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DOSSIÊ: Dia internacional da mulher negra, latino-americana e caribenha

Mulheres negras às margens dos lucros da mineração

terça-feira 25 de julho| Edição do dia

Um dos pilares da economia mineira, a mineração, não inclui a classe trabalhadora - sobretudo as mulheres negras - em todo o bônus que se vê nas propagandas das maiores mineradoras, como a criminosa Samarco, responsável pelo desastre ambiental causado pelo rompimento de uma barragem de rejeitos em novembro de 2015. Nada de desenvolvimento, avanço ou melhoria da qualidade de vida daquelas que só sofrem retrocessos existentes, recorrentes e agora intensificados frente a todos os brutais ataques de Temer aos direitos trabalhistas.

Desde o surgimento da mineração no Brasil, começando na região onde hoje é Minas Gerais e caracterizando o nome do estado, o trabalho é feito por negros, que, naquela época, eram escravos e hoje são trabalhadores, negros ou não, sujeitos a um nível de exploração que herda do século XVII as mortes por acidentes de trabalho, a baixa qualidade de saúde devido às tarefas insalubres e o controle incessante dos senhores (ou, atualizando, da patronal).

As mulheres negras não costumavam cumprir com os mesmos papéis que os homens nas minas, que eram delimitadas pelo espaço onde os escravos eram monitorados para evitar o contrabando de ouro. As escravas executavam as tarefas domésticas e, algumas alforriadas, trabalhavam com o comércio nas redondezas das minas.

Para refletir o quanto e o quão negativamente a mineração tem impactado a vida das mulheres negras, basta lançar um olhar atento às periferias – geográficas ou não – das mineradoras e entender até onde o machismo, o racismo e a exploração capitalista “permitem” que essas mulheres cheguem. Desconsiderando, é claro, a inexistente meritocracia, é fácil concluir que, por toda a história dos negros e das mulheres no Brasil, as negras hoje integram grande parte “do time dos explorados”, tanto enquanto classe trabalhadora, quanto enquanto desempregadas, artesãs e pequenas comerciantes.

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Às margens dos lucros da mineração estão os operários, mineiros, caminhoneiros, faxineiros, trabalhadores que, com a reforma trabalhista aprovada, sofrerão com as demissões, o aumento da jornada de trabalho, salários ainda mais baixos e condições ainda mais precárias de trabalho. Trabalhadoras grávidas e lactantes que terão que se submeter a trabalhos insalubres, expondo a si mesmas e seus filhos a grandes riscos à saúde. Estão as famílias desses trabalhadores, que costumam ser os provedores da casa, os moradores de cidades inteiras entregues à mineração e dependentes dessa atividade, que monopolizou e inviabilizou outras fontes suficientes de renda, como no subdistrito de Bento Rodrigues, onde a população ainda sofre graves consequências do derramamento da lama da Samarco. Estão também as 44 famílias envolvidas em conflitos por água no Brasil e as comunidades quilombolas, que sofrem com a falta de água, peixes e terras proporcionada pelas mineradoras, os grandes latifundiários e o Estado. Trabalhadoras terceirizadas, professoras, usuários do SUS... a lista dos que não importam pros empresários das mineradoras e os políticos que os enriquecem é vasta.

E as mulheres negras, onde estão? Ocupando os piores cargos, enfrentando a terceirização, os assédios, as demissões e o cúmulo da exploração, o infindável trabalho doméstico e os trabalhos artesanais interrompidos pela crise e pela lama, trabalhando com salários atrasados, enterrando os parentes, aguardando indenizações, buscando fontes de renda em cidades estrangeiras, carregando baldes d’água, escolhendo entre cozinhar ou escovar os dentes, enfim... às margens dos lucros da mineração.

Nas Minas Gerais muitas são as cidades sede de mineradoras. No Brasil são várias multinacionais. Muitas, as maiores do mundo. Quantas são, nas Minas e fora delas, as vidas de mulheres negras atingidas pelos lucros dessa atividade, que enriquece uma casta de milionários às custas de mortes sob a lama, exploração e insalubridade sob baixos salários, “reintegração” de terras quilombolas, escassez de água, submissão a condições desumanas de sobrevivência, confrontos, dentre tantas demais barbaridades capitalistas?




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