ECOLOGIA E MARXISMO

Na URSS havia poluição ambiental em grande escala: como fica o marxismo?

A devastação ambiental se desenvolveu na URSS, onde o capitalismo foi expropriado. Culpa do marxismo? Do comunismo? Ou da falta de marxismo e de comunismo?

Gilson Dantas

Brasília

segunda-feira 29 de janeiro| Edição do dia

No campo do debate político sobre a poluição ambiental, quando se menciona o marxismo, não é raro que, cedo ou tarde, surjam, ao menos, duas questões. Primeira: se o marxismo fosse solução por que a URSS devastou tanto o meio ambiente? E a outra vem no sentido de cobrar, diretamente, as posições do marxismo atual a respeito da questão ambiental: se o marxismo fosse a ferramenta teórico-prática para enfrentar essa situação, dizem, por que simplesmente não aparece uma solução a partir do marxismo?

Não é o marxismo estúpido!

Parafraseando um antigo slogan da campanha eleitoral de Clinton dirigido a Bush pai, qualificando-o como estúpido por não enxergar onde estava o problema [1], é possível chamar a atenção para que, de certa forma, também o nosso campo de esquerda não escorregue para o caminho fácil ou a cilada ideológica de achar que a URSS, o seu regime, era a representação do marxismo revolucionário. Ou que seu partido dirigente, stalinista, tivesse qualquer coisa a ver com o legado de Lenin e Trotski.

Por outro lado, como também existe certa esquerda que se proclama marxista mas que defende um capitalismo verde, reformado em uma perspectiva ecológica, também se pode chegar a pensar que essa estratégia tem algo a ver com o marxismo revolucionário ou que seria a alternativa pela esquerda.

Na verdade, o capitalismo tem se mostrado irreformável e hoje mais que nunca, com a derrocada de conquistas históricas na esfera de proteção social, expõe sua face mais destrutiva e perniciosa. E ambientalmente catastrófica.

Boa parte de tudo que tem sido publicado por autores marxistas há décadas, no tema meio ambiente e marxismo, tem demonstrado, incansavelmente e por mérito dos seus autores, que a crise ecológica é fruto da decomposição do capitalismo, da mercantilização da vida e, ao final, torna-se, ela própria, uma trava ao desenvolvimento das forças produtivas da humanidade e, por fim, uma ameaça, radical a todos nós e ao nosso futuro.

O capitalismo promove um estado de barbárie ou bestialidade ambiental e social. Uma espécie de compulsão à loucura ambiental, do tipo jogar poluentes industriais na água que se vai beber ou produzir hortaliças e frutas carregadas de agrotóxicos que geram doenças degenerativas, neurológicas. Rios e lagoas perdem o sentido de sistemas vivos para o capitalismo, tornam-se depósitos de dejetos e lixo industrial.

A verdade essencial é que capital não combina com proteção ambiental. No argumento de Bensaid, “em lugar de enriquecer a humanidade, as carências determinadas pelo capital são unilaterais e compulsivas. São elas que possuem o homem, e não o inverso. Essa liberdade negada remete-o não mais a uma bestialidade original ou natural, mas a uma bestialidade social, que pode muito bem revelar-se mais feroz ainda” (BENSAID, 1999, p. 435).

A conclusão lógica dessas demonstrações é clara: não existe outra teoria sociológica à altura desse diagnóstico e mais ainda tendo sido formulado, em suas linhas fundantes e gerais desde cedo, avant la lettre, quando o capitalismo ainda era jovem “e promissor” como sistema. E ainda estava longe de por o ambiente onde vivemos em perigo.

Foster, em seu A ecologia de Marx, chama a atenção para o Marx que já focava o caráter destrutivo [no campo, por exemplo] de um sistema fundado no lucro, na meta inexorável de valorização do capital acima de qualquer consideração [também ambiental, no caso].

