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Mulheres, negros e latino-americanos podem definir a eleição nos Estados Unidos

Longe de um eleitorado branco, majoritariamente masculino e adulto, hoje as mulheres, os negros e os latinos se destacam na eleição. Como agem os fatores demográficos?

Celeste Murillo

Argentina | @rompe_teclas

quinta-feira 3 de novembro| Edição do dia

As transformações demográficas do eleitorado estadunidense consolidaram seu protagonismo desde a primeira vitória de Barack Obama em 2008 e sua posterior reeleição em 2012. O eleitorado 90% branco, majoritariamente masculino e adulto é hoje uma fotografia sem cor. Acima de tudo, tem representado um obstáculo para as estratégias eleitorais que se baseiam exclusivamente nesse bloco eleitoral em retrocesso. Com particular impacto entre os republicanos, esse fenômeno explica parte da crise desse partido (inclusive a ascensão do outsider Trump), embora seja muito mais ampla.

"Em 1980, Ronald Reagan ganhou o voto de 56% dos brancos e conseguiu uma vitória esmagadora. Em 2012, [o candidato republicano] Mitt Romney ganhou 59% do voto dos brancos e perdeu em 24 estados (...). A verdade é que simplesmente não há votantes brancos suficientes nos Estados Unidos de 2016 para ganhar uma eleição nacional sem ganhar também uma parte substancial dos votantes não brancos". Estas foram as palavras do estrategista republicano Stuart Stevens e o que descreve o retrocesso do eleitorado branco que em 1976 representava 90% dos votantes e em 2012 esteve próximo aos 70%, e se estima que neste ano chegue a 69% (Pew Research).

Essa mudança demográfica promete repetir seu protagonismo nas eleições de 2016. Não apenas não há “suficientes votantes brancos”, mas também têm ganhado proeminência blocos eleitorais que não são base tradicional dos republicanos. Embora esse fenômeno tenha beneficiado claramente o voto democrata, as perspectivas de Clinton se veem afetadas pela crise geral do sistema bipartidarista e pelo pouco entusiasmo (e muitas dúvidas) que sua candidatura tem gerado na base democrata.

Voto Latino

Os latinos representam 12% da população habilitada a votar. O voto latino é o de maior crescimento desde a última eleição, porém ao mesmo tempo é o grupo mais sub-representado. Desde 2012, o número de votantes latinos cresceu em 4 milhões, o que representa 37% do crescimento do total de votantes. Contudo, é provável que menos latinos vão às urnas (69%, menos do que os 72% que votaram em 2012).

É uma porcentagem significativa em estados chave como Flórida, que representam 18% do eleitorado. O crescimento foi exponencial nos últimos anos e modificou inclusive as características do voto latino do estado: há 10 anos os republicanos lideravam por 4 pontos e hoje os democratas encabeçam o voto hispano-americano por 11. O discurso xenofóbico de Donald Trump não afeta de forma positiva esse fenômeno, menos ainda na Flórida onde a economia não atravessa a situação adversa de outros estados e onde a mão de obra imigrante e latina cumpre um papel central. Por outro lado, cada nova geração do exílio cubano (com forte peso no estado) é mais moderada do que a anterior e tem uma política de maior abertura em relação à ilha que tende a coincidir mais com os democratas do que com os republicanos, que eram sua referência histórica.

Solteiras, sem dificuldade e com muito poder

Nas eleições de 2016, as brechas mais importantes serão as de gênero e idade. Segundo a recente pesquisa do Washington Post-ABC News, 49% das mulheres apoiarão Clinton, enquanto apenas 34% votariam em Trump (uma diferença maior do que a de 2012, quando as mulheres apoiaram Obama em 57% e Romney em 53%).

As denúncias de assédio sexual e as declarações misóginas de Trump apenas somaram apoio a Clinton, inclusive entre as mulheres jovens que haviam votado majoritariamente em Sanders nas internas democratas. Isso se soma ao apoio tradicional das mulheres pelo partido democrata.

A novidade é que as mulheres solteiras representarão o bloco eleitoral maior. Desde 2009, a quantidade de mulheres casadas caiu para menos de 50%. Pela primeira vez na história, as mulheres não casadas estão em maior número. O fenômeno não se limita às jovens (apenas 20% delas chegam casadas aos 29 anos, muito abaixo dos 60% de 1960). As maiores de 34 anos que nunca se casaram chegam aos 46% (12% a mais do que há 10 anos).

Já em 2012 o Voter Participation Center havia observado a presença das mulheres não casadas em todos os blocos: 40% dos negros, cerca de 30% dos latinos e um terço de todos os votantes jovens. O estado civil não é um dado menor para as eleições, é um traço que define grande parte do voto. Ainda que as mulheres brancas de conjunto tenham votado mais por Romney do que por Obama, entre as solteiras 49,9% votaram nos democratas enquanto 38,9% o fizeram nos republicanos.

Também as mulheres são as que mais participam entre a juventude: 51% assegura que votará em 8 de Novembro (6% a mais que em 2012), enquanto seus pares masculinos diminuíram sua participação, de 51% em 2012 a 47%.

A raça importa

Os negros representam 12% da população habilitada para votar (nas eleições de 2012, 67% dessa categoria votaram nas eleições).

O fator racial segue sendo decisivo na hora das eleições. Tradicionalmente democrata, a comunidade negra apoia majoritariamente Hillary Clinton contra Trump. Uma vez mais, o rechaço é o que define, já que a maioria da juventude negra se sente, com razão, “sob ataque” segundo a pesquisa de IOP de Harvard. Não são as melhoras durante os governos democratas o que impulsiona o voto negro, e sim o temor de que sua situação piore com Trump. 85% dos negros menores de 30 anos creem que a gente de sua mesma origem étnica ou racial está sendo atacada.

Clinton espera manter a equação que levou Obama ao poder, quando conseguiu 9 de cada 10 votos de pessoas não brancas e 19 de cada 20 votantes negros. Somente 3% dos votantes negros declaram que apoiará Trump no 8 de Novembro.

Se, como assinalamos a princípio, as mudanças demográficas favorecem tendencialmente o partido democrata, enquanto estreitam a base social histórica do partido republicano, isso não significa automaticamente o triunfo de Clinton nas eleições do 8N. Os dois candidatos mais impopulares das últimas décadas geram uma grande apatia em parte do eleitorado, tanto em setores que ainda estão indecisos, como em outros que podem não ir votar. A campanha de Clinton empreende esforços para atrair esses setores (que atravessam as populações segundo seu gênero, idade e raça), para que votem mesmo que seu melhor argumento seja que ela é o “mal menor”.

A forma como se expressam esses blocos demográficos (incluindo o grau de abstenção) terminará definindo o próximo habitante da Casa Branca.

Tradução: Vitória Camargo




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