Internacional

ATENTADO NA ALEMANHA

Munique: o que está por trás do ataque que comoveu a Europa?

Ao menos nove mortos e dezenas de feridos no tiroteio de Munique. Uma sociedade comovida e polarizada.

Josefina L. Martínez

Madrid | @josefinamar14

sábado 23 de julho| Edição do dia

A polícia de Munique, baseando-se em vários testemunhos, disse primeiro que provavelmente foram três franco-atiradores que agiram, os quais deram início à fuga depois de atirar em frente a um McDonalds local e no centro comercial Olympia, com o resultado trágico de ao menos nove mortos. Mais tarde informaram sobre um cadáver que havia sido encontrado, somando 10 mortos, e garantiram que poderia tratar-se de um único agente. Em uma conferencia de imprensa por volta das 2:30h, a polícia identificou o corpo como de um jovem de 18 anos, a quem atribuíram a nacionalidade alemã de procedência iraniana.

O governo de Munique declarou por volta das 21h um “estado especial”, enquanto unidades “antiterroristas” alemãs se deslocaram até a cidade, capital do Estado de Baviera e terceira cidade da Alemanha em número de habitantes. O metro foi cortado, ônibus e taxis foram suspensos e desde a Prefeitura se pediu à população que não deixassem suas casas.

A uma semana do ataque em um trem, onde um refugiado afegão com um machado feriu quatro pessoas, os primeiros rumores apontavam para a possibilidade de um atentado jihadista. Porém, essa hipótese não foi sustentada pela polícia por não terem encontrado provas nesse sentido. No decorrer do tempo, começou a circular outra hipótese, a de um ataque perpetrado por indivíduos de extrema direita. Segundo testemunhas, um dos agentes gritou “malditos imigrantes” antes de atirar. Ainda que não está nada claro, o modus operandi poderia apontar nesta direção.

Ademais, chama atenção o fato de que essa sexta (22/07) se completam 5 anos do massacre na Noruega perpetrado pelo neonazi Anders Breivik. Naquele dia esse norueguês de ultra direita realizou inúmeros disparos contra jovens que participavam de um acampamento do Partido Trabalhista da Noruega, assassinando 69 pessoas, depois de ter matado outras 8 pessoas em Oslo. O que naquele momento parecia obra de um “lobo solitário” ou de um “demente”, como alguns quiseram interpretar, hoje se mostra como parte de um profundo fenômeno político que sacode a Europa.

A extrema direita este em ascensão na Europa, com importantes resultados eleitorais nos últimos anos e em auge depois do triunfo do brexit no Reino Unido. Na Alemanha, o partido AfD (Alternativa para a Alemã, na sigla em alemão) conseguiu 22,4% dos votos no Estado da Saxônia nas eleições regionais de março de 2016. Por sua vez, no flanco da ultra direita, existem grupos diretamente neonazistas e islamofóbicos como o movimento Pegida. Nos últimos meses, o AfD tem aprofundado um caminho xenofóbico e reacionário buscando se aproximar do Pegida.

Por outro lado, os ataques e a “ação direta” contra os refugiados e centros de acolhimento têm crescido exponencialmente durante os últimos anos na Alemanha.

Uma “guerra civil” na Europa?

Essa semana, o diretor da DGSI (Direção-Geral da Segurança Interna da França), dos serviços de inteligência franceses, Patrick Calvar, alertava – despertando a polêmica – sobre um possível atentado da extrema direita na França. Calvar disse que era provável que ocorra como resposta aos atentados do Estado Islâmico, frente ao que se percebia como uma “debilidade” do estado francês para responder aos mesmos. Com essas declarações agitava o fantasma de uma “guerra civil” entra a “extrema direita” e o “mundo muçulmano”.

“O extremismo se levanta por todas as partes e somos nós, os serviços internos, os que estão tentando transferir recursos para acomodar a extrema direita, que não faz outra coisa senão esperar o confronto”, observou ele.

Claro que a advertência teria o objetivo reacionário de justificar uma maior ofensiva repressiva interna, reforçando o aparato de inteligência, a presença militar nas ruas e os controles e penalizações sobre a população muçulmana e de bairros pobres. Algo que o governo de Hollande, por outro lado, fez essa semana e vem fazendo com a prerrogativa do “estado de emergência”.

O que é indubitável é que a crise da União Européia, que se expressa de forma cada vez mais aguda por diferentes flancos, tem levado a uma polarização social sem precedentes, germe para o crescimento da extrema direita perante à assimilação neoliberal do “centro politico”. Por sua vez, as guerras imperialistas produzem centenas de milhares de mortos no Oriente Médio ou África, gerando uma onda migratória sem precedentes e estimulando fenômenos reacionários como o Estado Islâmico. Essas ações agora estendem seus ecos aos centros dos países europeus, por meio de atentados como os do Estado Islâmico em Paris, Buxelas e Nice. Uma combinação convulsiva.

Neste contexto, a possibilidade de novas ações reacionárias e atentados por parte tanto dos seguidores do Estado Islâmico como de grupos da extrema direita está assegurado, polarizando cada vez mais a situação política no velho continente.
Nos próximos dias seguramente veremos um reforço do aparato repressivo interno na Alemanha, seguindo o caminho do “Estado de emergência” galo, que se volta contra o conjunto da população. Nos últimos meses Merkel tomou em grande parte o programa da extrema direita, que pressionava com crise dentro de seu próprio partido, restringindo os direitos dos refugiados e colocando-os em centros de acolhida em péssimas condições.

As reações internacionais não se fizeram esperar, desde Obama até todos os líderes da União Europeia se solidarizaram com o governo alemão.

Neste momento trágico é fundamental solidarizar-se com os familiares e amigos das vitimas e rechaçar o massacre, ao mesmo tempo que denunciar o aprofundamento das medidas repressivas, as políticas xenófobas contra os imigrantes por parte do governo e da extrema direita. Mais que nunca, reforçar a luta contra o racismo, a xenofobia e a guerra imperialista.




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