Gênero e sexualidade

#PEPSICOENLUCHA

Na Argentina assembleia #NiUnaMenos pela PepsiCo: "Algo muito grande está para nascer"

Após um dia de intensa jornada que começou no Obelisco de Buenos Aires e terminou às porta do Congresso Nacional, onde sofreram uma inusitada repressão policial, as trabalhadoras da PepsiCo em luta receberam o caloroso abraço do movimento de mulheres ontem, quarta-feira, 26.

quinta-feira 27 de julho| Edição do dia

A tenda que as trabalhadoras e trabalhadores da PepsiCo instalaram em frente ao Congresso Nacional após a massiva mobilização do dia 19 de julho, que se converteu em um centro de organização para as centenas de trabalhadores que sofrem com as demissões e ajustes da coalizão "Cambiemos" (formada por Elisa Carrió, da Coalición Cívica ARI, Macri, do PRO, e Ernesto Sanz, da Unión Cívica Radical), foi o lugar onde se realizou a assembleia Nem Uma a Menos, em apoio às valentes operárias que hoje são conhecidas como "as leoas da PepsiCo".

Passado um pouco das 18 horas quando o #GuisoFeministaPorLaReincorporación (GritoFeministaPelaReincorporação) começa a se sentir. Uma enorme quantidade de mulheres se reúnem na tenda e no caminho da pequena praça que a rodeia, ali mesmo, na frente do Congresso Nacional, ele é preenchido com abraços, histórias e cumprimentos. Enquanto algumas cozinham, outras distribuem sua arte pelo interior da tenda, se sentam nas cadeiras ou no chão, ou ajudam a levantar o toldo para que todas possam escutar. A alegria é imensa. Depois da repressão do meio dia e de uma longa jornada de luta que não cessa, as trabalhadoras de PepsiCo seguem recebendo apoios.

A jornalista da Las12/Página 12, Marta Dillon, pega o microfone para abrir a assembleia e destaca que a demissão das mais de 600 famílias por parte da multinacional "é um ataque a nossa condição de mulheres, um golpe de classe e uma forma de disciplinar as trabalhadoras, porque não nos querem nas ruas, nos querem em casa". Os aplausos apenas terminam quando Catalina Balaguer, referência nesta heroica luta, toma a palavra.

Sim, se pode lutar contra as demissões

Katy, como a conhecem seus companheiros e companheiras, recorda a histórica luta que protagonizaram em 2014, pela sua readmissão. "Com uma campanha enorme, com a solidariedade de muitas organizações nacionais e internacionais, obtivemos uma decisão que me reconheceu como delegada legítima e de jurisprudência estabelecida, e quando voltei para a fábrica nos reoganizamos outra vez". Proxima a ela, Myriam Bregman, lhe sorri com cumplicidade. A fundadora do Centro de Profissionais pelos Direitos Humanos e atual candidata a deputada da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores pela cidade de Buenos Aires, foi a advogada que acompanhou Catalina durante aquele processo, que hoje se estuda nas faculdades de direito de todo o país.

Alí, ao seu lado, está também Nora Cortiñas. A Mãe da Praça de Maio (Madre de Plaza de Mayo) toma o microfone em suas mãos para apontar que quatro genocidas foram condenados a prisão perpétua na província de Mendonza e relata que "levaram nossas filhas e filhos, nos trataram como ’loucas’, disseram íamos nos cansar. Não esperavam que essas mulheres seguiriam até ver todos os genocidas sentados no banco de réus. Vocês são as heranças que nós mães recebemos, e nos sentimos orgulhosas", disse, e as leoas da PepsiCo que sabem que não estão sozinhas.

Com uma força que desperta a atenção de todos, Katy conta como se organizaram por direitos seus, enfrentando a perseguição da patronal e as entraves do sindicato. Também relata que "nesta organização o eixo sempre esteve nas condições de trabalho e na luta pelo pase a planta de todas e todos os contratados". "Nós, junto com nossos companheiros, conquistamos que nos atribuam novas tarefas por doenças de trabalho, que paguem creches para nossos filhos, que reconheçam nossa condição, as licenças maternidade ou por filhos doentes", conta. Todos direitos arrancados pela empresa apesar da condução do sindicato, "que não apenas não nos apoiou, como também nos traiu", complementa, e pergunta: "Como fizemos? Conquistamos nossa Comissão Interna, nos organizamos em assembleia, e com a solidariedade dos companheiros, explicando-lhes que temos todos esses direitos, o conquistamos", afirma, e volta a despertar unanimes aplausos da grande assembleia.

"Nesta tenda há algo muito grande que está para nascer", acrescenta Myriam Bregman durante sua fala, que destaca a violência com que as patronais, a conduções dos sindicatos e as instituições do Estado descarregam particularmente contra as mulheres. "Quando ocorreu o julgamento pelo caso de Katy nos diziam o mesmo, que estávamos loucas porque Katy não era delegada, porque isso nunca havia ocorrido na Argentina, porém o que foi que nos convenceu? Que haviam trabalhadoras como ela dispostas a lutar por seus direitos". "Hoje estamos em outra situação para dar essa luta, temos avançado em nossa organização, e temos a responsabilidade de lutar pela consciência de milhões, para dizer forte e alto, da mão das trabalhadoras de PepsiCo, Nem Uma A Menos sem trabalho, Nem Uma A Menos por esse plano de ajustes que querem nos impor".

