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Mulherismo Africana e Feminismo: um debate necessário

sexta-feira 13 de maio de 2016| Edição do dia

Muito se diz sobre a oposição do Feminismo ao Mulherismo Africana, sendo o primeiro considerado uma teoria eurocêntrica (que teria se originado na Europa e teria seu foco voltado para este continente) e o segundo como uma teoria afrocêntrica ou afrocentrada (que, mesmo tendo se originado fora da África e do contexto africano, seria mais legítima para ser defendido pelas mulheres negras por ter seu foco na África), mas é importante sabermos o que defende o Mulherismo e suas reais divergências com o feminismo. Devemos sim entender as diferenças objetivas que existem entre as mulheres negras e brancas, mas não no sentido de dividir as nossas lutas, mas de poder apoiarmos e fazer com que nossas pautas, iguais e diferentes, específicas a cada uma de nós (que mesmo sendo mulheres negras não temos as mesmas necessidades), de maneira a lutarmos melhor e não separadas. Devemos entender que o sofrimento que nós, mulheres negras em diáspora, é diferente dos das mulheres negras em África, das mulheres asiáticas, das indígenas e também das mulheres brancas em todo o mundo, mas que a nossa luta, deve ser uma só: a emancipação das mulheres ligada a luta contra o sistema que oprime a todas nós, mesmo que de maneiras distintas.

Aqui é importante colocar que o movimento feminista não é homogêneo, uma vez que existem diversas vertentes de pensamento feminista, cada uma com a sua própria pauta de reivindicações e métodos de luta. Pautaremos aqui um movimento de mulheres classista ou socialista, que se diferencia de outros blocos feministas por seu perfil que se liga a classe trabalhadora e a hegemonia desta.

O Mulherismo é uma teoria nascida nos EUA, em 1945, a Cleonora Hudson, professora de inglês na Universidade de Missouri – Columbia, e explicado em seu livro Africana Womanism: Reclaiming Ourselves (Mulherismo Africano - Recuperando-nos), sendo também conhecida por escrever sobre o linchamento brutal de Emmett Till, em 28 de agosto de 1955, sendo a primeira a somar posição sobre este caso, que é apontado por alguns autores como o verdadeiro catalisador do movimento moderno dos Direitos Civis nos Estados Unidos. Ele prega que as teorias vinda da Europa não servem para as mulheres negras, entejam elas em diáspora ou nativas do continente africano, que deveriam buscar em um reencontro com sua ancestralidade africana uma verdadeira teoria matriarcal e afrocentrada.

Dentro da teoria mulherista africana, podemos destacar:

- defesa da condição de subalternidade ou submissão da mulher negra, ao entender que o que os olhos eurocêntricos veem como submissão na verdade é o local de poder da mulher negra na sociedade africana, em que servir comida aos homem, filhas/os e convidadas/os é um gesto de poder.

- legitima a exploração da mulher pelo homem ao entender que homens e mulheres não possuem diferenças materiais impostas pelo capitalismo e pelo machismo, deixando assim de ver as diferenças estruturais entre homens e mulheres como “nocivas”. Para o mulherismo, não há problema em haver papéis masculinos e femininos na sociedade, uma vez que fazem parte da “tradição” (como padres e o papa serem sempre homens).

- Homens negros não são machistas, uma vez que o machismo nada mais é do que uma a interiorização pelo homem preto, do patriarcado branco. Nesta configuração o homem negro não é sujeito de si, não age por conta própria, mas sim é levado por esta “doença” que o acomete e o impossibilita de se ligar a sua ancestralidade.

- O mulherismo não debate gênero para além de mulher e homem, pois os conceitos de lesbianismo, transexualidade, homossexualidade não “cabem” no debate afrocêntrico, uma vez que são conceitos brancos e que em África não existem essas divisões, para o mulherismo elas não existem. Faz parte deste processo ignorar a homofobia, transfobia, lesbofobia e não fazer nenhum debate que combata estas formas de opressão sexual. Enquanto isso, dizem que devem valorizar o papel da mulher preta enquanto portadora do ventre original, aquela que está ligada à terra, porque é dela que vem a vida. Como se as mulheres trans fossem menos mulheres ou “não mulheres” por não possuírem útero.

