A ERA DO IMPERIALISMO: HISTÓRIA SUCINTA DA ECONOMIA MUNDIAL CONTEMPORÂNEA/ Nota n.7

Na economia mundial: por que o Brasil, sendo um país rico, é tão desigual?

Gilson Dantas

Brasília

terça-feira 9 de janeiro| Edição do dia

Economia mundial: a totalidade e a desigualdade no desenvolvimento

Para muitos observadores a economia mundial aparece como uma justaposição ou uma espécie de soma das economias nacionais. Nesta ótica, o conjunto destas economias locais, tomadas uma a uma, é que formataria a economia internacional.

Na verdade não se trata de soma nem justaposição. A economia internacional é – ela própria - a realidade determinante, orgânica. Ou seja, o determinante, nesse processo, é uma totalidade inter-conectada que se sobrepõe às economias locais. Isto não significa negar a originalidade, a história e o ritmo de desenvolvimento de qualquer das economias locais. Muito menos se pode negar o potencial de determinada nação, isolada, poder impactar, no nosso tempo, a economia global e contagiá-la com sua crise, de origem peculiar.

Nesta totalidade orgânica, os laços entre as partes só irão se romper, transitória e episodicamente, nas condições de guerras mundiais ou em grandes e profundas crises do sistema como a dos anos 1930. Revoluções também chegam, momentaneamente, a romper tais laços, mas a experiência histórica mostrou que na medida em que os processos revolucionários locais não se expandem e não se coordenam em permanente expansão, sua ruptura não tem efeito duradouro, sustentabilidade.

[Este tema foi alvo de um dos grandes debates políticos e econômicos do século XX, cuja solução teórica encontra-se – na nossa perspectiva – concentrada na teoria da revolução permanente de Trotski, que inclui a formulação da impossibilidade da revolução socialista em um só país se esta não se estender por vários países e mundo afora].

No caso das Guerras Mundiais, formaram-se blocos comercialmente hostis e que se lançaram militarmente uns contra os outros para, no dia seguinte, restabelecerem aquela unidade econômica internacional comercial, industrial, agora nos marcos de nova partilha e nova relação de forças políticas; isto é, a unidade apenas se refaz e se recompõe segundo nova correlação de forças.

Em síntese, tais rupturas não podem ser mais que episódicas já que a realidade econômica determinante termina sendo a da economia internacional e não mais a de cada país isoladamente.

A desigualdade no desenvolvimento

É certo, como foi mencionado em outra nota, que o próprio surgimento da economia industrial – do capitalismo industrial, no caso – encontrou e adotou historicamente como ponto de partida, um conjunto de países que já apresentavam ritmos desiguais de desenvolvimento.

Diferentes partes do mundo trazem sua história de desenvolvimento em ritmos diversos uma da outra. É desse ponto de partida, de um mundo desigualmente desenvolvido, que o capitalismo se apropria e, a partir dele, se desenvolve. Ele o fará através de seus próprios métodos e dinamismo que já não serão aqueles do mundo feudal, da economia medieval.

Os países não avançados industrialmente em relação às metrópoles capitalistas, são travados em sua possibilidade de um desenvolvimento independente (ou em sua pretensão de virem a tornar-se grandes potências imperialistas). No entanto, se estabelece uma contradição estratégica. A partir da própria penetração do capital externo, os países atrasados são impulsionados a darem saltos no seu próprio desenvolvimento e modernização.

A questão, ao final de contas, é que seu desenvolvimento será truncado (sem mercado-interno desenvolvido, sem grandes capitais e na condição de países tecnológica e industrialmente dependentes), será irremediavelmente marcado pela combinação dialética entre a reprodução do atraso, da desigualdade, lado a lado com esferas de modernização capitalista.

Como foi dito, essa desigualdade, desequilíbrio e tensão no desenvolvimento é uma característica da economia mundial tomada como um todo, como um processo único e vivo que ela é. E cuja estruturação não pode ser entendida razoavelmente se não for através do estudo dos movimentos contraditórios do capital em seu processo de acumulação. E portanto, não era e nem é uma fatalidade histórica.

O Brasil, por exemplo, enquanto continue sendo um país capitalista, estará submetido a tais relações internacionais ... capitalistas. Portanto, um país desigual, espoliado e sem independência política de fato. Capitaneado que é por uma classe dominante vassala e sócia menor do imperialismo. Aqui não há qualquer fatalidade.

