SEMANÁRIO

Mudar a vida, transformar o mundo: o movimento estudantil francês em 68

Odete Cristina

Vitória Camargo

Foto: internet

Mudar a vida, transformar o mundo: o movimento estudantil francês em 68

Odete Cristina

Vitória Camargo

Por que retomar as lições do movimento estudantil francês em 68? Ao contrário daqueles que tentam esvaziar todo o conteúdo revolucionário e subversivo desse processo, para nós, retomar seu significado profundo, entender como foi forjada a aliança entre o movimento estudantil e os trabalhadores para abalar o regime capitalista, analisar os motivos de sua derrota e tirar lições é parte fundamental de se pensar os desafios do movimento estudantil hoje.

Na França, o boom do pós-Guerra e o período conhecido como “trinta anos gloriosos” [1] Essas décadas de prosperidade econômica combinaram alta produtividade com altos salários da classe média e alto consumo, também foram caracterizados por um sistema altamente desenvolvido de benefícios sociais. permitiram novos níveis de acumulação do capital e possibilitaram a expansão das universidades. Em 1968, esse ciclo econômico está entrando em decadência, sinalizando a nova crise capitalista que viria poucos anos mais tarde. Assim, o Maio francês tem como estopim nacional as tentativas de aprovação das reformas da previdência e do ensino pelo regime bonapartista de De Gaulle, buscando atacar a aposentadoria dos trabalhadores, elitizar as universidades e cercear as liberdades políticas dos secundaristas nas escolas. Essas medidas ajustadoras do governo francês deparam-se com um movimento estudantil que internacionalmente se incendeia pelo anti-imperialismo e se enfrenta com pilares da exploração capitalista.

De norte a sul, de oeste a leste do mundo, a juventude se levanta contra o imperialismo, simbolizado na Guerra do Vietnã, e na Ordem de Yalta, reivindicando “socialismo e liberdades democráticas” no seio dos regimes estalinistas monolíticos do leste europeu. Em vários campi nas universidades, ganham corpo protestos estudantis. Gerações que se viram “recrutadas” a combater em sanguinários processos imperialistas, como os franceses em nome dos interesses dos “pieds-noirs” na Argélia, passam a contestar a acumulação capitalista que tem em uma de suas bases a espoliação desses povos e a ligar-se às lutas por libertação nacional. Em Berkeley, nos EUA, desde 1964 reivindica-se liberdade de expressão contra a Guerra nas universidades. Na Polônia e na Tchecoslováquia, as burocracias dos PCs reprimem o enfrentamento ao regime estalinista. No Oriente Médio, o ano de 1967 é marcado pela Guerra dos Seis Dias e o avanço do imperialismo sionista de Israel sobre o povo palestino. Enquanto isso, intensifica-se a luta negra, tendo como marco o assassinato de Martin Luther King em 1968. Essa é a efervescência internacional que faz eco no movimento estudantil e operário francês e marca um novo ascenso na luta de classes internacional.

Filha da expansão do contingente de estudantes nas universidades francesas, historicamente fundadas para as elites europeias, essa juventude traz à tona contestações que, partindo do combate à estrutura universitária, trazem elementos que questionam a produção e exploração capitalistas. Nesse sentido, em meio à decadência dos anos gloriosos, os estudantes franceses colocam em questão a serventia de seus diplomas: não apenas se encontrarão espaço e empregos no sistema produtivo francês, mas a serviço de quem seus conhecimentos estarão. Desse modo, em distintas áreas, afirmam que a ciência não é neutra, mas concebida na sociedade de classes.

As Ciências Sociais, a Economia, o desenvolvimento de tecnologias, os métodos de pesquisa, supostamente objetivos, voltados para a exploração burguesa, são postos em xeque. Nos marcos da luta anti-imperialista, essa juventude contesta o conhecimento bélico que servirá a empreendimentos sanguinários nas intervenções na África e na Ásia; as teorias econômicas que justificam e maximizam a exploração dos trabalhadores nas fábricas, aos moldes do fordismo; as ciências sociais positivistas que mascaram a sociedade de classes; e a pedagogia autoritária em sala de aula, que busca calar esses debates.

