Cultura

A 100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA

Mulheres Combatentes nos dias da Grande Revolução de Outubro

A revolucionária russa Alexandra Kollontai nos relata sobre algumas da centenas de milhares de mulheres que participaram em postos destacados na Revolução Russa de 1917.

quarta-feira 8 de março| Edição do dia

Por Alexandra Kollontai*

As mulheres que tomaram parte na Grande Revolução de Outubro - quem foram? Indivíduos isolados? Não, foram muitíssimas, dezenas, centenas de milhares de heroínas sem nomes quem, marchando ombro a ombro com os trabalhadores e os camponeses sob as bandeiras vermelhas e a consigna dos Soviets, passaram sobre as ruínas da teocracia czarista até um novo futuro...

Se olharmos para o passado, podemos vê-las, estas massas de heroínas sem nome a quem Outubro encontrou vivendo em cidades famélicas, em povos empobrecidos saqueados pela guerra... Um lenço sobre suas cabeças (raramente, ainda, um lenço vermelho) uma saia desgastada, uma jaqueta de inverno remendado...

Jovens e anciãs, trabalhadoras, camponesas esposas de soldados e amas de casas nas cidades pobres. Mais raramente, muito mais raramente nesses dias, mulheres artesãs e profissionais, mulheres cultas e educadas. Mas também haviam mulheres da inteligência entre aqueles que levaram a bandeira vermelha até a vitória de Outubro - professoras, empregadas de escritórios, jovens estudantes de universidades, médicas. Elas marcharam animadas e abnegadamente com um propósito. Iam onde foram enviadas. Ao fronte? Se colocavam um quepe de soldado se transformavam em combatentes do Exército Vermelho [1]. Se punham uma faixa vermelha no braço, então se dirigiam aos postos de primeiros-socorros para ajudar na Frente Vermelha contra Kerensky [2] em Gatchina [3]. Elas trabalhavam nas comunicações do exército. Trabalhavam fervorosamente, transbordando na convicção de que algo crucial estava ocorrendo, e de que todas somos pequenas engrenagens na maquinaria da revolução.

Nos povoados, as camponesas (cujos maridos haviam sido enviados ao fronte) tomaram as terras dos latifundiários e perseguiram a aristocracia para fora das tocas as quais ocuparam por séculos.

Quando se lembram dos feitos de Outubro, não se vem rostos individuais, mas sim massas. Massas sem número, como ondas de humanidade. Mas onde quer que se olhe se vê homens - em reuniões, agrupações, manifestações... [4]

No entanto eles ainda não estão seguros do que exatamente querem, o que procuram, mas sabem de uma coisa: não tolerarão mais a guerra. Nem, tão pouco, querem mais latifundiários e senhores influentes... No ano de 1917, o grande oceano da humanidade empurra e se balança, e uma grande parte deste oceano é composto por mulheres.

Algum dia o historiador escreverá sobre as façanhas destas heroínas anônimas da revolução, que morreram no fronte, que foram baleadas pelos Brancos e suportaram as incontáveis privações dos primeiros anos depois da revolução, mas que continuaram mantendo tremulando, acima do Sol, a Bandeira Vermelha do poder do Soviet e do comunismo.

É diante destas heroínas sem nome, as quais morreram para conquistar uma nova vida para a classe trabalhadora durante a Grande Revolução de Outubro, que a jovem república se inclina em reconhecimento, enquanto seu jovem povo, animoso e entusiasta, se põe a construir as bases do socialismo.

No entanto, deste oceano de cabeças femininas com lenços de cabeça e gorros gastados, inevitavelmente emergiram as figuras destas a quem o historiador dedicará particular atenção quando, dentro de muitos anos, escrever sobre a Grande Revolução de Outubro e seu líder Lênin.

A primeira figura que se destaca é a da fiel companheira de Lênin, Nadežda Konstantinovna Krupskaja [5], levando seu simples vestido cinza e sempre se propondo a permanecer em segundo plano. Ela percorria sem ser notada em uma reunião e se posicionava atrás de uma coluna, mas via e ouvia tudo, observando atenciosamente tudo o que acontecia para poder depois dar um informe detalhado a Vladimir Ilyich, acrescentado com seus acertados comentários e dando luz sobre alguma sensível, pertinente e útil ideia.


Nadežda Konstantinovna Krupskaja

Nesses dias Nadežda Konstantinovna não falava nas numerosas e tumultuosas assembleias nas quais discutíamos ao redor da grande questão: Ganhariam os Soviets o poder ou não? No entanto, ela trabalhava incansavelmente como a mão direita de Vladimir Ilyich, as vezes fazendo um breve porém informativo comentário nas assembleias do partido. Nos momentos de maiores dificuldades e perigos, quando muitos camaradas mais fortes se desencorajavam e sucumbiam frente a dúvida, Nadežda Konstantinovna sempre permaneceu inabalável, totalmente convencida da justeza de sua causa e certa de sua vitória. Irradiava uma fé inquebrável, este espírito obstinado se ocultada por traz de uma modéstia que poucos tiveram oportunidade de ver igual, e sempre que tinha um efeito esperançoso sobre todo aquele que entrava em contato com a companheira do grande líder da Revolução de Outubro.

