EDITORIAL

Não às demissões, à privatização e à entrega da Petrobrás

Em seu décimo dia a forte greve nacional petroleira oferece um desafio às demissões e à privatização da Petrobras. Trabalhar incansável e criativamente por sua vitória é uma obrigação de uma esquerda que queira se enfrentar com o “consenso” burguês de atacar a classe trabalhadora e aumentar a entrega das riquezas nacionais ao imperialismo.

Leandro Lanfredi, petroleiro

São Paulo | @leandrolanfrdi

Bruno Gilga

Diretor de Base do Sindicato da USP.

segunda-feira 10 de fevereiro| Edição do dia

A greve petroleira entrou hoje (10/02) no seu décimo dia. São praticamente 100 unidades paralisadas. Trata-se da mais importante greve nacional desde o início do governo Bolsonaro. Só isso já a tornaria muito importante, mas ela tem outros importantes significados. Ela desafia o poder patronal de demitir os trabalhadores a seu bel-prazer. A repercussão de uma vitória contra as demissões e que avançasse à unidade de efetivos e terceirizados poderia produzir poderosas ondas de reverberação na classe trabalhadora de todo país.

Mas a greve também oferece, em potencial, um desafio à privatização da Petrobras e à toda entrega de recursos nacionais ao imperialismo. Sua vitória pode ser um ponto de apoio para todos jovens e trabalhadores no país em defesa de seus empregos e direitos, bem como marcar um começo de inflexão da luta anti-imperialista no país.

A manutenção dos empregos na FAFEN complicaria todos planos privatistas de Bolsonaro e Guedes. Não à toa mostram-se absolutamente intransigentes diante da greve. Não à toa o judiciário, através do reacionário ministro Ives Gandra do TST a ataca tão violentamente, e não à toa a mídia, da Globo e Folha ao SBT e a Record, todos escondem a greve.

A greve petroleira desafia um acordo de diferentes alas da burguesia no país.

Quando discute-se machismo, educação, racismo, desmatamento há intermináveis divergências entre Globo, Folha e Bolsonaro. Porém quando se trata de reforma da previdência, direitos trabalhistas ou rifar o petróleo nacional aí há pleno acordo. Não à toa nenhuma grande mídia burguesa cobre essa forte greve, que nós do Esquerda Diário fazemos de tudo não somente para que rompa esse apagão midiático, dando voz a grevistas, cobrindo cada ato de rua, cada ação simbólica de venda de gás de cozinha barato, como também oferecemos aos petroleiros propostas para fortalecer sua greve. Esse “consenso” que parece existir entre os de cima não existe nas pesquisas de opinião. Nestas, como na Datafolha, a ampla maioria dos brasileiros se declaram opostos a privatização da Petrobras.

Porém, sistemática e diariamente esses valiosos recursos, tecnologias e conhecimentos desenvolvidos previamente são surrupiados do país para beneficio de Shell, Chevron, Total, CNOOC etc. E este “consenso”, virado de costas à opinião e interesses da maioria da população, tem como ponta de lança a Lava Jato que fez de tudo para enfraquecer e atacar a empresa, mirando esquemas e blindando outros, e atuando sobretudo para quebrar desafios tecnológicos que a estatal rumava a oferecer, como denunciamos anos atrás. Isso não surpreende pois Moro e procuradores são citados em documentos do governo americano como favoráveis a interesses estratégicos seus.

Mas esse entreguismo não é só de Moro, ele também tem agentes nos adversários de Moro no STF que autorizaram a Petrobras e Bolsonaro a venderem tudo o que quiserem menos o nome Petrobras, e sem sequer precisar de aprovação do Congresso ou sequer de licitação pública. A Globo, o PMDB, e o PSDB, não é nenhum segredo, também atuam para rifar as riquezas nacionais.

Mas apesar dos discursos, apesar da greve de sindicatos ligados à FUP, dirigida pela CUT e portanto pelo PT, este também não está por fora da entrega das nossas riquezas para o imperialismo e de aceitar planos de ataques aos trabalhadores, seja diretamente quando governa, seja como burocracia sindical que não move as forças que dirige para resistir. O governo Dilma realizou uma parte da maior abertura do petróleo nacional ao imperialismo e o golpe institucional buscou escancarar isso. Poucos meses atrás vimos os governadores do nordeste, do PT, PCdoB, PSB e PMDB apoiando a reforma da previdência de Bolsonaro em troca de recursos do leilão (!) do pré-sal. O PT faz discurso de soberania nacional, defesa da Petrobras e contra a reforma da previdência no parlamento mas oculta este seu papel direto como aplicador de ataques.

