sábado 17 de março| Edição do dia

Contendo um variado número de cursos, a UFPB possui uma extensa pluralidade de grupos de mulheres feministas, que representam as professoras sindicalizadas, as mulheres negras, indígenas, lésbicas, bissexuais, transexuais e outras, que discutem e realizam ações voltadas à promoção de melhores condições de trabalho, estudo e vida para as mulheres da instituição. Dentre esses, destacamos o “Fórum de Mulheres da UFPB”, criado em 2017 que agrupa mulheres de todos os campi contra todas as formas de opressões direcionadas às mulheres.

Em abril de 2017, o Fórum de Mulheres promoveu o seminário “Mulheres e Universidade: por uma política institucional de combate às opressões”, que contou com cerca de 180 mulheres estudantes, técnicas administrativas e professoras dos quatro campi universitários, resultando em um relatório entregue à comunidade acadêmica. Organizadas a partir de eixos temáticos, discutiu-se a violência contra as mulheres; assistência estudantil e a garantia de estudo e trabalho para as mulheres, lesbofobia, bifobia e transfobia; trabalho, participação e representação em espaços de poder; mulheres negras e indígenas na universidade.

Tendo como base as discussões e questões levantadas pelas mulheres da UFPB em 2017, verifica-se que esse estabelecimento de ensino, tem sido negligente em relação à construção de uma política própria para as mulheres, que vítimas do machismo institucional vivenciam um alto grau de violência simbólica, configuradas em assédio moral e sexual por parte de professores/funcionários, discentes e seguranças da universidade.

Sempre apresentado como espaço de efervescência política e berço de potencial intervenção social – e olhando para a história, de fato não podemos negar estas características – o ambiente universitário ainda é permeado por comportamentos machistas, reproduzindo relação sociais marcadas por práticas que evidenciam as intolerâncias de gênero, de orientação sexual, de etnia, e outras, que compõem a formação da sociedade brasileira.

A fim de levantar dados ainda mais recentes sobre as problemáticas do machismo nas vivencias das mulheres na universidade, o Pão e Rosas – João Pessoa realizou um formulário visando coletar dados que materializam, e evidenciam, as violências sofridas pelas mulheres no ambiente universitário. O formulário é composto por 13 treze questões que buscam mostrar a perspectiva das mulheres que circulam nos espaços da UFPB, desde funcionárias terceirizadas à professoras e alunas. Aborda aspectos no que diz respeito de como o público universitário feminino se sentem nos quesitos da representatividade e, principalmente, da segurança, da igualdade e respeito dentro do campus.

O resultado final apresentou que 93% das respostas eram das discentes, a maioria de faixa etária entre 18 e 23 anos. Os dados mostram que 43% das mulheres se consideram pardas, 39,9% brancas e apenas 13,3% negras, demonstrando a defasagem do acesso à universidade pelas negras e a necessidade das cotas raciais
Quanto à segurança, 73% afirmaram que não acham a Instituição um ambiente seguro e nem a guarda terceirizada efetiva, sendo o índice ainda maior quando questionadas sobre andar no campus pela noite a maioria gostaria que houvesse uma quantidade superior de mulheres trabalhando como vigias. Além disso, um fator preocupante e problemático é que mais da metade conhecem ou foram vítimas de violência física e/ ou simbólica dentro do espaço universitário.

No entanto, 62% afirmam que não se sentem intimidadas no ambiente acadêmico por ser mulher, mas, infelizmente, já foram constrangidas por olhares sexualizados de professores e/ ou funcionários em geral. Contudo, quando perguntadas sobre a humilhação por parte do machismo – onde no formulário tiveram a opção de uma resposta subjetiva – algumas comentaram que isso não acontece ocasionalmente, porém, outras relatam a respeito do silenciamento que sofrem por homens, colegas de turma ou professores, mostrando o fato de não serem ouvidas ou terem suas opiniões e falas menosprezadas por serem mulheres. Ainda, tivemos contato com comentários sobre o espaço acadêmico ser um local de mais facilidade para os homens, principalmente na área de exatas onde é predominante o sexo masculino.

Outro ponto em que apresenta um déficit na preparação e organização da UFPB para o acolhimento das mulheres, é 77,8% das que tiveram acesso ao formulário responderam sobre a falta de uma ouvidoria eficiente para queixas sobre assédio. Esse dado demonstra a negligência da Instituição em relação às demandas das mulheres que estudam, trabalham e transitam nesse espaço de poder e violências simbólicas.

Com isso, entendemos que o sentimento de desproteção por parte das mulheres, o medo de caminhar sozinha, a ausência de mulheres na segurança, os assédios sofridos em sala de aula, em ambientes de pesquisa, em salas de reuniões e em momentos de fala na UFPB no campus I, são comportamentos e produto do sistema capitalista e patriarcal que ainda vivemos, também representado nos espaços acadêmicos. Este sistema que nos é imposto, o mesmo que nos mata todos os dias, que nos violenta ao sair de casa e que continua nos violentando nas instituições de ensino não corresponde de maneira nenhuma às nossas necessidades e direitos, por isso não nos conformaremos com o mínimo.

Todos esses dados nos mostram mais uma vez a necessidade de legitimar a diversidade de coletivos feministas nas universidades, sejam de diferentes vertentes de pensamento e de atuação, pois são esses grupos que de fato acolhem as mulheres, que as escutam, que auxiliam e dão suporte para a luta diária. Sobrevivendo na estruturação patriarcal da sociedade, a união entre mulheres e entre coletivos feministas é uma das formas mais eficientes para que tenhamos nossas demandas ouvidas e concretizadas.

Nesse sentido, o Pão e Rosas defende e luta por um Plano Nacional de Emergência contra a violência às mulheres que consequentemente também se estenderá aos ambientes acadêmicos. Acreditamos na união entre as mulheres lutando pela emancipação e libertação de toda classe trabalhadora do sistema patriarcal, racista e capitalista que tem nos violentado há séculos. Que tenhamos Março como um mês simbólico que nos sirva como lembrete da nossa luta diária pelo fim da violência contra as mulheres.

Pão e Rosas João Pessoa – Bárbara Costa, Camila Araújo, Paula Veríssimo e Poliana Rodrigues.




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