GOLPISMO

"Não estica a corda", general Ramos impõe condição para Forças Armadas não ameaçarem golpe

O general Luiz Eduardo Ramos, chefe da Secretaria de Governo, em entrevista à Veja, mesmo tentando afastar a hipótese de golpe pelas Forças Armadas, na verdade revelou a chantagem golpista dos militares aos demais Poderes.

domingo 14 de junho| Edição do dia

O general Ramos, chefe da Secretaria de Governo, um dos ministros militares palacianos do governo Bolsonaro, concedeu entrevista à Veja em que não conseguiu ocultar as tensões com o STF e a preocupação com as mobilizações.

Perguntado sobre a possibilidade de um golpe militar, o ministro até tentou afastar tal hipótese das Forças Armadas: "Para eles [cadetes], é ultrajante e ofensivo dizer que as Forças Armadas, em particular o Exército, vão dar golpe, que as Forças Armadas vão quebrar o regime democrático. O próprio presidente nunca pregou o golpe. Agora o outro lado tem de entender também o seguinte: não estica a corda".

No vago condicionante "não estica a corda" pode caber muita coisa. Mas durante a entrevista o ministro avança no que seria esse passar do ponto. O ministro critica as comparações entre Bolsonaro e Hitler - comparação que foi feita em mensagens vazadas do celular do ministro do Supremo Celso de Mello em que ele assemelha o golpismo de Bolsonaro ao processo de fechamento do regime conduzido por Hitler -, assim como a possibilidade de afastamento do presidente por um julgamento casuístico.

O destinatário dos recados são claros, o Judiciário. "Esticar a corda" para o general bolsonarista, que inclusive participou de atos pró-bolsonaro e golpistas em Brasília, seria o Judiciário avançar no afastamento de Bolsonaro. A ameaça tem um contexto definido os processos em julgamento pela cassação da chapa Bolsonaro-Mourão no TSE. Judiciário e militares seguem em sua disputa autoritária e o último capítulo foi a decisão do STF de combinar as informações do inquérito da fake news com o processo da cassação da chapa, o que aumenta os riscos para Bolsonaro.

Quando me perguntam o que achei da decisão do ministro Celso de Mello, que me mandou depor debaixo de vara, digo que a respeito, porque decisão judicial não se discute, se cumpre. Mas me incomodou, porque acho que foi desnecessário. Não precisava.

Como já viemos acompanhando, mais uma vez diante de um avanço do judiciário, os militares do entorno presidencial elevam o tom, até golpista, em defesa do presidente, respondendo o autoritarismo do judiciário com a ameaça dos seus próprios métodos de força.

Da entrevista, vale destacar também, como em contraposição às tensões com o Judiciário, em relação ao Congresso Ramo comemora as boas relações. Ramos é diretamente o responsável pelas negociações clientelistas com o Centrão, a venda de cargos em troca do apoio, relações que ele chamou de "justas, republicanas e transparentes". As negociações conduzidas por Ramos, com a nomeação por exemplo do genro de Silvio Santos para o revitalizado Ministério de Comunicações, mostram como Bolsoanro conseguiu aparentemente apaziguar o Congresso e afastar a possibilidade o impeachment por essa via.

O Rodrigo Maia (presidente da Câmara) já disse que não tem nenhuma ideia de pôr para votar os pedidos de impeachment contra Bolsonaro. Se o Congresso, que historicamente já fez dois impeachments, da Dilma e do Collor, não cogita essa possibilidade, é o TSE que vai julgar a chapa irregular? Não é uma hipótese plausível.

Os atos antirracistas e antifascistas, também comentados com preocupação por Ramos, serviram para ofuscar um pouco das tensões entre STF e militares Mas os recentes episódios mostram como de cada lado segue a escalada autoritária na tentativa de cada Poder se sobrepor ao rival. Nenhum desses autoritarismos podem servir aos trabalhadores. O judiciário avança sob Bolsonaro buscando discipliná-lo, empregando métodos que podem se voltar contra os trabalhadores. Os militares em resposta flertam com o golpe, ameaçando uma cartada sempre presente em suas mãos. Contra todos os autoritarismos precisamos fortalecer uma saída da classe trabalhadora. O ódio contra o governo racista e genocida de Bolsonaro expresso nas ruas não pode ser canalizado pelo judiciário ou por Maia. O povo precisa decidir, por isso defendemos uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana que sirva de alternativa independente dos trabalhadores não apenas para a crise política atual mas para toda a degradação do regime.




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