Outra figura emerge - a de outra fiel companheira de Vladimir Ilyich, uma camarada de armas durante os dificeis anos de trabalho clandestino, secretária do Comitê Central do Partido, Elena Dmitrievna Stassova [6]. Uma clara, intelectual, precisa e excepcional capacidade para o trabalho; uma rara habilidade para indicar a pessoa correta para o trabalho. Sua alta, escultural figura poderia ser vista primeiro no Soviet do palácio Tavrichesky [7], após na casa de Kshesinskaya [8], e finalmente no Smolny [9]. Em suas mãos sempre mantinha um caderno de anotações, enquanto ao seu redor, seus camaradas de imprensa do fronte, operários, Guardas Vermelhos, trabalhadoras, membros do partido e dos Soviets, buscavam uma resposta ou ordem clara e rápida.


Elena Dmitrievna Stassova

Stassova era responsável de vários assuntos importantes, mas se um camarada enfrentava necessidades ou angustias naqueles dias tormentosos ela sempre respondia dando uma breve e aparentemente seca frase, mas fazendo ela mesma tudo o que podia. Estava sobrecarregada de trabalho, e sempre em seu posto. Sempre em seu posto e, ao mesmo tempo, nunca se esforçando para chamar a atenção para si. Não lhe agradava ser o centro das atenções. Suas preocupações não eram para com ela mesma, mas sim para a causa.

Pela nobre e querida causa do comunismo, Elena Stassova sofreu o exílio e a prisão nos cárceres czaristas, e sua saúde ficou debilitada... Em nome da causa ela se tornou evasiva, tão dura como aço. Mas no que se refere aos sofrimentos de seus camaradas, desprendia uma sensibilidade e receptividade que somente se encontravam em uma mulher com um coração quente e nobre.

Klavdia Nikolaeva era uma operária de origem muito humilde. Ela se uniu aos bolcheviques muito cedo em 1908, nos anos da reação, e havia suportado o exílio e a prisão... Em 1917 regressou a Leningrado e se tornou o coração da primeira revista para mulheres trabalhadoras, Kommunistka. Era ainda jovem, cheia de energia e impaciência. Manteve suas convicções com firmeza, e com audácia declarou que as trabalhadoras, as esposas de soldados e as camponesas deviam ser atraídas pelo partido. Mulheres, ao trabalho! A defesa dos Soviets e do comunismo!

Ela falava nas reuniões, ainda nervosa e insegura de si, mas convencia outros a segui-la. Era uma daquelas que sustentavam sobre seus ombros todas as dificuldades implícitas na preparação do caminho para a ampla participação massiva das mulheres na revolução e ao mesmo tempo para a emancipação das mulheres. Os nomes de Klavdia Nikolaeva e Konkordia Samoilova, quem morreu de cólera em seu posto revolucionário em 1921, estão ligados de forma indissolúvel com os primeiros e mais difíceis passos tomados pelo movimento de mulheres trabalhadoras, particularmente em Leningrado. Konkordia Samoilova foi uma trabalhadora do partido de uma generosidade sem paralelos, uma magnífica e metódica oradora que sabia como ganhar os corações das trabalhadoras. Aquelas que trabalharam ao seu lado lembrarão por muito tempo de Konkordia Samoilova. Era simples em seus modos, em sua vestimenta, demandante de execução rigorosa das decisões tanto consigo mesmo como com os outros.

Particularmente impactante é a figura de Inessa Armand, quem foi encarregada de um trabalho partidário muito importante de preparação da Revolução de Outubro, e quem contribuiu com muitas ideias criativas para o trabalho levado adiante entre as mulheres. Com toda sua feminilidade e gentileza de modos, Inessa Armand era inabalável em suas convicções e capaz de defender o que cria ser correto; inclusive quando enfrentava grandes oponentes. Após a revolução, Inessa Armand se dedicou totalmente a organização do amplo movimento de mulheres trabalhadoras e a conferência de delegadas é sua criação.

Um enorme trabalho foi realizado por Varvara Nikolayevna Yakovleva [10] durante os difíceis e decisivos dias da Revolução de Outubro em Moscou. No campo de batalha das barricadas ela mostrou uma resolução digna de uma líder de quartel do partido... Vários camaradas disseram então que sua resolução e firme coragem deram valor aos duvidosos e inspiraram aqueles que haviam perdido as esperanças. "Adiante!" - até a vitória.