Com boicotes e intervenções contrárias ao conteúdo das disciplinas e propostas de “contracursos” [2] e ensino paralelo, clama-se para que a ciência das grandes universidades francesas esteja a serviço de compreender e solucionar as contradições sociais do sistema, contra qualquer abstração que, acrítica e distante da prática, era então recuperada pela burguesia para manter, reforçar e incrementar a ordem capitalista, defendendo não só “a Sorbonne para os estudantes” [3], mas também “a Sorbonne para os trabalhadores” [4].

O Movimento 22 Março

Nesse contexto, em 20 de março, ativistas são presos pela polícia durante um ato contra a intervenção estadunidense no Vietnã, após quebrarem as vidraças do banco American Express em Paris. Como protesto contra a detenção de seus companheiros de luta, em 22 de março, estudantes da Nanterre ocupam as alas administrativas da universidade à noite. Nasce assim, o “Movimento 22 de Março”, agrupando distintos setores da vanguarda universitária de Paris, junto a setores de esquerda, anarquistas, trotskistas e maoístas. Daniel Cohn-Bendit é um de seus principais dirigentes. Diante da forte repressão das autoridades universitárias e políticas, a resposta dos estudantes foi massificar e nacionalizar o movimento. No dia 4 de abril o governo decide que não iria recuar com seus ataques e impõe as tão rechaçadas reformas universitárias. Seguem diversas greves operárias e mobilizações estudantis ao longo desse mês.
Maio começa com milhares saindo às ruas no maior Primeiro de Maio das últimas décadas. No dia seguinte, novas jornadas estudantis acontecem em Nanterre, contra os ataques fascistas à Sorbonne. Diante disso, o reitor traz a polícia para a universidade e, após muita repressão, Nanterre é fechada. Oito estudantes são obrigados a se apresentar às autoridades da Sorbonne na capital. No dia 3 de maio, centenas de estudantes se reúnem em solidariedade aos “8 de Nanterre”, e, a pedido da reitoria, a polícia começa a deter os manifestantes. Os estudantes saem novamente às ruas. Nos dias 3 e 4, novamente a repressão policial toma as ruas do bairro Latino contra as mobilizações, e mais estudantes são detidos. [5]

A força da aliança operário-estudantil

Para entender a grandeza desse movimento e da poderosa aliança forjada entre estudantes e trabalhadores, precisamos retomar as características específicas do movimento estudantil francês naquele momento. A principal entidade estudantil, a União Nacional dos Estudantes Franceses (UNEF), estava em crise e já não era mais controlada pela burocracia do Partido Comunista Francês. A superação das burocracias que controlavam o movimento nos períodos anteriores foi fundamental para que a vanguarda estudantil pudesse atuar como caixa de ressonância das contradições sociais do capitalismo francês.

No dia 6 de maio, os estudantes processados demonstram que não aceitariam a repressão e criminalização. Mesmo com o bairro Latino ocupado pela polícia e a Sorbonne completamente fechada, centenas de estudantes marcham naquele dia, enfrentando-se com a repressão policial. À tarde, estudantes secundaristas começam a se somar nas manifestações, enquanto o movimento se estende para o interior do país. A repressão brutal, com mais de 500 feridos e 400 detidos, fez com que o movimento se transformasse num problema político nacional. Enquanto as principais universidades de Paris estão em greve, 4 mil jovens operários marcham junto aos estudantes em Lyon; em Dyjon, as centrais sindicais se veem obrigadas a chamar os trabalhadores a se mobilizarem. Os estudantes impõem aos sindicatos a unidade na ação.

Esse embrião da aliança operária-estudantil vai ganhando força em todo país. Temendo o potencial explosivo dessa aliança, o Partido Comunista Francês (PCF), sob orientação stalinista, que detinha um enorme controle e prestígio entre os batalhões da classe operária, faz de tudo para separar dos trabalhadores a vanguarda do movimento estudantil. Como parte dessa operação, o porta voz do partido George Marchais, publica em seu jornal “L’Humanité” um artigo contra os setores mais radicalizados do movimento estudantil, chamando-os de “esquerdistas”. Conforme relata Daniel Bensaid:
“O PC alimentou, portanto, um discurso e um sentimento de desconfiança contra os estudantes pequeno-burgueses, sob a alegação do risco de provocação policial, de manipulação, munido, enfim, de toda uma visão policial do complô. De um lado, a direita e a burguesia falavam de um complô internacional, que envolvia os anarquistas, os esquerdistas e até mesmo a União soviética, de acordo com uma espécie de mitologia do complô. O PC, por sua vez, falava também de um complô esquerdista, manipulado pelo poder” [6]

Apesar dessa operação ideológica do PCF e também da burguesia, o enfrentamento e radicalização dos estudantes, frente à repressão policial de De Gaulle, impactam os trabalhadores e jovens operários.