O imperialismo avança sobre as riquezas nacionais. E Bolsonaro, como lambe-botas de Trump quer fazer isso com estupenda e estúpida velocidade. Bolsonaro colocou à venda 8 refinarias, dezenas de terminais e oleodutos de petróleo e derivados. Plataformas e campos de petróleo estão sendo entregues dia a dia, com a Petrobras vendendo-as no varejo. Em 2013, segundo os anuários estatísticos da Agência Nacional de Petróleo, 93% da produção nacional era da Petrobras, em 2015, último ano do governo Dilma já era 83,51%, em 2018 ao término do governo golpista de Temer, esse número já tinha caído para 77,8%. Um ano de Bolsonaro e seu entreguismo lambe-botas de Trump e no último dado da ANP já quantificava a proporção da empresa estatal abaixo de ¾, em 74,95%.

A proporção da participação estrangeira na produção de petróleo salta em ritmo impressionante fruto da venda de plataformas já produzindo pela Petrobras e pelos múltiplos leilões de novas áreas do pós e do pré-sal que tem ocorrido. FHC fez 4 leilões, Lula e Dilma 9, Desde a concretização do golpe institucional com o impeachment já foram 9 em somente 3 anos.

Esse contexto privatista e entreguista é sentido diariamente por cada brasileiro. Os preços dos combustíveis, vinculados à cotação internacional do petróleo e ao dólar, são abusivos justamente para garantir o maior lucro possível para Shell e empresas similares em suas importações e quando comprarem as refinarias que Bolsonaro quer vender.

A vitória da greve seria um freio não somente às demissões, seria não somente um ponto de apoio aos trabalhadores de todo o país para lutar por seus direitos. A vitória seria também um ponto de apoio para impedir a venda de 8 refinarias e dezenas de terminais e oleodutos, mas também poderia significar um pontapé para a luta para que todos os recursos do petróleo sejam da Petrobras, que a Petrobras seja 100% estatal e administrada democraticamente por seus trabalhadores com controle popular, única maneira de garantir combustíveis baratos, segurança ambiental e operacional e que estes vastos recursos naturais e nacionais sirvam para os interesses do povo brasileiro.

Por tantos motivos da importância dessa greve o Esquerda Diário e o MRT dedica sua energia para tentar contribuir na sua vitória. Para a vitória dessa greve é crucial que seja rompido seu isolamento, primeiro midiático, mas também perante o conjunto da classe trabalhadora. Frente ao consenso burguês de aplicação das reforma, demissões e privatização da Petrobrás, a dedicação de todas as forças e energias para apoiar essa greve se torna um questão vital. A cada dia que a CUT não coloca toda a força de seus sindicatos, de metalúrgicos, bancários, professores, e tantas outras categorias, e o PT com seus parlamentares em uma campanha nacional para apoiar essa greve, termina por isolar a greve dos petroleiros, facilitando sua derrota e portanto a aplicação dos planos de privatização. É preciso, portanto, exigir às centrais sindicais, em primeiro lugar às maiores, CUT e CTB, dirigidas por PT e PCdoB respectivamente, e das quais fazem parte os sindicatos de várias categorias que estão sob ataque, e que estão sendo divididas pela decisão dessas centrais de convocar mobilizações separadas, em datas distantes que adiantem as agendas para confluir com a luta petroleira, contribuindo para a possibilidade de vitória dos petroleiros e de cada categoria. Os parlamentares do PSOL com sua grande exposição midiática deveriam ser linha de frente em cercar de apoio a greve e assim contribuir a que a CUT e demais centrais sindicais façam mais que declarações de apoio aos petroleiros em seu facebook. Os petroleiros podem e precisam vencer. Precisamos dizer que “somos todos petroleiros” porque quero dizer em alto e bom som: Não às demissões, à privatização e à entrega da Petrobrás.




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