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Na UFCG, lançamento da edição ampliada do livro "A revolução e o negro" reúne dezenas de estudantes

No dia 26 de Novembro, a Universidade Federal de Campina Grande recebeu o lançamento do livro A revolução e o Negro, obra organizada por Marcello Pablito; Daniel Alfonso e Letícia Parks militantes que constroem o Movimento Revolucionário dos Trabalhadores e o portal Esquerdo Diário, seção brasileira da FT-QI (Fração Trotskista - Quarta Internacional).

sábado 30 de novembro| Edição do dia

Em meio ao mês da consciência negra, a UFCG recebeu estudantes e militantes para o debate em torno da relação existente entre o marxismo, racismo e a questão negra. A mesa de lançamento foi composta por Carolina Cacau, militante do Quilombo Vermelho e do Movimento Revolucionário dos Trabalhadores e professora do Estado do Rio de Janeiro, e do professor da Universidade Federal de Campina Grande e redator do Jornal Esquerda Diário,Gonzalo Adrián Rojas.

O lançamento iniciou com uma fala do professor Gonzalo Rojas a respeito da importância do lançamento da obra em um espaço acadêmico como a Universidade, demonstrando a atualidade do marxismo para pensar a questão racial, frente a um contexto de conjuntura política marcada pela ascensão da extrema direita no Brasil e pelo retorno da luta de classes ao centro da arena política na América Latina.

Assista à transmissão online:

Ao iniciar a apresentação do livro, Carolina Cacau, militante do Quilombo Vermelho e do Movimento Revolucionário dos Trabalhadores e professora do Estado do Rio de Janeiro, destacou a relevância do lançamento para a luta do povo negro através do resgate histórico acerca da relação entre marxismo e a questão negra:

“Estamos lançando essa segunda edição do livro, é uma edição ampliada, são novos textos, atas de reuniões entre militantes trotskistas, uma oposição à esquerda do stalinismo que posteriormente fundou a Quarta Internacional, mostrando na verdade a centralidade que tinha a questão negra entre eles, na formação da própria Quarta Internacional, ao mesmo tempo demonstrando a atenção que tinha esse debate internacionalmente. Esse livro deve ser visto como uma ferramenta a ser apropriada por negros e negras para desvendar a história do nosso povo, não apenas em nosso país, mas no mundo”.

Carolina Cacau seguiu o lançamento explanando sobre a composição do livro, dividido em cinco grande partes, ao dar ênfase na primeira parte: Racismo, Capitalismo e revolução, a militante procurou apresentar um panorama geral a respeito da materialidade do racismo em nossa sociedade, argumentando sobre o processo de acumulação primitiva do capital que se deu em base na escravidão e comércio de negros da África:

“O livro está dividido em cinco grandes partes, a primeira dela se chama: racismo e capitalismo e revolução, que é a parte que eu vou me aprofundar mais. Essa primeira parte do livro serve para discutir como os negros e o processo de escravidão, foram centrais para a consolidação do capitalismo, com a exploração dos escravos, sendo fundamental para fazer com que a burguesia crescesse e tomasse o poder político através da exploração do trabalho escravo nas Américas. Essa primeira parte também apresenta o racismo como uma criação do capitalismo, justamente como uma forma de criar supostos elementos de inferioridade do povo negro”

Ao prosseguir na sua apresentação, a militante também realizou uma reflexão em torno do momento atual em que o Brasil se encontra, com quadros políticos fascistas, que através do estimulo a violência, decretam a morte de milhares de negras e negros em nosso país:

“Eu queria centrar a primeira parte da minha fala sobre a relação entre racismo e capitalismo. A gente está em um momento em que temos políticos marcadamente racistas, que não têm nenhum pudor em expressar o racismo. Eu venho de um Estado, no Rio de Janeiro, onde temos um prefeito que faz parte da Igreja Universal, que é o Marcelo Crivella, e o Governador do Estado o Wilson Witzel que é um governador abertamente fascista que se elegeu dizendo que ia dar tiro na cabecinha das pessoas. Então a gente consegue perceber materialmente o racismo em nossa sociedade, nas nossas experiências individuais, seja por figurar entre as estatísticas dos índices de desemprego, diferenças salariais, violência, ou seja, uma série de elementos que mostram a situação dos negros e negras de nosso país ao mesmo tempo em que nos faz pensar profundamente a questão do racismo, qual a sua relação com o capitalismo, e na nossa opinião, como essas duas coisas não podem ser pensadas separadamente”.

Na segunda parte de sua fala Carolina Cacau procurou demonstrar a necessidade de uma reflexão crítica sobre o significado do stalinismo e no legado histórico dos partidos seguidores dessa corrente, como coveiros dos processos revolucionários ao redor do mundo, e mais especificamente nos processos de independência no continente africano em meados do século XX. Outra observação importante realizada é a necessidade de aprendizado com os movimentos de massa que estão ocorrendo na América Latina, a exemplo do Chile.

Cacau procurou esboçar um paralelo entre essas experiências e a necessidade de um programa e de um partido revolucionário, que consiga canalizar essa energia para a realização não de meras reformas, mas de superação da própria ordem capitalista através de um programa revolucionário. Contudo, a militante também destacou que esse movimento no Brasil ainda está refém das burocracias sindicais sob domínio do PT e do PCB (CUT e CTB respectivamente), que procuram canalizar o descontentamento social para uma via eleitoral e conciliatória, em um momento de ataque sobre a classe trabalhadora, refletindo que, muitos desses ataques aconteceram sem nenhuma mobilização e organização desses partidos, demonstrando assim, o nível de burocratização e arrefecimento da luta de classes no Brasil.

Na sua fala, Carolina Cacau procurou demonstrar o papel revolucionário do povo negro, citando a emblemática frase do trotskista negro norte-americano C.L.R. James “o único local onde os negros não se rebelaram, foi nos livros dos historiadores capitalistas”. Para a militante do MRT, o livro lançado em questão procura mostrar, contrário a uma visão burguesa da história, que o povo negro sempre esteve na linha de frente dos processos de luta contra a opressão e a exploração, sendo portanto, necessário pensarmos a conjuntura política, econômica e social atual, junto com a questão racial.

Após o término da fala, foi dado espaço para que militantes e estudantes presentes no lançamento tirassem dúvidas e realizassem o debate sobre questões norteadores a respeito do marxismo e a questão racial. Dos temas que surgiram no debate, chamamos atenção para a preocupação sobre o cenário de violência legalizada postulado pelo governo de Jair Bolsonaro, juntamente com o ministro Sérgio Mouro, que através de medidas impositivas, procura dar crédito à repressão policial que a cada dia vem exterminando a população negra de nosso país. Outro tema que chamamos atenção e que apareceu no debate, diz respeito à perspectiva identitária da questão negra, por meio da qual, Carol procurou explicar que esse debate precisa de fato ser trabalhado e refletido à luz de um marxismo crítico e revolucionário, bem como, o próprio conteúdo do livro lançado procura demonstrar.




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