Internacional

LAVA JATO E O IMPERIALISMO

Moro e procuradores da Lava Jato atuaram para fortalecer direita venezuelana e a ofensiva golpista dos EUA

Houve um conluio aqui entre Moro, Deltan, os procuradores da Lava Jato, e ministros do STF, para facilitar a ofensiva da direita golpista venezuelana, que já no início de 2019 colocou o fantoche Juan Guaidó para servir de agente da pressão de Donald Trump e dos Estados Unidos em favor de um reacionário golpe de Estado na Venezuela, que por ora fracassou.

domingo 7 de julho| Edição do dia

Integrantes da força-tarefa da Operação Lava Jato se mobilizaram para expor informações sigilosas sobre corrupção na Venezuela após receber uma sugestão do então juiz federal Sergio Moro em agosto de 2017, segundo mensagens privadas trocadas pelos procuradores na época.

Em outubro de 2018, depois da passagem da ex-procuradora geral direitista Luisa Ortega Díaz (deposta pelo governo autoritário de Maduro) por Curitiba, Ortega publicou em seu site dois vídeos com trechos de depoimentos do ex-diretor da Odebrecht na Venezuela, Euzenando Azevedo, sobre contribuições feitas pela empreiteira às campanhas de Maduro. Edson Fachin, a quem a Odebrecht pediu que investigasse o vazamento no STF, ficou calado e colaborou com Moro e os procuradores.

Ou seja, houve um conluio aqui entre Moro, Deltan, os procuradores da Lava Jato, e ministros do STF, para facilitar a ofensiva da direita golpista venezuelana, que já no início de 2019 colocou o fantoche Juan Guaidó para servir de agente da pressão de Donald Trump e dos Estados Unidos em favor de um reacionário golpe de Estado na Venezuela, que por ora fracassou.

Conversas pró direita golpista na Venezuela, cortesia de Moro e Deltan

Os procuradores começaram a debater o assunto na tarde do dia 5 de agosto de 2017, depois que Moro escreveu ao chefe da força-tarefa de Curitiba, Deltan Dallagnol, no aplicativo Telegram.

"Talvez seja o caso de tornar pública a delação dá Odebrecht sobre propinas na Venezuela", disse Moro. "Isso está aqui ou na PGR?"

Em resposta a Moro em 2017, Deltan indicou que os procuradores buscariam uma maneira de contornar os limites do acordo e comunicou a intenção de mover uma ação pelo crime de lavagem de dinheiro internacional. "Haverá críticas e um preço, mas vale pagar para expor e contribuir com os venezuelanos", acrescentou o procurador.

Moro retrucou demonstrando que estava mais preocupado com a divulgação das informações da Odebrecht do que com a possibilidade de uma ação judicial. "Tinha pensado inicialmente em tornar público", escreveu a Deltan. "Acusação daí vcs tem que estudar viabilidade."

Em 2016, quando decidiu colaborar com a Lava Jato, a Odebrecht reconheceu ter pago propina para fazer negócios em 11 países além do Brasil, incluindo a Venezuela, mas as informações fornecidas pela empresa e por seus executivos foram mantidas sob sigilo por determinação do Supremo Tribunal Federal.


O acordo fechado pela Odebrecht, assinado com autoridades brasileiras, dos Estados Unidos e da Suíça, estabelece que as informações só podem ser compartilhadas com investigadores de outros países se eles garantirem que não tomarão medidas contra a empresa e os executivos que se tornaram delatores.

Segundo Deltan, "O propósito de priorizar [a ação] seria contribuir com a luta de um povo contra a injustiça, revelando fatos e mostrando que se não há responsabilização lá é pq lá há repressão." Ato seguido, "Russo diz que temos que nós aqui estudar a viabilidade. Ou seja, ele considera", disse no Telegram, adotando o apelido que às vezes usavam para se referir a Moro.

Pouco depois da ex-procuradora direitista Ortega Díaz (que saiu das fileiras do chavismo) ter rompido com o governo autoritário de Maduro e se exilado na Colômbia, ela viajou para o Brasil para fazer contato com a Procuradoria-Geral da República, trocar informações e buscar maneiras de colaborar com a Lava Jato para fortalecer a direita golpista de Leopoldo López e Juan Guaidó, títeres de Washington.

