Negr@s

MULHERES NEGRAS

Mulheres negras, capitalismo e Revolução

Recentemente a Editora Boitempo lançou o livro Mulheres, Raça e Classe de Angela Davis. Sua primeira edição é de 1983 e se tornou uma importante referência para estudos sobre a questão negra assim como de gênero. Trata-se de leitura indispensável para todos aqueles que não se contentam com a realidade imposta pelo capitalismo. Abaixo publicamos o conteúdo da fala de Jenifer Tristán no debate de lançamento do livro no PUC-SP, no último dia 23 de setembro. O debate foi organizado pela Apropuc e contou também Devison Faustino – Drº em Sociologia. Professor da UNIFESP na Baixada Santista, Jaque Conceição – Mestre em Educação, Pesquisa de Doutorado sobre Angela Davis e Weber Lopes – Mestre em Ciencias Sociais.

Jenifer Tristan

ABC Paulista

terça-feira 8 de novembro| Edição do dia

A iniciativa da Boitempo em traduzir este livro é muito oportuna e tem um sentido especial neste momento político. Um dos aspectos fortes deste livro é não se tratar somente de uma importante análise sobre mulheres, raça e classe, mas de buscar colocar estas ideias em movimento. O livro, em última instância, é também um convite para a ação. E, todos sabemos, vivemos um momento de consolidação de um golpe institucional, que não foi um golpe somente ao PT. Foi, acima de tudo, um golpe contra os trabalhadores, as mulheres, a população pobre e os negros em especial. É um golpe para atacar ainda mais os trabalhadores, para fazer o que o PT, que abriu espaço para a direita, não conseguiu fazer. O escândalo da composição ministerial do governo Temer, branco e masculino, é um dos símbolos mais fortes do tamanho do ataque aos trabalhadores que vão tentar impor. Mas nós temos a capacidade de barrar esses ataques e lutar consequentemente contra o governo Temer.

O livro de Davis abarca uma série de questões, temas e nuances em torno do eixo central que, como o título demonstra, relaciona a luta das mulheres, contra o racismo e a exploração. A análise começa com a mulher escrava, e Davis afirma que para entender a mulher escrava é fundamental entender seu papel como trabalhadora. E aqui se dava um processo combinado: ao mesmo tempo em que a brutalidade das relações escravagistas entre senhores, feitores e escravos obrigava as mulheres a exercerem as mesmas funções que os homens, ou seja, havia uma relação de “igualdade produtiva” na escravidão, as mulheres negras eram as que mais sofriam com a violência aos escravizados. Violência que se expressava das mais variadas maneiras, entre as quais a brutalidade do estupro sistemático. A cultura do estupro que amplos setores da sociedade vem denunciando, principalmente a partir do caso do estupro da jovem do rio de janeiro por 33 homens, tem suas raízes aí também. E temos que seguir o exemplo das mulheres escravizadas que lutavam com todas as forças contra essa violência brutal. Entender que a força opressiva da escravidão não diferenciava, em geral, o trabalho entre mulheres e homens, ou seja, que as mulheres realizam tarefas árduas e pesadas é importante porque permite captar uma dimensão mais profunda do próprio processo de desenvolvimento do capitalismo. Afinal, o trabalho escravo foi fundamental para o processo de acumulação de capital que, em no final do século XVII e no XIX desembocou na Revolução Industrial. Ou seja, o capitalismo se formou sob as mãos de negros e NEGRAS escravizados. Assim, o capitalismo, que é um sistema social que depende da exploração da força de trabalho de uma classe, a trabalhadora, em benefício de outra, a burguesa, surgiu em base à uma forma totalmente nova de opressão racial. Por isso, enquanto houver capitalismo, não somente haverá exploração de classe e opressão de gênero, mas também racismo.

E como se articula a relação entre mulheres, raça e classe? Um exemplo interessante é a relação entre mulheres brancas de classe média e a luta abolicionista. Davis demonstra que a luta abolicionista atraiu um setor muito importante de mulheres brancas de classe média, ainda na primeira metade do século XIX. Em uma sociedade capitalista que modificava em alta velocidade a realidade à sua volta, o papel estabelecido para as mulheres que era as tarefas domesticas, vão perdendo relevância e as mulheres brancas de classe média começaram a apoiar a luta contra a escravidão, o que as valorizava por suas ações e não por papéis estabelecidos socialmente.