“A noite das barricas” e o avanço das mobilizações

O campus de Nanterre foi reaberto no dia 10 de maio; em nova marcha pela capital francesa o movimento defende a necessidade de ocupação do bairro Latino contra a presença da polícia. Assim, Paris foi tomada por mais de 60 barricadas, entrando para história como a famosa “Noite das Barricadas”. Temendo a força da unidade que estava se mostrando entre estudantes e trabalhadores, os dirigentes das principais centrais sindicais do país resolveram se antever, frente ao enorme clima de solidariedade que existia nas fábricas, chamando antes que a base impusesse de baixo para cima uma greve geral para o dia 13 de maio. Nesse dia, enormes manifestações, com forte composição operária, tomaram as ruas das principais cidades do país. Centenas de milhares de estudantes e secundaristas mobilizados pelo país gritam “Fora De Gaulle”, entre outras reivindicações abertamente políticas. Paris se torna o cenário da maior mobilização de massas desde o final da II Guerra, com uma marcha de um milhão de pessoas. A Sorbonne é ocupada pelos estudantes. Aprofunda-se a onda de greves operárias e estudantis que abalaram profundamente o regime capitalista francês [7].

Temendo perder o controle da situação, o governo gaullista avança na repressão e tenta jogar a opinião pública contra os estudantes e operários, como se fossem “baderneiros”, ao mesmo tempo em que as burocracias estalinistas, por meio do PCF e dos sindicatos que dirigem, tentam a todo custo impedir uma maior confluência entre estudantes e trabalhadores. A falta de estratégia fez com que nenhum setor da esquerda, sequer apontasse para uma saída de fato, deixando o caminho aberto para os estalinistas negociarem uma saída de conciliação de classes, em nome da estabilidade do regime burguês.

No dia 20 de maio, quase todo país está em greve. O dia 22 marca o auge das mobilizações. Durante os próximos dias, até o dia 26, são realizadas mais de cem grandes manifestações operárias e estudantis em toda a França. De Gaulle não sabia mais o que fazer frente à força das mobilizações. No dia 24 de março, anuncia a proposta de um referendo para dali três semanas sobre a reforma previdenciária e universitária. Logo após seu discurso, uma nova explosão de revolta toma conta das ruas francesas, com uma nova noite das barricadas.

Após o rechaço aos acordos firmados entre governo, empresários e as burocracias, com algumas concessões aos trabalhadores para passivização. As burocracias sindicais se valem de todos os recursos possíveis para conter as mobilizações, impedindo conscientemente a aliança com os estudantes, burocratizando ainda mais os comitês de fábricas e dividindo os trabalhadores. Com isso, trocam as ruas pelas eleições - o que deixou De Gaulle com mais força para dissolver o parlamento, anunciando eleições legislativas para junho, com marchas da direita em seu apoio. Aos poucos, as fábricas voltam ao trabalho e o movimento estudantil reflui diante da brutal repressão, da traição das burocracias estalinistas e da falta de uma estratégia capaz de levar os estudantes e trabalhadores à vitória definitiva.

As lições de 68

Ao contrário do que defende Daniel Cohn-Bendit [8], hoje deputado de um partido burguês no parlamento europeu, ao afirmar que “o espírito de 68 é um desejo de liberdade” para reforçar suas conclusões de que “hoje em dia, nós queremos conquistar segurança” e que “comparar as duas épocas parece enganoso”, para nós, retomar as lições do movimento estudantil francês em 68 é fundamental para se pensar nossos desafios. Aquilo que Michael Löwy denominou como “o romantismo revolucionário de Maio de 68” foi na verdade a potencialidade explosiva de um movimento estudantil que se aliou aos trabalhadores, único sujeito que pode emancipar a sociedade.

