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IMPEACHMENT TRUMP

Não precisamos de um impeachment para Trump. Temos o poder de expulsá-lo

Os democratas abriram uma investigação de impeachment contra Trump. Mas, como mostraram os recentes protestos em Porto Rico, não precisamos de um impeachment para se livrar de um político corrupto. Não devemos cair nas distrações dos Democratas.

sábado 28 de setembro| Edição do dia

As redes sociais e mídias entraram em erupção ontem, depois que Nancy Pelosi [democrata presidente da Câmara dos Estados Unidos] anunciou que estava abrindo uma "investigação de impeachment" contra Donald Trump. Sim, Trump é um criminoso e abusador que não tem nenhum negócio na vida pública em qualquer lugar. Mas é importante analisar por que exatamente Pelosi e o resto do establishment Democrata escolheram assumir a causa neste momento.

Até agora, Pelosi tem sido notavelmente resistente à idéia de impeachment - mesmo quando Trump usou sua posição para enriquecer ilegalmente a si mesmo e sua família, lotou campos de concentração e lançou ataques racistas a Ilhan Omar [somali-americana parlamentar pelos Democratas]. Já antes de ser eleito, inúmeras mulheres o acusaram de agressão sexual. No entanto, o establishment Democrata - então encarnado por Barack Obama - sentou-se com ele, apertou sua mão e lhe desejou boa sorte.

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O que, então, depois de todo esse tempo, levou Pelosi et al a finalmente decidirem agir? Pelosi deu uma resposta clara: ela foi motivada pelos ataques de Trump a Joe Biden por meio do governo ucraniano. Muitos estão muito entusiasmados com esse desenvolvimento - a hashtag "impeach the MF" destacava no twitter, por exemplo. Infelizmente, essa "investigação de impeachment" é, na melhor das hipóteses, uma rebelião do establishment contra Trump por atacar um deles. Na pior das hipóteses, é um teatro político projetado para saciar o apetite raivoso do público americano.

Por que agora?

O Partido Democrata está passando por uma crise com sua ala esquerda - representada por Bernie Sanders, Alexandria Occasio-Cortez e seus aliados – que vêm cravando um espaço no cenário político. A ala do establishment está cada vez mais atrás e escolheu Joe Biden [vice nos governos Obama] para 2020. Mesmo quando Biden tropeça nos debates e cai nas pesquisas, a maior parte do establishment ainda está alinhada atrás dele. Não é por acaso, portanto, que essa escalada contra Trump esteja ligada aos ataques a Biden. Eles estão tentando pintar Biden como a verdadeira ameaça a Trump - um rival que assusta tanto Trump que ele precisa ir a governos estrangeiros e pedir ajuda. Essa narrativa se encaixa em toda a mensagem de Biden: ele pode não ser tão empolgante quanto outros candidatos, mas pode vencer Trump. É por isso que agora, aparentemente de repente, Nancy Pelosi e seus aliados estão em pé de guerra com o comportamento de Trump.

Pelosi, em particular, tem sido criticada por resistir ao impeachment, com muitas críticas vindas de seu próprio partido. Occasio-Cortez, por exemplo, disse que "o maior escândalo nacional não é o comportamento criminoso do presidente - é a recusa do Partido Democrata em impugná-lo por isso".

Esse novo desenvolvimento permite que o establishment se alinhe à ala esquerda e apresente uma imagem mais unificada do partido - enquanto ainda sustenta seu candidato preferido. A guerra dentro do partido pode ser interrompida em preparação para o suposto vindouro ataque a Trump.

O anúncio de Pelosi não tinha qualquer prazo para a investigação. Isso permitirá aos Democratas ganhar com o escândalo pelo maior tempo possível. Há pouco tempo, eles alegaram que o relatório Mueller [sobre a interferência russa na eleição de 2016] seria publicado a qualquer dia e terminaria a presidência de Trump. Durante essencialmente todo esse período, os democratas estavam rufando o tambor de uma responsabilidade e prometendo ações assim que o relatório fosse publicado.

Quando chegou a hora de agir, no entanto, os democratas não fizeram nada. Eles não fecharam os campos de concentração de imigrantes, não interromperam o financiamento da “segurança” fronteiriça ou da máquina de guerra imperialista e sequer se solidarizaram com Ilhan Omar contra ataques racistas. Agora eles se deram outra extensão: outra desculpa para fazer muito barulho, dar muitas entrevistas e, por fim, não fazer nada demais para se opor à agenda de Trump.

O impeachment é antidemocrático

O próprio impeachment é profundamente antidemocrático. É um método para um conjunto de políticos removerem outro sem o voto do povo. O impeachment de Trump seria apenas mais um procedimento antidemocrático em um sistema profundamente antidemocrático. Trump venceu a eleição devido ao colégio eleitoral, que foi projetado especificamente para limitar o poder do público votante. O sistema dos EUA é inerentemente e profundamente antidemocrático. Internacionalmente, o impeachment tem sido frequentemente usado como uma ferramenta para os partidos de direita derrubarem presidentes de esquerda democraticamente eleitos. O exemplo mais claro disso foi em 2016, quando a presidente Dilma Rousseff, do Brasil, foi impugnada em um golpe institucional.

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O impeachment funciona como um dos últimos suspiros de vida para manter a legitimidade do estado. Impugnar um líder corrupto implica que é o próprio líder o problema - não o sistema que os colocou lá e lhe deu os recursos para cometer seus crimes. O impeachment deixa o sistema legitimado tratando um indivíduo como bode expiatório. Donald Trump é um abusador, um racista e um mentiroso, mas não saiu do vácuo. Impugná-lo - se isso acontecer - resultaria simplesmente em outro representante mais palatável do poder do Trumpismo. Nesse caso, isso significa Mike Pence - um homem que, de certa forma, é mais reacionário que Trump.

Alguns podem argumentar que o impeachment é uma parte necessária dos freios e contrapesos necessários para o sistema se manter sob controle. Como o governo Trump ilustrou, os freios e contrapesos na democracia burguesa se baseiam em todos no governo concordando em seguir as "regras". Mas essas normas são vazias e inofensivas. Todo o estado capitalista é projetado para fortalecer o capital e tirar o poder dos trabalhadores - não há freios e contrapesos no capital.

O impeachment oferece uma saída quando o estado está em crise e outros políticos têm medo do povo em ascensão. Não foi o impeachment que expulsou Rosselló de seu governo de Porto Rico, no início deste ano - foram as pessoas que saíram às ruas. É assim que a mudança é alcançada. O impeachment está sendo pressionado agora porque o establishment está preocupado com a possibilidade de Trump ser removido por outros meios.

O Partido Democrata quer que acreditemos que vão arrumar o curso do país. Suas investigações de impeachment e estratégias eleitorais supostamente resolverão os problemas que Trump exacerbou. É uma estratégia cínica e nada surpreendente de um partido que tenta parecer a voz da resistência enquanto tenta desesperadamente sustentar o sistema em ruínas. Eles não oferecem uma solução - eles oferecem uma distração.

Em 2001, durante uma crise política na Argentina, o povo saiu às ruas gritando "que se vayan todos", que significa "todos devem ir". Em um mês, os protestos expulsaram seis presidentes diferentes do cargo. Nenhum desses presidentes foi impedido, assim como o governador de Porto Rico nunca foi impedido. A pressão do povo os expulsou. Não precisamos impugnar Trump. Temos o poder de expulsá-lo. Não queremos que ele seja impedido- queremos que ele caia, junto com todos aqueles que são cúmplices.




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