Vale a pena citar a própria Davis: “O movimento escravagista oferecia às mulheres de classe média uma oportunidade de provar seu valor de acordo com parâmetros que não estavam ligados a seus papéis como esposas e mães. Nesse sentido, a campanha abolicionista era um espaço em que elas poderiam ser valorizadas por seu trabalho concreto” . E esse é um ponto importante, porque Davis nos lembra que a participação organizada de mulheres na luta contra a escravidão se iniciou antes do movimento geral pelos direitos das mulheres.

Quando este movimento se iniciou, nos Estados Unidos os escravos naturalmente não podiam votar pois eram considerados propriedade, sem direito algum. As mulheres brancas tampouco podiam votar. É muito interessante como, atacadas pelo sistema patriarcal e misógino, as mulheres brancas que defendiam a abolição da escravidão começaram a se defender como mulheres, ou seja, articularam a questão de gênero. É nesse contexto, junto com a influência de movimentos pelos direitos das mulheres na Europa, em especial na Inglaterra, que se desenvolve nos Estados Unidos um movimento pelo direito ao voto feminino. O capitalismo, naquele contexto, guardadas as proporções e profundas diferenças, oprimia tanto os escravizados, mulheres e homens, quanto as mulheres brancas. Entretanto, havia um limite fundamental na luta pelo fim da escravidão. Vale a pena usar as palavras da própria Davis: “Como regra, pessoas brancas abolicionistas ou defendiam os capitalistas industriais ou não demonstravam nenhuma consciência de identidade de classe. Essa aceitação sem objeções do sistema econômico capitalista era evidente também no programa do movimento pelos direitos das mulheres. Se a maioria das abolicionistas via a escravidão como um defeito indecente que precisava ser eliminado, a maioria das defensoras dos direitos das mulheres enxergava a supremacia masculina de forma similar – como uma falha imoral de uma sociedade que, em seus demais aspectos, era aceitável”

Essa “aceitação sem objeções do sistema econômico capitalista” custará muito caro ao movimento das mulheres pois permitirá que políticos racistas entrem em cena como seus aliados. Isso porque depois da guerra civil norte-americana, que foi vencida pelos exércitos da União graças à coragem dos soldados negros, o movimento de mulheres incorporou cada vez mais os piores aspectos do racismo expresso politicamente. O que estava em jogo era o reordenamento das forças políticas naquele país e a supremacia branca, como Davis ressalta, aproximou-se da campanha pelo voto feminino para minar os direitos dos negros, mulheres e homens, em especial o direito ao voto. Como resultado, não somente o voto feminino, branco, não foi alcançado até meados do século XX, como o sistema político e jurídico norte-americano lançou uma feroz ofensiva contra a população negra, sistematizando leis de segregação racial, organizando ou no mínimo sendo conivente com assassinato sistemático de negros por organizações racistas como a Klu Klux Klan e obrigando os trabalhadores negros a receberem os piores salários e a estarem nos piores empregos.

A aproximação entre as lideranças do movimento de mulheres e políticos racistas, porém, não aconteceu sem resistência dentro do próprio movimento. Sojouner Truth, que em 1851, havia feito um discurso que minava a visão acerca da “fragilidade feminina”, combateu o racismo nas fileiras do movimento incansavelmente. Outro exemplo que Davis relembra é do Frances Harper, poeta negra, que defendia com força o direito ao voto dos homens negros. Ida B. Wells também foi uma importante crítica do racismo no movimento de mulheres, e eixo de sua defesa da urgência de direitos políticos ao povo negro se dava através da denúncia dos linchamentos que os negros sofriam, com o aval da polícia e dos políticos. A força do discurso de Sojourner Truth, no começo da década de 1850 denuncia tanto a opressão de raça quanto a de gênero. Vale a pena citar essa importante demonstração de clareza, força e ousadia:

“Arei a terra, plantei, enchi os celeiros, e nenhum homem podia se igualar a mim! Não sou eu uma mulher? Eu podia trabalhar tanto e comer tanto quanto um homem – quando eu conseguia comida – e aguentava o chicote da mesma forma! Não sou eu uma mulher? Dei à luz treze crianças e vi a maioria ser vendida como escrava e, quando chorei em meu sofrimento de mãe, ninguém, exceto Jesus, me ouviu! Não sou eu uma mulher?”