Marx, por sua vez, como já foi destacado por vários autores - especialmente D. Bensaid -, não abraçou a perspectiva do progresso linear no capitalismo [o próprio Engels mencionava a questão da “vingança da natureza” diante do contraditório progresso da técnica e da produção no capitalismo, em seu O papel do trabalho].
A esse respeito a síntese de Bensaid vai na perspectiva de Marx, de que é abusivo pensar em Marx – do tempo da nascente grande indústria - como “pregador descuidado da industrialização a qualquer preço e do progresso em sentido único. Não se teria condições de confundir as questões que ele levantou com as respostas oferecidas ulteriormente pelos epígonos social-democratas ou stalinianos. Neste, como em outros pontos, a contrarrevolução burocrática na URSS marca uma ruptura” (BENSAID, 1999, p.433).

Ou, se pretendemos ir além: “A nascente ecologia soviética conheceu, portanto, a sorte do art nouveau, do desurbanismo, da pedagogia de vanguarda. Depois do Termidor burocrático, já não se trata de mudar a vida, mas de ‘agarrar e superar’ os desempenhos do próprio capitalismo, de acordo com a máxima competitiva do produtivismo industrial e esportivo” (BENSAID, 1999, p. 473).

Por sua vez, se é mérito da esquerda marxista tipo Bellamy Foster, ter demonstrado a imperiosa relação capitalismo-devastação ambiental, é de Trotski o mérito de ter entendido teoricamente a burocracia que usurpou o poder político na URSS em sua condição de casta contrarrevolucionária, sem futuro histórico e, portanto, sua inexorável tendência a desenvolver os piores traços do capitalismo; inclusive a devastação ambiental, agudizada nos anos do pós-II Guerra.

Lendo A revolução traída daquele autor, pode-se entender, como decorrência lógica de uma degeneração política da direção da URSS, os impactos negativos e trágicos que todo aquele processo político teve, também sobre a questão ambiental, um tema que vinha na direção política correta com Lenin.

A ecologia soviética – segundo Foster [2015] – atravessou três períodos. Primeiro, seu período revolucionário, na teoria e nas práticas ambientalistas, desde a revolução de 1917 até pouco antes dos meados dos 1930; em seguida vem o período mais sombrio, com Stalin, até meados dos 1950, dominado por perseguições, assassinatos, rápida industrialização, II Guerra Mundial, começo da Guerra Fria. O terceiro período, dos 1950 até o fim da URSS, em 1991, foi marcado pela emergência de um grupo de estudiosos que retoma a tradição do pensamento ecológico dos tempos de Lenin e elabora textos sobre “ecologia global”; e, ao mesmo tempo, tem-se a emergência de um poderoso movimento ambientalista, na URSS, em resposta à extrema degradação ambiental agudizada nas décadas seguintes à morte de Stalin.

De toda forma, ainda estão por ser explorados os textos de qualidade produzidos naquele último período e que constituem, para Foster, um precioso legado, ignorado pelos ecologistas ocidentais.

Naquela primeira etapa, bolchevique, da Revolução Russa, a abordagem da questão ambiental se desenvolveu de forma muito dinâmica, havia uma política de preocupação com a conservação ambiental e preocupação teórica de parte da direção bolchevique, especialmente Lenin. Ele chegou a ler o livro de Vladimir Sukachev Pântanos: sua formação, desenvolvimento e propriedades. E fala-se que foi influenciado pela concepção de ´ecologia comunitária´ deste autor.
Aquele foi um período – o dos primeiros anos da Revolução Russa – onde o florescimento do pensamento ecológico provavelmente alcançou níveis muito mais elevados que em qualquer outro país do mundo [ver, a respeito, o excelente artigo de Roberto Andres intitulado Apogeo y caída del ecologismo em la naciente Unión Soviética, no link http://www.laizquierdadiario.com/Apogeo-y-caida-del-ecologismo-en-la-naciente-Union-Sovietica ].

Através do comissariado da educação, comandado por Lunacharski, Lenin impulsionou ações ambientalistas. Em 1924 foi criado, com mil membros, a Sociedade de Conservacionismo de Toda a Rússia. E várias estações ecológicas foram criadas, conhecidas como zapovedniki, em regiões com natureza virgem, isoladas para pesquisa científica. Chegou a haver 33 delas, abarcando 2,7 milhões de hectares.

Na etapa seguinte, se desenvolve muita elaboração teórica sobre meio ambiente, com publicação de vários trabalhos sobre o tema. Ao lado de Sukachev, Vladimir Vernadsky publicou o notável A biosfera, em 1926 [Alias, recomendo enfaticamente a sua leitura, como um livro atual para todo aquele que se preocupa seriamente em entender o nosso planeta de conjunto, por fora das concepções semi-místicas do tipo Gaia e afins].

