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BOLÍVIA

Morrer na rua: colapso sanitário e crise política na Bolívia

Nos últimos dias, ao menos 10 pessoas morreram pela COVID-19 nas ruas. Os centros de saúde estão lotados. Os hospitais El Tórax de Lá Paz e o Holandês de El Alto fecharam suas portas devido à explosão de contaminação entre enfermeiras e médicos por falta de equipamentos de biossegurança. Os cemitérios e crematórios também começaram a colapsar. Enquanto isso, funcionários do governo golpista enriquecem com a administração da pandemia.

quinta-feira 18 de junho| Edição do dia

A crise sócio-sanitária na Bolívia já está sobrecarregada, e a situação é dramática. Os golpistas se vangloriam de impor uma quarentena dura e militarizada desde o início da pandemia e, quando decidiram começar a tornar a medida mais flexível, a curva de contágio deu um salto, e, hoje, os dados oficiais relatam quase 20 mil casos confirmados.

A seriedade da situação começou a se tornar visível porque, nos últimos dias, houveram 10 casos de pessoas que morreram nas ruas da COVID-19. Muitos deles após uma peregrinação buscando atendimento médico e algum tipo de ajuda.

Em La Paz, no fim de semana, foi relatado o caso de um homem com sintomas da COVID-19, que foi procurar ajuda no Hospital La Portada (com capacidade para atender casos de coronavírus), onde foi rejeitado. De lá, ele foi para o Hospital Cotahuma, mas também foi rejeitado e acabou morrendo às portas deste lugar. Em Beni, por pelo menos duas semanas, eles improvisaram cemitérios para enterrar os mortos e, embora os números oficiais falem de 131 mortes no cemitério por Coronavírus, há mais de 300 corpos enterrados. Supõe-se que eles são vítimas do vírus, uma vez que a grande maioria morre sem ser diagnosticada. Sem teste. Em Cochabamba e Santa Cruz, eles também começam a ver pessoas morrendo na rua.

O confinamento, em muitos casos, tem sido a única medida “sanitária” imposta pelos golpistas. Isso porque negam sistematicamente a implementação de teste massivos, nem levam em consideração os pedidos desesperados dos trabalhadores da saúde e não garantem insumos de segurança mínimos e nem os equipamentos de proteção individual (EPIs).

A falta de medidas é o que faz o número de contágio entre os trabalhadores da saúde ser muito alta. Morreu um motorista (encarregado de transportar os enfermeiros) do Hospital El Norte (La Paz) com sintomas da COVID-19. Henry Contreras, secretário municipal de Atencion Ciudadana y Governanza, declarou que este trabalhador "fazia turnos a cada quatro dias e faziam quatro dias que ele estava fora do hospital. A questão é que piorou seu estado de saúde e não se sabe se morreu da COVID-19. No trajeto ao hospital, lamentavelmente ele faleceu, ele tinha 58 anos. Imediatamente, foram feitos os procedimentos e os testes, estamos aguardando os resultados” (Urgente.bo, 16 de junho de 2020).

Diante do colapso dos serviços de saúde, o desespero dos profissionais de saúde está crescendo, o que leva, por exemplo, dois hospitais a decidir fechar suas portas. É o caso de um dos hospitais mais importantes de La Paz, o Thorax, e outro dos hospitais mais importantes de El Alto (Holandês). Médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde apontam que não podem mais trabalhar assim, não conseguem lidar, não têm condições de trabalho, não apenas porque a grande maioria dos trabalhadores desse setor o faz em condições de trabalho precárias e flexíveis, mas também porque eles não tem os materiais mais básicos para enfrentar a pandemia.

Diante disso, trabalhadores do SEDES (Serviço Departamental de Saúde) de La Paz entraram em greve de fome. Ontem, trabalhadores da saúde de diferentes municípios da província de Camacho, em La Paz, realizaram um protesto e suspensão das atividades por duas horas.

No caso da SEDES, o conflito é agravado pela intervenção do governo central nessa divisão estadual que depende do governo. Isso levou os trabalhadores da SEDES a exigir respeito pelas instituições e a denunciar a intervenção do governo, à frente do ministro de Obras Públicas, Iván Arias, por "politicagem barata", demonstrando que eles estão mais preocupados com o ataque às posições do Estado que na luta contra a COVID-19.

Os mais de 2 meses de quarentena não foram utilizados para equipar hospitais e centros de saúde. Em vez disso, o autoproclamado Governo de Transição se ocupou em fazer compras milionárias, com créditos do BID, de equipamento respiratório básico que nem sequer pode ser usado e é armazenado.

Toda essa situação de colapso sanitário e profunda crise de saúde é combinada com o aprofundamento da crise política devido à incerteza do cenário eleitoral e aos novos anúncios para retomar o encapsulamento e as rígidas medidas de quarentena. Isso apenas anuncia uma crescente tensão social, porque as demissões em massa, o fechamento de fábricas e oficinas estão se disseminando. Voltar à quarentena total será uma tarefa impossível, porque os trabalhadores que vivem na Bolívia na sua grande maioria no dia a dia precisam trabalhar. Os títulos de miséria que foram concedidos por Áñez para "suportar" a quarentena (menos de USD 1 por dia) não serão repetidos.

Hoje não há saída para a pandemia sem reconhecer que a luta também deve passar por medidas urgentes para enfrentar a crise política e econômica em curso. Trabalhadores, jovens precários, mulheres, povos indígenas e setores camponeses devem se organizar para impor um plano de luta, começando com algumas medidas urgentes:

1. Basta dos capitalistas da Saúde seguirem lucrando com as nossas vidas na pandemia. Devemos impor a nacionalização de todo o sistemas de saúde e que eles sejam colocados sob o controle e a administração dos trabalhadores desse setor, que sabem enfrentar a pandemia e podem alocar os recursos existentes para salvar vidas e não fazer negócios.

2. Basta de financiar a repressão! Enquanto os recursos são alocados para as Forças Armadas e as compras de gás lacrimogêneo são feitas com sobretaxas milionárias, os profissionais de saúde nem sequer têm equipamentos básicos de proteção. Os recursos da repressão devem ir para a saúde.

3. Os recursos também estão no resgate milionário que eles alocam para o benefício dos bancos e do agronegócio. Ou nos pagamentos da dívida externa que, segundo dados do BCB, por juros, pagamos 848 mil dólares por dia. O suficiente para financiar os ricos e não para pagar a dívida externa.

4. Essas são apenas algumas medidas, porque também devemos nos organizar para defender o emprego, proibir demissões e os cortes de salários. Acreditamos que, se não dermos uma saída independente dos trabalhadores e das pessoas pobres, os autonomeados continuarão a abrir mais cemitérios.




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