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Mourão: em pele de cordeiro liderando o desmatamento na Amazônia

As taxas de desmatamento, que já eram altas nos anos de Governo do PT, aumentaram significativamente no Governo Bolsonaro. Este aumento está ligado ao aprofundamento ideológico e material do governo, sobretudo dos militares, em relação aos setores do Agronegócio, que aproveitam a crise para “passar a boiada”. Mais recentemente o governo tem adotado um discurso mais brando em relação a Amazônia, falando inclusive em “desenvolvimento sustentável”, como interpretar essa mudança de atitude frente a Amazônia?

sexta-feira 24 de julho| Edição do dia

Não é surpresa para ninguém a relação entre Governo Bolsonaro e agronegócio, sendo a segunda desde as eleições uma base importante de sustentação do primeiro. Da fraseologia ofensiva de Bolsonaro ou Salles em que havia um incentivo claro de desmatamento desenfreado, que levou a um aumento pelo 14º mês consecutivo do desmatamento em junho, o maior registrado para o mês nos últimos cinco anos, hoje, na temporária e instável trégua do bolsonarismo com a oposição de direita, liderada pelo STF, o discurso passa a uma espécie de defesa de um “desenvolvimento sustentável” na Amazônia.

Isto ocorre porque o Governo, para satisfazer os interesses de uma parcela do agronegócio, quer recompor a imagem do Brasil em relação a Amazônia, que a partir do ano passado, com o aumento progressivo das queimadas, foi bem desgastada. Desde 2019, há uma forte pressão da opinião pública internacional em relação à preservação da Amazônia, tendo a Alemanha e a Noruega bloqueado um valor de 133 milhões de reais que davam para o Fundo da Amazônia, além de pressões vindas de investidores de países imperialistas. Na semana passada, repercutiu na mídia alemã um estudo publicado na revista científica Science que liga 20% das exportações de soja e carne para a União Europeia a áreas de desmatamento, este estudo corroborou para um aumento da pressão internacional.

Também tem aumentado a pressão interna, tendo na semana passada um grupo de 17 ex-ministros da Fazenda e do BC apresentado uma carta pressionando o desmatamento zero. Como um dos resultados destas pressões, no dia 16 deste mês, o governo federal proibiu por 120 dias as queimadas para fins agrícolas no país, medida que, por mais que seja demagógica e não realizada na prática, é um tipo de resposta e mudança de postura do governo em certa medida.

Em abril deste ano foi criado o “Conselho da Amazônia”, chefiado por Mourão, composto por Ministros reacionários, como Ricardo Salles e Tereza Cristina, e 19 militares, sem a participação de representantes do Ibama e da Funai (Fundação Nacional do Índio), órgãos que foram escanteados e enxutos pelo Governo Bolsonaro. Este conselho se reuniu pela segunda vez na quarta-feira passada (15), onde Mourão afirmou “estar comprometido com atividades sustentáveis na Amazônia”.

No ano passado, houve entre agosto e outubro, a primeira GLO na Amazônia, que tinha por objetivo, já naquela época tentar desvincular o tratamento dado ao combate ao desmatamento com a figura de Bolsonaro, tentando associar a este “combate” a imagem do general Mourão, ex-comandante da 2ª Brigada de Infantaria de Selva, em São Gabriel da Cachoeira, Amazonas, que seria uma figura mais “racional” e “comedida”. A “Operação Verde Brasil”, como foi chamada esta GLO, voltou em maio deste ano, tendo sido recentemente prorrogada até novembro, com Mourão fazendo declarações de que se necessário, a operação das forças armadas ficará lá até o final de 2022, revelando que o profundo interesse que os militares têm no controle daquela região.