É memorável a explicação de Trotski de que a história de países que chegam tardiamente à industrialização capitalista não pode ser entendida em si mesma – em uma economia mundial agora na condição de totalidade orgânica, imperialista – sem que se leve em conta a combinação ou amálgama que se estabelece entre diferentes fases e formas econômicas e sociais arcaicas e modernas. Ou seja, tem-se um processo de desenvolvimento ao mesmo tempo desigual e combinado.

Nesses marcos, invariavelmente, os grandes tiram vantagens: os mais poderosos oligopólios imperialistas desfrutam e tratam de executar os saques que forem possíveis, e ganham muito com as diferenças em termos de produtividade (que variam de uma economia a outra) e, por essa via, termina sendo formatada a economia mundial, através da mesma dinâmica que transforma a economia internacional em um todo orgânico, em um sistema de vasos comunicantes, de países mutuamente dependentes.

O mesmo processo que engendra surtos e zonas de crescimento e opõe uma região à outra, hipertrofia e acelera o desenvolvimento de um país em relação ao outro, freia ou estimula regiões, ramos industriais, países e povos. Interconecta um sistema de países dominantes e países dominados em dinâmica de instabilidade e de recriação permanente da desigualdade. E da concentração de renda, portanto. E de dominação entre países.

Deslocando-se de uma a outra região, o grande capital busca em um lado reduzir seus custos de reprodução em força de trabalho, em outro procura controlar matérias-primas, consolidar mercados. O resultado desses movimentos é um processo, vale sempre repetir, por si só gerador de tensões em termos de povos e nações, de conflitos inter-Estados. De guerras, de convulsões sociais. E revolucionárias.

Trata-se também de um processo que concentra a tecnologia, os capitais e o mercado consumidor nas metrópoles do capital, estreita e intensifica as relações econômicas entre os países imperialistas, acentuando – sob novas formas – uma desigualdade planetária; entre os países mais ricos e destes com sua periferia.

No caso do Brasil, isso é patente, historicamente, com a classe dominante concentrando renda em grande escala, e predador externo e interno de mãos dadas [basta ver quem se beneficia do garrote da dívida pública].

Não por acaso os ricos ficam mais ricos, já que tal processo se desenvolve, antes como agora, em maior benefício das metrópoles do capitalismo imperialista:

“A luta entre as potências imperialistas rivais pela divisão do mundo, acontece, com certeza, sobre o próprio terreno dos países dominados que o imperialismo trata de sujeitar de acordo com fórmulas mais variadas, mais ou menos violentas livrando conflitos armados conforme o caso. Mas essa luta pela hegemonia se desenvolve, na maior parte dos casos, no próprio interior das metrópoles.

Na economia mundial tomada como um todo, as relações econômicas entre as grandes potências imperialistas constituem, de longe, a parte mais importante das relações econômicas internacionais, seja no que diz respeito ao comércio internacional, seja em relação aos movimentos de capitais. Dois terços do comércio mundial das décadas de 60 e 70 foram garantidos pelos países industriais, e mais de 70 % dessas trocas foram efetuadas entre países capitalistas industrializados. Da mesma forma ocorreram os movimentos dos capitais. Em meados da década de 70, três quartos dos investimentos diretos estrangeiros se deram na forma de investimentos cruzados entre países capitalistas industriais” (GILL, 1983: 23).

Aquelas grandes metrópoles do capital operam sobre sua periferia – sobre países como o Brasil – como bomba de sucção da nossa riqueza e, portanto, trava estrutural à nossa emancipação social. Daí a realidade de sermos um país rico – em seu povo, seus recursos naturais etc – mas que, nos marcos do capitalismo, jamais deixará de ser pobre e desigual.

Já foi ressaltado que além destas e de outras contradições histórico–econômicas da economia mundial, existe uma característica da economia capitalista, absolutamente derivada daquelas condições, que é central para a compreensão dos movimentos e impasses que aqui estão sendo examinados na totalidade econômica internacional. São as grandes crises na economia capitalista.

Será tema do próximo tópico deste capítulo, onde será abordada a tendência do sistema às crises que engendram travas à produção de mercadorias (riquezas) e às taxas de investimentos.

[Continua na Nota n.8, brevemente no ED].
[Crédito de imagem modificada: site Ведомости ]

Referências:
GILL, Louis, 1983. L´economie mondiale et impérialisme. Montreal, Canada: Boreal Express.
TROTSKI, Leon, 2007. História da Revolução Russa. São Paulo: Sundermann.

Juntas, essas notas integram o livro Breve introdução à economia mundial contemporânea: acumulação do capital e suas crises, Brasília, 2012, G Dantas.




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