Uma e mil Vezes

As horas passam como minutos. Katy relata que essa luta "nos custou suspensões, demitidos, ameaças, repressão, porém voltariamos a fazer mais mil vezes isso se isso mudar a consciência de um monte de mulheres que não estão dispostas a se resignar à miséria que esse sistema oferece", e afirma que "nós queremos propor falar sobre isso, pois sabemos que nossa luta é emblemática, porque hoje há milhares nas ruas, e porque a burocracia nada faz e o Ministério, o governo, estão com os empresários, enquanto são milhares sem voz, como não tínhamos antes". "Temos que nos somar a essa luta para dizer bem alto Nem Uma A Menos sem trabalho, porque isso também é violência, e foi o que aconteceu em PepsiCo". Frente a essa violência se rebelaram.

Sua companheira do PTS e da agrupação Bordó, oposição ao sindicato, Cariná Brzozowski também saudou a assembleia e destacou toda a contribuição que significou essa experiência de luta pela sua reincorporação na alimentícia FelFort. Também falaram as trabalhadoras da CTEP, as integrantes da cooperativa Yo No Fui, da Comissão pela Liberdade de Milagro Sala, as trabalhadoras têxteis imigrantes e as demitidas de Tessicot, integrantes da Comissão de Mulheres de AGR-Clarín e AGD-UBA, como Ileana Celloto, todas levaram sua solidariedade.

Também estiveram presentes integrantes do Coletivo Ni Una Menos do Chile e outras representações desse espaço na Argentina, como Florencia Minici, Florencia Alcaraz, e María Pía López, a artista Ana Carolina, a filha de desaparecidos Alejandrina Barry (PTS-FIT), as organizações feministas Abya Ayala e as representantes Claudia Korol, Celina Rodriguez e Liliana Daunes, a Frente Popular Darío Santillán e outras forças da FIT, como Izquierda Socialista e o Plenario de Trabajadoras. Também não deixaram de prestar solidariedade as trabalhadoras bancarias, telefonicas, do metrô, o Indec, o Ministério do Trabalho, dos sindicatos docentes UTE, Ademys e os Sutebas recuperados, da CTA, ATE e o Hospital Garraham, enquanto que as motoristas demitidas de Córdoba, hoje em greve de fome, enviaram uma saudação. O coro de "Vivas nos queremos" e de "Nem uma a menos sem trabalho, sem teto ou na rua", ressoou em todas as intervenções e retomou-se a exigência de uma greve geral e em um verdadeiro plano de lutas.

"Nos quiseram jogar na rua porque não queriam que nos organizássemos", afirmou uma das leoas presentes, "sabemos que essa luta é dura, que é duro estar na rua, porém é possível avançar se nos fazemos mais fortes. Necessitamos uma greve geral para não seguir no olho da rua e para seguir organizadas", completou e foi ovacionada em uníssono por todas as presentes.

Pelo Coletivo Ni Una Menos também saudou a assembleia Florencia Minici, ela recordou que "há vinte e seis companheiras criminalizadas por lutar pelos direitos das mulheres", assim também chamou a aprofundar a organização. "Quando dizemos que ’estamos para nós’ estamos dizendo que estamos contra a reforma trabalhista, que vamos acompanhar todas que saem a luta e esperamos o compromisso de todas para impulsionar ações em unidade nisso que está nascendo nessa tenda, que esperamos seja cada vez mais massivo".

Há leoas nessa fábrica

Andrea D’Atri, fundadora da agrupação de mulheres Pão e Rosas e candidata a senadora nacional pela Frente de Esquerda (FIT) na cidade de Buenos Aires, também se referiu à brutal repressão com que respondeu o governo à mobilização desta quarta-feira. "As mulheres são as primeiras a ser demitidas, as primeiras a serem precarizadas, e por isso hoje estamos nesta tenda, que irá se manter apesar da repressão”, defendeu, e enfatizou que “faz mais de 15 anos, quando colocamos de pé a agrupação de mulheres Pão e Rosas, lutamos pelos direitos das trabalhadoras, e não apenas por seus direitos sindicais como também por sua organização, para que sejam cada vez mais mulheres e homens tomem consciência da necessidade de enfrentar este sistema capitalista e patriarcal.

A dirigente do PTS/FIT também destacou que "em Pepsico tem uma história que explica porque há ’leoas’ nessa fábrica, uma história de luta de homens e mulheres, como a que nos levou a conhecer Katy em uma tenda como esta, no ano de 2002" quando as trabalhadoras da têxtil Bukman se colocaram diante da fraudulenta falência da empresa e resistiram ao despejo da fábrica. D’Atri também convidou a ir nas fábricas, a colaborar na organização das mulheres, “porque isso é o que faz com que o movimento de mulheres seja verdadeiramente poderoso", ao mesmo tempo que chamou a "impulsar uma grande campanha por ’Não compre PepsiCo’ para que isto se difunda muito mais amplamente e nossa luta seja cada vez mais ativa".

Já passou das 21 horas. Artistas de Teatro pela Identidade se preparam para realizar sua obra nessa mesma tenda em que acontece a assembleia. Catalina Balaguer volta ao microfone e chama a dar continuidade com a Assembleia impulsionando massivamente a campanha ’Não Compre Pepsico’ e acompanhando sua exigência de reabertura da planta, com todos os trabalhadores e trabalhadoras na fábrica. No Congresso Nacional, sua companheira Nathalia Gunzález Seligra denuncia a repressão e que "atacam a esquerda porque levantamos outra agenda", ao mesmo tempo exige juntos aos deputados e deputadas de outros blocos o encaminhamento urgente dos projetos que proíbem as demissões e suspensões, assim como o que propõe a expropriação da multinacional.




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