Não é por acaso que a burguesia, de distintas maneiras, tenta apropriar-se de 68 para demonizá-lo ou mesmo esvaziar seu conteúdo anti-imperialista e anticapitalista. Por um lado, políticos burgueses como Sarkozy atribuem todos os males da sociedade francesa a 1968 e buscam, assim, estabelecer uma ordem favorável a seus ataques. Por outro, distintos setores intelectuais pintam o movimento estudantil de 68 como descolado das maiores greves operárias da história da França. Quando, justamente pelo fato do movimento estudantil ter sido, em boa medida, caixa de ressonância da mais poderosa intervenção operária do pós-guerra é que pôde alcançar os níveis de radicalização, de combate de rua, de disposição revolucionária e anti-imperialista que a França jamais vira; e inclusive com aquele conteúdo lírico, de “exigir o impossível”, de lutar contra a “miséria do possível”, de clamar, nas paredes das universidades, por “Todo poder aos conselhos operários”, que “A poesia está nas ruas”, que “O direito a viver não se mendiga, se toma”, ou que “A barricada fecha a rua, mas abre o caminho”.

Esses são gritos que até hoje ecoam em todas as gerações de jovens que lutam. Por essa mesma razão é que não se pode falar da potência do maio de 68 sem levar em conta sua mais poderosa alavanca material e força de inspiração épica: a impressionante confluência operário-estudantil, esta sim, uma grande lição daquele maio, um movimento que só não se impôs, para derrotar o imperialismo francês, pela falta de uma direção de massas revolucionária e antiburocrática capaz de não separar a luta econômica da luta política, pelo poder.

Ver, 50 anos depois, a explosão operária-estudantil de mobilizações e greves contra as reformas de Emmanuel Macron, é a prova de que a chama do maio francês segue viva, como uma faísca pronta para incendiar o mundo novamente. Reivindicamos o legado de 68 como parte da história de luta da nossa classe. Queremos a partir de suas conclusões batalhar para que hoje, no Brasil, nos marcos do avanço do golpe, que ataca a vida e o futuro de estudantes e trabalhadores, possamos construir um movimento estudantil subversivo e antiburocrático, que busque se aliar com os trabalhadores para abalar as estruturas desse regime capitalista decadente, a partir das lições estratégicas desse processo. Um movimento estudantil que se proponha, assim como os jovens franceses, a mudar a vida, a transformar o mundo, para “exigir o impossível”.

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FOOTNOTES

[1O período 1945-1975 ficou conhecido como os 30 anos gloriosos do capitalismo, marcando uma fase de forte crescimento econômico na maioria dos países desenvolvidos, que trouxe grandes transformações econômicas e sociais marcando a passagem da europa, especialmente da França a “sociedade do consumo”.

[2Michel Thiollent, Maio de 1968 em Paris: testemunho de um estudante. Tempo social, v. 10, n. 2, p. 63-100, 1998.

[3Consignas presentes no documento “Informe das atividades nº1”, distribuído pelos estudantes em 19 de maio, na página 263 do livro Cuando obreros y estudiantes desafiaron al poder. Reflexiones y documentos. Buenos Aires: IPS. 2008. Selecionado por G. Liszt, J-B Thomas, G Gutiérrez.

[4Idem

[5As informações históricas presentes nesse artigo são baseadas no livro Cuando obreros y estudiantes desafiaron al poder. Reflexiones y documentos. Buenos Aires: IPS. 2008. Selecionado por G. Liszt, J-B Thomas, G Gutiérrez.

[6“Uma página na história mundial de lutas”, entrevista com Daniel Bensaid, 2 de junho de 2008, disponível in: http://www.danielbensaid.org/Uma-pagina-na-historia-mundial-de-lutas

[7Para saber mais sobre as greves do movimento operário francês, ler o artigo de Gilson Dantas, “Maio de 1968 na França: um legado em disputa”, presente nessa edição da revista Ideias de Esquerda.

[8Trechos da retirados da entrevista realizada pelo portal G1 em 15 de abril de 2008, disponível in: http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL402392-5602,00-PARA+DANIEL+COHNBENDIT+MAIO+DE+FOI+UM+MOMENTO+DE+CONQUISTA+DE+LIBERDADES.html

Odete Cristina

estudante de ciências sociais na USP

Vitória Camargo

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