Na época em que Ortega teve acesso ao depoimento de Euzenando, a Venezuela tinha um termo de compromisso assinado com o Brasil para obter informações da delação do ex-marqueteiro João Santana. Mas o acordo não previa seu acesso à delação da Odebrecht.

Lava Jato e o imperialismo

O objetivo da Lava Jato, como denunciamos incansavelmente no Esquerda Diário, desde o início da operação, não tinha nada a ver com um suposto "combate a corrupção", que é inerente ao mecanismo político de um estado capitalista: pelo contrário, essa operação reacionária, que utiliza métodos tirânicos como conduções coercitivas, prisões preventivas e grampos telefônicos, buscava substituir um esquema encabeçado pelo PT por outro com o rosto da direita, preparando o terreno para a penetração de monopólios imperialistas em pontos nodais da infraestrutura nacional (especialmente nas áreas do petróleo e da construção civil), a aplicação de uma dura agenda de contrarreformas neoliberais e uma série de privatizações, ataques num ritmo superior aos que o PT conseguia aplicar (notadamente no segundo mandato de Dilma Rousseff). Tendo sido treinado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, como revelou o Wikileaks, e pelo Departamento de Justiça, durante a administração de Barack Obama, Moro era a figura que encabeçava junto aos procuradores de Curitiba essa espécie de "braço judiciário" da ingerência norte-americana no Brasil, que seguiu agressivamente com a chegada de Donald Trump à Casa Branca.

No caso da Venezuela, o intercâmbio entre Moro e os procuradores de Curitiba, que data já de 2017, mostra que o ex-juiz já tinha como objetivo fortalecer a direita pró-imperialista na Venezuela, mesmo antes de entrar no governo Bolsonaro. As conversas se iniciam no meses depois de Maduro retirar a Venezuela da Organização dos Estados Americanos (OEA) e convocar uma "Assembleia Constituinte" controlada pelo chavismo.

Já no governo Bolsonaro, Moro atuou junto ao presidente de extrema direita, em sintonia com as exigências pró-golpe na Venezuela do assessor de segurança nacional da Casa Branca, John Bolton, Mike Pompeo e Elliott Abrams, responsável por coordenar a ofensiva imperialista na Venezuela e responsável por crimes de guerra na Nicarágua e em toda a América Central na década de 1980.

Sempre rechaçamos a ofensiva imperialista dos Estados Unidos na Venezuela, parte de sua ofensiva de recolonização sobre toda a América Latina, sem que isso implique qualquer apoio político ao regime de Maduro, que foi e é incapaz de enfrentar a política de intervenção dos EUA. As políticas autoritárias e catastróficas de Maduro são completamente anti-operárias, incrementam a repressão das Forças Armadas sobre a população pobre, sendo o verdadeiro responsável pelo fortalecimento da direita golpista no país.

Essa atuação comum com Bolsonaro, com os procuradores de Curitiba e com ministros do STF como Edson Fachin (muito próximo da Lava Jato), confirma o papel desta Operação pró-imperialista em defesa dos interesses de Washington na região. Interesses que incidem não apenas sobre a alteração da relação de forças na região, buscando impor governos que atendam de forma direta seus desígnios (e não de forma indireta com retórica de conflito, como fez o chavismo, que pagou religiosamente a dívida pública aos especuladores estadunidenses e entregou as riquezas do petróleo aos acionistas estrangeiros), mas também em defesa da aprovação dos ajustes neoliberais contra os trabalhadores, como a reforma trabalhista, e a reforma da previdência.

As informações obtidas pelo The Intercept são confirmações importantes da atuação pró-imperialista de Moro de da Lava Jato; entretanto, os aliados do The Intercept, como a Folha de S. Paulo e a revista Veja, são ardorosos defensores da reforma da previdência e dos ajustes neoliberais, como a reforma da previdência, que constituem um dos principais objetivos da Lava Jato. É impossível batalhar contra o autoritarismo judiciário sem combater seus ajustes, e para isso é necessário encontrar aliados reais aos interesses dos trabalhadores, ao contrário do que faz o portal The Intercept. Por isso consideramos de suma importância que as informações detidas pelo The Intercept sejam disponibilizadas em sua completude para a população.




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