Estes são alguns dos pontos defendidos pelo mulherismo africana, publicado por algumas de suas principais interlocutoras, que pontuam inclusive que não existe um feminismo negro, pelo feminismo ser uma teoria branca, considerando o feminismo negro como um “remendo”, que não é completo, uma vez que para este setor, o feminismo negro é ” teoria que já nasceu equivocadamente branca”.
Infelizmente o mulherismo africana ignora que vivemos em um mundo capitalista, que nos explora, oprime e divide cotidianamente. Parte de ressaltar a condição biológica da mulher da possibilidade de gerar vida alegando que as mulheres por possuírem útero são possuidoras de poder e devem ser respeitadas por isso, justificando dessa forma o machismo através de um discurso biologizante que descreve a mulher como aquela que tem o poder de servir, de cuidar, de educar e de organizar os espaços privados - a casa por exemplo. Ou seja, assim como a burguesia branca, o mulherismo africana destina a mulher o poder de se submeter ao papel de mãe e dona do lar. Seu discurso pode ser facilmente confundido com as propagandas feitas para vender produtos no dia das mães ou com qualquer discurso machista que limita a imagem da mulher a sua possibilidade da maternidade, ao mesmo tempo em que ignora as condições materiais no capitalismo que nega essa possibilidade a maior parte das mulheres negras que para educar seus filhos se submetem a trabalhos precários e a dupla jornada de trabalhado legitimada nessa ideia de que é papel da mulher cuidar da casa e dos filhos.

Enquanto essa realidade social continuar, qualquer escolha individual está condicionada e é aí que está o principal fracasso do mulherismo africana e das demais correntes feministas não classistas. Ao eliminar toda perspectiva coletiva de transformação, mantêm só para uma minoria a possibilidade de escolher, enquanto a maioria sobrevive em longas jornadas de trabalho e empregos precários (onde as mulheres sempre são a maioria e as negras ainda mais). As escolhas individuais (pessoais ou de grupos específicos) apenas distancia as lutas cotidianas que são dadas de uma saída real para o fim da opressão á mulher. Podemos ver isso nos ataques sustentados pelos Estados e setores conservadores, que tem ganho força no cenário do golpe institucional e do “circo de horrores” que foi a votação do impeachment na câmara dos deputados, aos direitos sexuais e reprodutivos, e níveis de violência contra as mulheres e aos LGBT´s e a opressão que aumentam dia após dia.

Essa realidade não é contestada pela mulherismo africana, que ao não dar este combate permite que as mulheres negras sigam sendo exploradas, oprimidas e mortas, pois não mira seus canhões nas bases do sistema capitalista, gerador desta situação em que não apenas as mulheres negras estão inseridas, mas também os homens, negros, as famílias indígenas e toda a parcela pobre da população: de exploração extrema pelos governos capitalistas, sejam nacionais ou internacionais. As reflexões das feministas socialistas que mantêm sua vigência são as que desafiam o movimento de libertação a não cair na armadilha de querer mudar apenas seu “pequeno mundo”. Juliet Mitchell escrevia em 1971 em Women’s State, “Se só desenvolvermos a consciência feminista… o que conseguiremos é, não uma consciência política, mas sim o equivalente ao chauvinismo nacional das nações de terceiro mundo ou o economicismo entre as organizações trabalhistas; um olhar que só vê a si mesmo, que só vê o funcionamento interno de um segmento; os interesses desse segmento. A consciência política responde a todas as formas de opressão”. As lutas sociais de nossa época provam que a advertência de Mitchell sobre as perspectivas da libertação feminina estava certa. A luta das mulheres, focado em si mesmo, em seu “pequeno mundo”, não representa hoje uma perspectiva nem uma ferramenta política e se torna duplamente obsoleto. Para reconstruir suas alianças estratégicas, o movimento de mulheres não deve ficar preso ao passado, mas sim aprender com seus elementos mais avançados e recuperar as bandeiras da transformação social, para conquistar sua emancipação e o fim de toda opressão.




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