Esse é um exemplo da força e firmeza das mulheres negras que lutavam contra o avanço do racismo nas fileiras do movimento. Os Estados Unidos depois da Guerra Civil passaram por um reordenamento político importante, que era um ataque profundo à população negra que havia se colocado em movimento e ocupado importantes espaços políticos após a guerra civil, demandando melhores condições de vida. Nesse contexto, a sistema político e econômico norte-americano se valeu do racismo nas fileiras do movimento de mulheres para minar a participação da população negra na vida política. E assim, a “aceitação sem objeções do sistema econômico capitalista”, como Davis ressalta, cobrou um preço alto. Um democrata racista sintetizava seu programa sobre o voto da seguinte maneira: “Primeiro a mulher, por último o negro, eis o meu programa”. E as lideranças brancas do movimento de mulheres aceitavam de maneira inconteste essa perspectiva, reproduzindo em suas fileiras noções racistas acerca do povo negro, em especial os homens.

A ausência de direitos básicos de cidadania para a população negra nos Estados Unidos, na virada do século XIX para o XX, conferiu aos negros salários baixos, piores empregos e opressão sistemática. Essa foi a realidade que o capitalismo ofereceu às mulheres negras com o fim da abolição. Nas palavras de Davis “De acordo com o censo de 1890, havia 2,7 milhões de meninas e mulheres negras com idade acima dos dez anos. Mais de um milhão delas eram trabalhadoras assalariadas: 38,7% na agricultura, 30,8% nos serviços domésticos. 15,6 % em lavanderias e ínfimos 2,8% em manufaturas. As poucas que encontraram emprego na indústria realizavam os trabalhos mais sujos e com os menores salários.” 1890 já passou faz tempo e hoje o mundo é muito mais urbano. Mas o conteúdo desses dados não nos soa extremamente atual?

Queria agora fazer uma última observação. O capitalismo continua a oferecer o mesmo horizonte do final do século XIX. Hoje em dia, no Brasil por exemplo, as mulheres negras têm de longe os piores empregos e os piores salários. A terceirização tem rosto de mulher e pele negra. Isso porque o capitalismo precisa do racismo. Precisa que uma imensa parcela da população mundial seja sistematicamente oprimida para que a exploração da burguesia sob o conjunto da classe trabalhadora, negra e branca, continue a existir. Precisa do racismo para obter lucros maiores sob a exploração da mão de obra negra. Precisa do racismo para jogar o salário do conjunto da classe trabalhadora para baixo. Precisa do racismo para dividir a classe trabalhadora e enfraquece-la, fazendo com que trabalhadores negros e brancos compitam entre si e não enxerguem o inimigo comum. Precisa do racismo para perpetuar um sistema de contínua reprodução da opressão racial em todos os poros da sociedade – porque assim o próprio sistema capitalista se fortalece e se reproduz. Por isso a ideia central do livro de Davis, que é relação entre a opressão de gênero e raça marcadas pela exploração de classe se mantém absolutamente atual. Para lutar consequentemente contra o racismo é necessário lutar contra o capitalismo. Para isso, é fundamental unificar as fileiras operárias, impedir que o racismo divida a classe trabalhadora. Algumas medidas para fortalecer a classe trabalhadora passam pelos milhões de trabalhadoras terceirizadas serem imediatamente incorporadas, sem passar por nenhum tipo de prova. Os sindicatos precisam defender com força a bandeira da equiparação salarial entre negros e brancos, com um salário mínimo do DIEESE. E é urgente acabar com a polícia, que sistematicamente rouba o futuro da juventude negra. É fundamental uma perspectiva anticapitalista na luta contra o racismo. Malcolm X tinha toda a razão quando disse que “sem racismo não há capitalismo”. Cabe a nós levar adiante essa luta. E este livro é uma importante ferramenta a nosso favor.

Lançamento do livro na PUC-SP:




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