Enquanto constrói a memória das mulheres que foram parte da Grande Revolução de Outubro, mais e mais nomes e rostos se levantam como que por arte de magia da memória. Poderíamos deixar de honrar hoje a memória de Vera Slutskaya, quem trabalhou abnegadamente na preparação da revolução e foi baleada pelos Cossacos no primeiro fronte Vermelho próximo de Petrogrado?

Poderíamos esquecer de Yevgenia Bosch, com seu temperamento apaixonado, sempre pronto para batalha? Também ela morreu em seu posto revolucionário.

Poderíamos omitir de mencionar aqui os nomes intimamente ligados com a vida e a atividade de V.I. Lenin - suas duas irmãs e camaradas de armas Anna Ilyinichna Yelizanova [11] e Maria Ilyinichna Ulyanova?


Anna Ilyinichna Yelizanova

E a camarada Varya, das estações ferroviárias em Moscou, sempre vivaz, sempre com pressa? E Fyodorova, a trabalhadora têxtil em Leningrado, com seu agradável rosto sorridente e seu destemor quando lutou nas barricadas? É impossível enumerar todas, e quantas permanecem sem nome? As heroínas da Revolução de Outubro foram um exército completo, e ainda que seus nomes possam ser esquecidos, sua entrega vive na mesma vitória dessa revolução, em todas as conquistas e lucros que agora desfrutam as mulheres trabalhadoras na União Soviética.

É um fato claro e incontestável que, sem a participação das mulheres, a Revolução de Outubro não poderia ter trazido a Bandeira Vermelha e a vitória. Glória as trabalhadoras que marcharam sob essa Bandeira Vermelha durante a Revolução de Outubro! Glória a Revolução de Outubro que libertou as mulheres!

Notas:

*Alexandra Kollontai (1872-1952), intelectual, filha de um general. Membro do partido socialdemocrata russo desde 1899, bolchevique primeiro e menchevique depois até 1915, momento em que volta as fileiras bolcheviques. Emigra aos EUA durante a guerra e retorna a Rússia durante a revolução, ocupando altos postos de governo.
[1] O Exército Vermelho foi criado pelo Estado operário para a defesa da Revolução.
[2] Kerensky, Alexander (1881-1970): social-revolucionário russo. Depois da Revolução de Fevereiro foi Ministro de Justiça, Guerra e Marinha e finalmente, chefe do Governo Provisório desde julho até a Revolução de Outubro. Em 1918 vai para o estrangeiro.
[3] Palácio de Gatchina, ao sul de Petrogrado.
[4] Quiçá a autora do artigo se referia a que é mais visível e lembrada a participação dos homens na revolução que das mulheres.
[5] Nadežda Krupskaja: nasceu em São Petersburgo em 1869, e enquanto estudava no Colégio de Mulheres se juntou a um circulo marxista e se formou junto a trabalhadores nas ideias socialistas. Aos 25 anos se casou com Lênin. Pouco depois, foi presa por suas atividades revolucionárias e, junto com o dirigente bolchevique, foi enviada ao exílio, onde escreveu seu primeiro livro, A Mulher Trabalhadora. Quando a revolução se incendiou em 1905 voltou a Rússia como secretária do Comitê Central do Partido Bolchevique. Em 1914, participou da redação do jornal Rabotnitsa (A operária), e em 1915 integrou a delegação russa à IIIª Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, organizada por Clara Zetkin, que se pronunciou contra a guerra imperialista. Com seus conhecimentos sobre educação colaborou na Revolução Russa de 1917; apenas quando tomado o poder foi nomeada Comissária de Educação, um cargo equivalente ao de ministro. Nesta função promulgo as leis educacionais no novo Estado Operári, propiciou as campanhas de alfabetização, pôs em pé numerosas instituições culturais e desenvolveu estudos, técnicas e aplicação de conservação e aprimoração das Bibliotecas.
[6] Elena Dmitrievna Stassova (1873-1966). Uniu-se as fileiras do partido socialdemocrata russo em 1898. Como secretária pessoal de Lênin, foi exilada na Sibéria entre 1913-1916.
[7] Palácio Taurina, em São Petersburgo.
[8] Matilde Kshesinskaya foi uma famosa bailarina amante do último czar. Durante a revolução, as massas insurrectas tomaram seu palácio.
[9] O Instituto Smolny era um antigo colégio aristocrático de senhoritas, transformado em centro de operações da insurreição.
[10] Varvara Nikolayevna Yakovleva (1884-1944?) Antiga militante bolchevique, se uniu ao partido em 1904. Durante a discussão sobre os sindicatos (1920-21) apoiou Bukharin. Em 1923 foi uma das firmantes da Carta dos 46, em outubro de 1923, apoiando o programa de democratização do partido desenvolvido por Trotsky. Após o Terceiro Julgamento de Moscou, em 1937, foi sentenciada a 20 anos de prisão. Acredita-se que foi fuzilada em 1941 ou em 1944.
[11] Anna Ilyinichna Yelizarova: (1864-1935) Membro do conselho editorial do jornal Rabotnitsa (A operária).




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