Temos também Alexander I. Oparin, no início dos 1920 [ao mesmo tempo que J S Haldane na Inglaterra], desenvolvendo a principal teoria sobre as origens da vida; e o brilhante geneticista vegetal Nikolai I. Vavilov que descobriu as fontes primárias do germoplasma dos reservatórios genéticos – conhecidos como zonas de Vavilov – vinculados às primeiras áreas humanas de cultivo mundo afora. Bukharin, seguindo Vernadsky, pos ênfase na relação humana com a biosfera e destacou o intercâmbio dialético entre homem e natureza. O zoólogo Vladimir V Stanchinski foi pioneiro do desenvolvimento da análise energética de comunidades ecológicas e defensor ativo das reservas ecológicas. Foi também editor do primeiro jornal especificamente voltado para ecologia na URSS. Já Boris Hessen ganhou fama mundial ao reinterpretar a história e a sociologia da ciência em termos materialistas.

E a concepção de Sukachev de biogeocoenose, adiante desenvolvida para biocoenose, concebida em termos dialético-energéticos era uma teoria mais unificada e dinâmica do que a atual noção de ecossistema. E tem conexão direta com as noções de biosfera e ciclos biogeoquímicos do supracitado Vernadsky.
Em seguida, como informa Foster, “com a morte de Lenine e a subida de Stalin, temas de conservação ambiental e genética foram politizados e burocratizados nos marcos de um Estado policial”.

Stalin executou Bukharin, também Hesse; e Vavilov que se opunha ao burocrata da genética Lysenko, foi encarcerado e morreu de desnutrição na cadeia poucos anos depois. Sukachev e Stanchinski polemizaram com a ditadura burocrática em defesa das reservas naturais e Stanchinski, que entrou em conflito direto com Lysenko sobre o tema, foi encarcerado e torturado em 1934. Veio a morrer na segunda prisão em 1942.

A contrarrevolução stalinista foi até o fim, não apenas em sua colaboração de classe, em sua equivocada e desastrosa política do "socialismo em um só país", levando a URSS à derrocada no final dos 1980, como também travou e degradou o desenvolvimento de um potencial, teórico e prático de enorme envergadura, fertilizado pela Revolução de Outubro.

Em síntese, o caminho ambientalista aberto pela revolução bolchevique não pôde seguir em frente.

No entanto, é perfeitamente possível imaginar que, em uma revolução contemporânea, tomado o poder dos capitalistas, como foi feito ali, em 1917, um governo dos trabalhadores pode – com os conhecimentos ecológicos e tecnológicos atuais – promover uma revolução ambiental, que comece no ponto onde ela foi interrompida pelo stalinismo, só que agora sobre os ombros de Lenin, Vernadsky, Vavilov e seus companheiros, e também contando com o bônus incomensurável de toda a massa de conhecimentos científicos que detemos hoje.

Portanto, a “lição” não é a de que marxismo e meio ambiente não combinam, ou que o ambiente é destruído tanto no capitalismo quanto no ex-bloco chamado socialista ou em “qualquer socialismo”.

A verdadeira lição é que somente a partir do marxismo se pode alcançar a mais profunda compreensão, teórico-dialética, da relação sociedade-natureza.

Quanto ao socialismo, só pode ser uma sociedade construída pelas massas, pela gestão operária, soviética ou então jamais o será; por isso é um equivoco imaginar/esperar que pudesse ter havido política de proteção ambiental por parte da camarilha stalinista e seus seguidores, e mais ainda cair no delírio de confundir bolchevismo com stalinismo ou o pensamento das autoproclamadas burocracias comunistas com o marxismo. Confundir Stalin ou qualquer burocracia política com comunismo vai muito além de uma piada de mau gosto.

Ao contrário, aprender das medidas ambientalmente corretas de Lenin [na linha Vernadsky] e estudar o marxismo clássico, atualizá-lo, como procura fazer B. Foster na questão ambiental, é o que pode abrir avenidas para o neoecologismo de matriz científica, social, que passa necessariamente pela revolução proletária já que o capitalismo – por sua própria natureza - jamais será verde. E é da sua natureza ser anti-ecológico.

