Cultura

SURREALISMO

Nadja: a prosa libertária de André Breton

Afonso Machado

Campinas

sexta-feira 14 de dezembro de 2018| Edição do dia

Em 1928 foi lançado em Paris um livro perturbador. De cada página desprendiam-se imagens secretas, analogias proibidas, cujos segredos são conhecidos pelos poetas que se sentem em casa no centro do abismo. O livro Nadja do escritor André Breton pegou de surpresa uma sociedade que separa literatura e vida, sonho e política, amor e loucura. O autor que se aventurou na proa do navio surrealista lidera a expedição por uma outra cidade: depois da beber da taça do poeta Lautréamont, Breton aprendeu a se perder pelos becos, pelas fachadas dos prédios, pelos anúncios, pelos cafés, pelos monumentos, pelas vielas. A cidade moderna é pensada e sentida como floresta a ser desvendada por aqueles que sabem olhar para além das aparências.

Se Marx ensinou a desconstruir as aparências da realidade ao narrar as entranhas do capital, tá na cara que a obra Nadja é mais do que útil para a dialética materialista. Breton contribui com a crítica revolucionária de Marx ao fazer um desvio que desagua em Hegel: frisando “ o lugar geométrico das coincidências “, a escrita surrealista investiga através da intuição poética as relações entre acaso e necessidade. Deste modo Breton conta uma história cujo enredo não nasce da palidez da vigília mas do subterrâneo do desejo. A narrativa da obra explora coincidências, analogias e encontros. O autor deseja obter a chave das situações reveladoras da plenitude do desejo e da liberdade.

Para destrancar o verbo que se abre para uma cidade secreta, logo em conflito com as normas/regras do espaço capitalista, Breton teve que se rebelar contra as formas de controle do pensamento. Em suas perambulações encontrou uma mulher que não acreditava em “ passo perdido “. Ela era Nadja, um espírito livre e frágil, que não temia sentar-se à mesa da loucura. Nadja segura Breton pelas mãos e num passeio permanente pelas ruas e por paisagens insanas, tenta conduzi-lo à resposta de uma pergunta que nunca deixou de se fazer presente na história da filosofia: “ QUEM SOU? “. É esta indagação que abre o livro e cujas respostas Breton e seus amigos surrealistas sabiam que passavam pelo portal aberto por Freud. A obra nos mostra que só podemos saber quem somos a partir da recusa da noção de identidade imposta pela educação burguesa. Os surrealistas defendiam que o caminho para a liberdade passa pela destruição das bases econômicas e políticas da sociedade capitalista, que aliena e portanto adestra a percepção dos homens explorados. Todavia a busca da liberdade para o Surrealismo também consiste necessariamente numa perseguição de nós mesmos nos outros e nas coisas, sendo que a casualidade externa ilumina como um relâmpago a necessidade interna: ali na próxima esquina poderemos encontrar algo ou alguém que nos transforma profundamente. Para os surrealistas é esta bussola invisível que leva ao amor.

Nadja é uma figura enigmática... Como observou Eliane Robert Moraes, a musa surrealista interpela Breton como uma esfinge cosmopolita. Intitulando-se como “ alma errante “, Nadja acabou por mergulhar com tamanha intensidade em seus delírios, que não conseguiu voltar à superfície. Existe uma dimensão trágica no relacionamento entre Breton e Nadja( que embora não consistisse em amor físico foi marcado por fatos enigmáticos, acontecimentos mágicos). Não sabendo como lidar com a loucura da sua companheira errante Breton afastou-se de Nadja, que acabaria sendo internada. Foi o abalo emocional deste complexo período de experiências desregradas que levou o autor a redigir um louco e maravilhoso livro de memórias.

O (anti) romance Nadja é moderno no comprimento e na largura. Palavras e fotos convidam o leitor a caminhar pelas ruas da surrealidade. Como salienta a edição do livro feita pela CosacNaify em 2007, diferentes gêneros perambulam pela prosa de Breton que contempla o diário, a poesia, o ensaio, o telegrama e até o panfleto anticapitalista. Este é um livro para pessoas que deram adeus aos padrões de linguagem e pensamento da classe dominante. É uma obra definidora da poética do surrealismo que não aceita formas fixas de expressão e procura libertar as energias ocultas dos objetos e situações. No final da obra Breton defende um moderno conceito de beleza: “ A beleza será convulsiva , ou não será “.




Tópicos relacionados

Literatura   /    Cultura

Comentários

Comentar