras e enfrentando a pandemia.

Todo o sistema capitalista quer nosso retorno para as empresas, então precisamos de organização para canalizar esta rebelião. Precisamos desafiar e destruir o sistema capitalista com a nossa organização e nossa independência. No caso dos Estados Unidos não se trata de uma afiliação ao partido democrata.

Quantos que se dizem democratas brasileiros defendem os capitalistas? Quando a polícia atira contra os pretos quantos democratas ajudam a instituição militar com o seu silêncio? Queremos a parceria destas pessoas? Se estivéssemos nos EUA o partido democrata seria a solução? Não.

Precisamos de independência para a união e organização dos asiáticxs, das LGBT´s, das mulheres, dos mulçumanxs, dos afrobrasileirxs, dos afro-americanxs, dos povos originárixs, das nações indígenas para lutar contra o sistema capitalista até destruí-lo. E nós temos esta capacidade de conectar as lutas internacionalmente. João Pedro inspirou o levante nos Estados Unidos porque a polícia no Brasil tem assassinado negros no Brasil com impunidade. Nossa única opção no Brasil é lutar como nos EUA. Sabemos que existem coisas que resolvemos na argumentação e na discussão, mas agora a resposta será dada na medida correta. Mataram João Pedro e Georg Floyd. Mataram Marielle e Aghata. Mataram Flávio Santana. E mais quantos de nós terá que tombar pelas mão da polícia? Basta de morrer de bala. Basta de morrer de covid, basta de morrer pelo lucro dos capitalistas. Já basta!

Nós estamos sob o jugo de Trump, sob o jugo do grande capital. Acham que é impossível a união da classe trabalhadora. Mas nós, pretos, temos os mesmos adversários: a polícia, o imperialismo, o capitalismo e a violência. A violência da homofobia. A violência do machismo. A violência do patriarcado. A violência do racismo.

Só nós podemos resolver. Então para continuarmos lutando juntos é necessário que haja solidariedade. Vamos defender uns aos outros pois a luta pelo socialismo continua. Lembremos das palavras de Assatta Shakur e Marx: não temos nada a perder a não ser nossas correntes."




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