O governo, e os militares em especial, têm promovido políticas de obras públicas que beneficiam o agronegócio e o próprio exército. O governo de Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão, liberou no início mês passado, um bilhão de reais para contratações do exército para tocar obras públicas, através de projetos que já estão em execução. O Ministério da Infraestrutura é o maior responsável pelos empreendimentos, estes que serão atendidos pelo Departamento de Engenharia do Exército, mas no qual o Ministério do Desenvolvimento Regional também se tornou um cliente dos militares.
Dados divulgados pela Folha mostram que a maioria dos contratos está voltado a obras em rodovias nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Estas obras são muito funcionais ao agronegócio, ajudando no escoamento dos grãos de soja produzidos no Centro-Oeste pelos portos do Norte. São ao menos seis projetos fechados pelo ministério da Infraestrutura, de Tarcísio Freitas, e alguns destes vêm de governos anteriores, o que releva que a relação profunda entre governo e agronegócio, por mais que não tão profunda e intima quanto hoje, já vem de tempos passados, sendo uma das heranças nefastas do Petismo.

Para coroar mudança de posição do Governo, de um discurso e ação mais ofensivos em relação ao desmatamento para um discurso de “desenvolvimento sustentável”, Mourão se reuniu ontem com os presidentes dos 3 maiores bancos do país. Os banqueiros apresentaram um plano de ações voltadas ao desenvolvimento sustentável da Amazônia, que tinham como frentes prioritárias a “conservação ambiental, o investimento em infraestruturas sustentáveis e a garantia dos direitos básicos da população da região amazônica”.

Sabemos que nem Mourão, nem outros ministros de Bolsonaro, nem os banqueiros, nem o Agronegócio, se importam de fato com a preservação da Amazônia, tampouco com a vida dos povos indígenas, a única coisa que lhes interessa é a preservação e aumento de seus lucros. O agronegócio em específico é um dos maiores herdeiros e continuadores da visão histórica legada pela nossa classe dominante colonial, que era escravagista e racista. Os militares também são um setor herdeiro do projeto colonial, querendo concluir o que este projeto não conseguiu em relação aos povos originários, que é uma total aniquilação ou aculturação destes povos, tendo Bolsonaro vetado água potável, cestas básicas, materiais de higiene aos povos indígenas durante a pandemia, leitos hospitalares e de UTI nas aldeias, também ventiladores e máquinas de oxigenação. Mourão naturalizou e minimizou esses vetos, afirmando que “indígena se abastece dos rios”, além de ter dito que o coronavírus não chega às aldeias, sendo que há dados alarmantes sobre as infecções e mortes entre os indígenas.

O aumento do desmatamento, do descaso em relação aos povos originários e de boa parcela da população da Amazônia Legal, além da maior conjuração de interesses do agronegócio com militares, que no governo Bolsonaro se transforma em incontáveis benefícios materiais para estes dois setores, são mudanças qualitativas no regime político brasileiro, mostrando a degradação que este vem sofrendo, no marco da democracia, já rebaixada, estabelecida pela constituição de 88. É necessário que defendamos não apenas o Fora Bolsonaro, como o Fora Bolsonaro e Mourão, questionando o regime de conjunto, pois não há nenhum setor institucional que defenda os interesses dos trabalhadores, no marco de governadores, que ontem se postulavam como oposição a Bolsonaro, hoje defendendo reaberturas absurdas, e estando de mãos dadas com o Governo no que diz respeito a descarregar a crise nas costas da população mais pobre e negra.

Esses mesmos opositores de direita a Bolsonaro, também não serão os que defenderão os povos indígenas atacados pela política do governo. Pelo contrário, muitos também compões as bancadas da Bala e do Boi, que defendem historicamente os interesses dos setores do agronegócio que querem avançar contra terras demarcadas.

Por isso, mais do que nunca, não podemos nos iludir com "frentes amplas", nas quais a esquerda abre os braços para receber velhos inimigos de classe, mas que defendem os mesmos ataques de sempre, como infelizmente vemos o PSOL participando. Precisamos de uma alternativa independente, que parta de mudar muito mais do que apenas os jogadores com uma nova eleição, o que abra espaço para que Mourão e seus interesses sádicos com a Amazônia se fortaleçam ainda mais, como um impeachment. Mudar as regras do jogo são parte desse caminho, com os trabalhadores à frente de decidir os rumos do país, a partir de uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, que questione todo esse regime que vivemos, que desenvolvemos aqui.




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