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Mulheres à frente da luta pela educação pública no México

O ataque de grupos de choque, enviado pelas autoridades da universidade, em 3 de setembro, provocou indignação de estudantes. A solidariedade das mulheres foi imediata.

sábado 8 de setembro| Edição do dia

Na segunda-feira, 3 de setembro, uma marcha de estudantes do ensino médio aconteceu na Cidade Universitária, ao sul da Cidade do México. Na cerimônia de encerramento em frente à Reitoria, um grupo de choque enviado pelas autoridades (conhecido pelo nome de Porros) chegou para acabar com a manifestação e agredir violentamente os estudantes.

“A nova geração de jovens e estudantes traz consigo lutas combativas de mulheres que lutam por seus direitos contra a violência patriarcal e estatal”

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Entre os participantes estavam Naomi e Joel, alunos da Faculdade de Filosofia e Letras, conhecidos por seus parentes e amigos como ativistas e apoiadores de causas sociais. O casal não hesitou em se juntar à marcha convocada pelos alunos do Colégio de Ciências e Humanidades de Azcapotzalco em defesa da educação pública, pois também pediram justiça a Miranda Mendoza, uma jovem sequestrada e recentemente assassinada, aluna da escola Oriente.

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“A coragem de Naomi salvou a vida de seu companheiro e nos dias seguintes, seu exemplo foi multiplicado por centenas de milhares”

Em pleno ataque dos grupos de choque, Joel foi vítima da brutalidade dessas pessoas que o espancaram até deixá-lo no chão. Seu nariz foi fraturado, uma orelha cortada, ferida de uma arma branca em seu rim, a vida de Joel estava em perigo. Diante de tal ato de barbárie, Naomi não hesitou em confrontar seus agressores e proteger a vida de seu companheiro com a única coisa que ele tinha: seu corpo.

As fotos virais nas redes sociais estão focando: Joel deitado no chão semi-consciente, Naomi o abraçando e gritando de raiva e outro companheiro, correndo para encarar os agressores. Eles também foram espancados e expostos a maiores danos, no entanto, em nenhum momento eles hesitaram em apoiar o companheiro caído.

“Na marcha de mais de 200 mil pessoas puderam ser vistas meninas com o emblemático lenço verde, símbolo da luta pelo aborto legal na América Latina”

A Reitoria e seus grupos de porristas entraram na geração errada. A coragem de Naomi salvou a vida de seu companheiro e nos dias seguintes, seu exemplo multiplicou-se por centenas de milhares. No dia 5 de setembro, jovens e estudantes lotaram as ruas da Cidade Universitária, no que já é considerado a maior mobilização estudantil desde a greve de 1999, onde participaram cerca de 200 mil pessoas.

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Na marcha histórica desta quarta-feira pode-se ver entre os contingentes, garotas com o emblemático lenço verde, símbolo da luta pelo aborto legal e o direito de decidir sobre as mulheres na América Latina. Somado às demandas dos estudantes estava a raiva contra a violência feminicida que atinge os mais jovens com particular ferocidade. Os nomes de Miranda, Lesvy e todas as companheiras assassinadas, desaparecidas e violadas estavam presentes na demanda coletiva por justiça.

A nova geração de jovens e estudantes traz consigo lutas combativas de mulheres que têm feito importantes experiências políticas na luta por seus direitos, contra a violência patriarcal e estatal. Do México à Argentina e ao resto do planeta, as mulheres voltaram às ruas para gritar #NenhumaMenos #VivasNosQueremos #AbortoLegalJa

Esse nascente movimento internacional de mulheres também começa a extrair lições estratégicas de suas lutas e a vislumbrar tanto seus inimigos quanto seus aliados de classe. Um exemplo disso é a recente luta pelo aborto legal na Argentina: depois do 8A aprendemos que o Estado e a Igreja farão todo o possível para negar nossos direitos, manter nossa opressão milenar e, com ela, a escravidão doméstica e assalariada. A partir dessa façanha, também vimos que o potencial de nossa luta é maior se o vincularmos a outros setores e movimentos sociais.

Mulheres, estudantes - e também trabalhadores - somos uma poderosa aliança que pode direcionar a ira dos povos atormentados pela barbárie de nosso tempo. Estamos unidos pela luta pela educação pública gratuita para conquistar o direito de decidir sobre nossos corpos e sobre o futuro que esse maldito sistema capitalista e patriarcal nos tirou. Nossas forças unidas e organizadas são muito mais, podemos realmente mudar tudo.

Hoje, mais do que nunca, devemos lutar pelo nosso direito ao pão e também às rosas!




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