Gênero e sexualidade

LEGALIZAÇÃO DO ABORTO

Mulheres fazem ato em BH em solidariedade à menina de 10 anos e pelo direito ao aborto

A manifestação aconteceu na tarde desse sábado na Praça da Bandeira, em Belo Horizonte e contou com diversos coletivos de mulheres e também com militantes independentes. Na ocasião entrevistamos Flavia Valle, do grupo de mulheres Pão e Rosas e pré-candidata à vereadora em Contagem.

domingo 30 de agosto| Edição do dia

Na tarde desse sábado, 29, aconteceu na Praça da Bandeira uma manifestação em solidariedade à menina de 10 anos, que engravidou após ter sido estuprada desde os 6 por um familiar. A principal reivindicação defendida por diversos coletivos de mulheres e por militantes independentes foi o direito ao aborto, de forma segura e gratuita, garantido pelo SUS.

No local houve um espaço para falas e também aconteceu uma intervenção, denunciando figuras como Bolsonaro e Damares e instituições como a polícia e o judiciário. Também houve a responsabilização do Estado capitalista pela violência patriarcal e a defesa de que “a culpa não é da menina, nem de onde estava, nem do que vestia”, em resposta aos fundamentalistas religiosos que chamaram-na de assassina no local onde ela estava passando pelo delicado processo do aborto, garantido por lei naquele caso.

Conversamos com Flavia Valle, dirigente do Grupo de Mulheres Pão e Rosas e pré-candidata a vereadora de Contagem pelo MRT em filiação democrática com o PSOL:

Flavia, em sua intervenção você frisou que mulheres como Sara Winter e Damares Alves são inimigas das mulheres...

- Sim, são nossas inimigas por que querem ver mulheres e meninas como essa, de 10 anos de idade, mortas por não termos direito ao nosso próprio corpo. Dizem se preocupar com a integridade das crianças, que supostamente estão sendo doutrinadas por professoras como eu, mas com isso querem proibir a educação sexual nas escolas – o que deixa crianças e adolescentes mais vulneráveis para lidar com casos de abuso – e querem proibir o aborto até nos casos em que ele é garantido por lei.

Apenas desde 2018 foram 32 mil abortos de meninas entre 10 e 14 anos. Para Damares e Sara Winter, e também para Bolsonaro, nesses 32 mil casos eles não deveriam ter sido feitos. Se tivesse sido como querem, quantas dessas meninas teriam morrido levando uma gestação sem condições físicas e psicológicas? É nojento, é uma extrema direita que acha que, como disse o pastor Silas Malafaia, o aborto é mais grave do que o estupro. Mas eles, que têm tanto zelo pelos fetos, estão tão despreocupados com as crianças que essa semana vimos que o relatório do Ministério da Mulher, da Família e de Direitos Humanos oculta dados sobre violações, inclusive a infantil.

Na sua fala você também pediu palmas para as trabalhadoras da saúde e as dos Correios, que estão em greve. Como você acha que esse processo de luta fortalece a luta das mulheres?

As trabalhadoras da saúde estão todos os dias arriscando sua vida para salvar a população, altamente contaminada pelo Coronavírus graças ao negacionismo de Bolsonaro e a negligência de governadores e prefeitos. São elas que permitem que a situação não se torne ainda mais grave do que é, porque Zema foi o governador que menos destinou recursos à saúde, e Bolsonaro mal espera a pandemia passar para atacar profundamente os serviços públicos. Ele, junto a Guedes e a direção dos Correios querem atacar trabalhadores essenciais que durante toda a quarentena garantiram que milhões de entregas chegassem às nossas casas, modificando 70 das 79 claúsulas trabalhistas dessa categoria. Dentre essas modificações estão ataques machistas, como a diminuição do tempo da licença maternidade e do auxílio creche. Ou seja: querem nos obrigar a sermos mães, mas quando somos nos tiram o direito de cuidar dos filhos. Hipócritas.

Mas, para além de o ataque aos Correios ser um ataque machista, uma vitória desses trabalhadores seria uma vitória de todos os trabalhadores e do povo, tratando-se de uma empresa estatal na mira da privatização. Toda luta de trabalhadores deve ser apoiada pelo movimento de mulheres, e vice-versa, porque opressão e exploração são complementares nesse sistema. O machismo, a misoginia de Bolsonaro não são cortina de fumaça, são um reforço da opressão patriarcal para que os patrões lucrem com nossos baixos salários, a gratuidade do trabalho doméstico e nossa alienação de nossos corpos. Por isso pedi palmas para as trabalhadoras, assim como, enquanto professora, sempre batalho em minha categoria e sempre defendo nos espaços de greves de qualquer categoria que as bandeiras do movimento de mulheres também sejam levantadas.

O ministério da saúde publicou na última sexta feira uma portaria que prevê custódia policial para aborto previsto em lei. Como você avalia essa medida de Bolsonaro mesmo após a grande repercussão que tem tido o tema da legalização do aborto nos últimos dias?

- Bolsonaro gostou da ideia da fascista Sara Winter de reunir um grupo de fundamentalistas e ir à porta do hospital onde a menina de 10 anos estava para fazer o traumático procedimento do aborto para chama-la de assassina. Ele quer que os abortos realizados legalmente hoje sejam caso de polícia, para nos intimidar, por que a polícia serve justamente para isso: defender os governos e os patrões enquanto persegue e oprime os trabalhadores, mulheres e, sobretudo, negros e negras. Bolsonaro é uma resposta ultra-direitista à força do movimento de mulheres, que corretamente está defendendo, frente a esse caso escandaloso, a legalização do aborto em todos os casos, pois se trata de um assunto de saúde pública, pois todos os dias morrem 4 mulheres por abortos clandestinos, sendo 3 delas negras.

O que parte dos grupos de mulheres que defendem essa demanda erroneamente não fazem é denunciar que esse direito não foi garantido mesmo com uma mulher na presidência. Dilma e o PT abriram espaço para a Bancada Evangélica e responderam não só aos interesses em primeiro lugar dos capitalistas em seus governos, mas também dos setores mais “reacionários nos costumes”. Isso é muito importante, porque se o movimento de mulheres, os movimentos sociais e partidos de esquerda não tiram as lições da história recente do país e não superam o PT pela esquerda, nem mesmo as demandas mais elementares, como o direito à vida das mulheres, estão garantidas nesse sistema de exploração e opressão. Sobretudo nesse momento de crise econômica e em que o regime brasileiro está extremamente degradado – desde o golpe de 2016, contra o qual também lutei – é indispensável que a nossa estratégia seja confiar nas nossas próprias forças: não nos aliar com nossos inimigos/as e não nos iludir que o direito ao aborto virá pelo Congresso ou pelo Judiciário, que nos castigam com reformas da morte.

Obrigada, Flavia.

O Esquerda Diário está junto ao movimento de mulheres batalhando para legalizar o aborto com luta. Por isso nosso portal está a serviço de construir atividades e manifestações rumo ao dia 28 de Setembro – dia latino americano e caribenho pelo direito ao aborto.

Leia também: Rumo ao 28S, contra Bolsonaro, Sara Winter e o Estado machista: legalizar o aborto com luta




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