Sociedade

TRAGÉDIA EM MINAS GERAIS

Não podemos pagar pela burrice dos patrões e pela ganância das empresas , diz ex-mineira da região de Mariana

O Esquerda Diário entrevistou Darlene Silva, moradora de Ouro Preto que trabalhou nas minas da região. Sem notícias de dois amigos e dos respectivos familiares, moradores de Bento Rodrigues, distrito destruído pelo rompimento de duas barragens da mineradora Samarco, ela é uma das trabalhadoras que prestam solidariedade aos atingidos e desabrigados em Mariana.

sábado 7 de novembro de 2015| Edição do dia

(Foto: Douglas Magno / AFP)

ED: Qual foi a última vez que você esteve em Mariana?

Estive lá ontem pela manhã. Toda hora chegam pessoas para ajudar e ônibus de pessoas que estavam ilhadas. A barragem do Fundão fica na parte mais alta e a a água com dejetos foi descendo e destruindo tudo. Muito próximo dela está a escola onde estava tendo aula com dezenas de crianças. As crianças e a professora passaram a noite no morro nessa parte perigosa de desabar mais alta. Muitas outras cidades estão sendo afetadas como Paracatu, Santa Rita Durão...

ED: Como está a população?

Toda hora chega família procurando e querendo saber sobre seus parentes. É uma situação muito triste e de muita angústia do parente que não chega, além do desespero da perda dos bens materiais. A população está desesperada. A área foi isolada, então também tem muita pouca informação sobre onde estão sendo levados, se para hospitais da região ou em Belo Horizonte. É uma sensação de estar perdido no tempo, tanto por causa das perdas quanto por causa da falta de notícias.

ED: Qual a situação dos desabrigados?

Está aparecendo nos jornais que os moradores estão sendo levados para hotéis da região. O problema é que os hotéis em Mariana são pequenos, menores que os de Ouro Preto. Então está muito longe de atender a população de 600 pessoas de Bento Rodrigues. Assim o ginásio segue recebendo pessoas e faz muito frio. A estrutura pra ajudar as pessoas é muito insuficiente.

ED: Os riscos eram conhecidos?

Foram duas barragens que romperam, Fundão e Santarém. Principalmente a do Fundão já vinha dando defeitos. Isso de alagar não é da noite para o dia, não é um acaso. A Samarco quer apenas contabilizar. É uma empresa: não se importa com a vida dos trabalhadores ou da população.

ED: Houve paralisação do trabalho nas minas da região hoje?

Muitas empresas não funcionaram hoje por causa do difícil acesso. Muitos ônibus iam mas tinham que voltar. Mas teve empresa como a Vale e a própria Samarco que estavam tentando fazer alguns funcionários trabalharem, principalmente na manutenção. O sindicato estava em algumas portarias para não deixar isso acontecer já que envolve mais riscos aos trabalhadores.

ED: E sobre a quantidade de mortos? Chagam a falar de 15 mortos mas os números não são confirmados.

Sim, o sindicato soltou nota dizendo ser ao menos 15 mortos. Mas os governantes e a empresa não informam nada certo disso. Eles não estão mostrando a completa realidade da quantidade de pessoas mortas e desaparecidas. Por parte da empresa vão tentar esconder a realidade o máximo possível.

ED: Grande parte dos trabalhadores desaparecidos são da empresa terceirizada Integral. Como a terceirização afeta a vida da população?

Eram trabalhadores da empresa terceirizada Integral que trabalhavam no momento. A Samarco deve dar uma resposta superficial para a população só para tapar o sol com a peneira e vai jogar nas costas da empresa terceirizada os danos. O problema é que com isso quem perde mais uma vez são os trabalhadores e a população. Pois pode virar uma briga: para a Samarco e a Vale não terem seus bens comprometidos podem jogar a culpa na Integral. E a Integral para não ter perdas ainda maiores pode jogar os custos nos trabalhadores e demitir. Não podemos pagar pela burrice dos patrões e pela ganância das empresas.




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