Capitalismo é destruição em toda linha, desde as relações humanas à relação orgânica sociedade-natureza.

Novamente é Bensaid quem chama a atenção para esse elemento: de que, no capitalismo, todo passo adiante é uma escolha e, por isso mesmo, escolha que conduz ao abandono de opções, por exemplo, mais humanas.

Jamais se pode perder de vista que as escolhas técnicas e materiais do capitalismo para a sociedade são moldadas pela lógica do capital e não por qualquer racionalidade humana. E isso em qualquer campo do conhecimento aplicado.

Um exemplo médico é o da escolha do tomógrafo [de efeitos tóxicos e cancerígenos] em vez do termógrafo [não-tóxico, não cancerígeno] para exame diagnóstico de imagens na clínica. É uma escolha do capital e não da ciência objetiva ou da medicina, digamos assim, humana. Ou então a cura do câncer, que fica mais distante [cresce constantemente o número de mortes por câncer], mais cara, mais lucrativa para a indústria do câncer, enquanto os bilhões e bilhões de dólares gastos em pesquisa só conduzem a mais do mesmo: uma estratégia de cura onde o tratamento frequentemente é pior do que a doença [http://www.esquerdadiario.com.br/Quimioterapia-contra-o-cancer-Pode-ser-um-erro-estrategico-sugere-estudo-australiano ].

O marxismo, portanto, analisa desde suas origens essa relação contraditória entre avanços da ciência e sua formatação social, humana.

Bensaid, resgata Engels, por exemplo, mostrando que este tinha uma “consciência aguda das ambivalências do progresso quando argumentava que ‘cada progresso na evolução orgânica é ao mesmo tempo um recuo, pois, ao fixar uma evolução unilateral, ele exclui a possibilidade de evolução em muitas outras direções’. O progresso não é, portanto, mensurável em termos de avanços e de recuos, sobre o eixo uniforme do escoamento temporal, mas antes em termos comparativos, possíveis temporariamente abandonados e virtualidades perdidas para sempre. O desenvolvimento nunca é um simples aumento quantitativo. Ele é sempre também uma escolha” (BENSAID, 1999, p. 470). [Grifo nosso]

E no capitalismo a escolha é a que interessa ao capital, não ao ser humano e nem ao planeta.

O pensamento-guia ou o motor fundamental do pensamento marxista revolucionário vem a ser justamente o de que a classe burguesa, proprietária e que controla e opera os meios de produção (portanto não se trata do “homem” mas de uma classe social que opera os meios de produção) não tem a menor condição de conduzir a humanidade, e os meios de produção para outro lugar histórico senão para a barbárie.

Não existe autorreforma do capitalismo e nem da sua classe proprietária para Marx.
Decorrência desse raciocínio e do pensamento materialista histórico de Marx e Engels é que a única gestão possível dos meios de produção para evitar o caminho da barbárie (gerada pelo processo de acumulação do capital) é a operada pelos próprios produtores associados.

Classe trabalhadora no poder político. Eis a essência do marxismo. E da estratégia revolucionária. E da revolução ambiental.

A URSS stalinista e sua política ambiental constituíram um desvio em relação à estratégia revolucionária da classe trabalhadora em sua relação com a natureza. Por fora do marxismo. Esse é o debate a ser aberto e levado até o fim por aqueles que falam em nome da classe trabalhadora hoje.

BENSAID, Daniel, 1999. Marx, o intempestivo: grandezas e misérias de uma aventura crítica. São Paulo: Civilização.
FOSTER, Bellamy, 2005. A ecologia de Marx. São Paulo: Civilização.
ENGELS, Frederich, 2009. O papel do trabalho na transformação do macaco em homem. Brasília: Centelha Cultural.
FOSTER, J Bellamy, 2015. Late soviet ecology and the planetary crisis. In Monthly Review, v 67, issue 2 [june].

[1] Nas eleições de 1992 o The economy, stupid! foi o mote não oficial da campanha de Clinton (que derrotou o aparentemente imbatível G. Bush) para lembrar que a questão a ser focada e decisiva não era a política internacional, mas sim a debilidade da política econômica do rival.




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