Economia

MONOPÓLIO DA PRECARIZAÇÃO

Monopólio Softbank controla Uber, Rappi e Loggi, e o trabalho precário dos aplicativos

O fundo de investimentos fundado pelo bilionário japonês Masayoshi Son fez fortuna na internet e aposta na criação de monopólios da tecnologia, com diversos investimentos em empresas latino-americanas.

Fernando Pardal

@fepardal

quarta-feira 1º de julho| Edição do dia

A fortuna do banco de investimentos japonês, fundado por Madayoshi Son, hoje conta com especuladores capitalistas de diversas partes do mundo, que confiam ao fundador e CEO da empresa a tarefa de multiplicar seus milhões investindo nas plataformas de novas tecnologias baseadas em trabalho precário, como são os aplicativos de entregas.

Fundado em 1981, o Softbank se tornou um dos maiores monopólios no ramo de tecnologias do mundo, contando hoje com participação em mais de cem empresas. Madayoshi Son, detentor de uma fortuna de 24 bilhões de dólares, é o homem mais rico do Japão. Passando dos softwares à joint venture com empresas como Yahoo, o Softbank tornou-se um gigante monopolista, e entre 2009 e 2014, a capitalização de mercado da empresa teve o quarto maior aumento relativo do mundo, crescendo 557%.

A megacorporação, ambicionando abocanhar o mercado mundial, fez um segmento voltado para a América Latina em 2019, o Softbank Latin America Fund, com capital de 5 bilhões de dólares, e que em menos de seis meses já havia investido 1 bilhão destes em empresas da região. Assim, o fundo se tornou rapidamente o principal acionista de aplicativos de entrega como a colombiana Rappi (com participação de US$ 1 bilhão) e a brasileira Loggi (participação de US$ 150 milhões). Ao todo, dez startups brasileiras tiveram investimentos da Softbank.

Ao longo de 2019, as startups financiadas pelo grupo demitiram nada menos do que 10 mil pessoas. Só na Uber, foram 1,5 mil demissões. Essas demissões, além de demonstrarem como para esses bilionários a vida dos trabalhadores não vale nada, ocorrem em meio às altas apostas do Softbank: as empresas nas quais investem muitas vezes são deficitárias, atuam no prejuízo. E por que? Porque sua aposta é na precarização do trabalho em larga escala. Como vemos com a paralisação dos entregadores, a condição de trabalho deles não só é precária, como está piorando: as remunerações e direitos caem, e os empresários apostam em aumentar lucros se baseando na retirada de todo e qualquer direito desses trabalhadores, que chegam a ganhar valores de R$ 0,60 por quilometro rodado, enquanto os acionistas do Softbank nadam em milhões de dólares.

Em entrevista ao Brazil Journal, Madayoshi deixa claro no que aposta para fazer lucros, ao dizer “outros setores” em que se interessa em investir: “O Softbank é investidor minoritário de uma empresa chinesa chamada Ping An Good Doctor, que atende 300 milhões de pessoas com mil médicos. A consulta é feita de forma remota e o paciente vai descrevendo seus problemas. Nessa escala, a consulta é quase gratuita, com um valor muito baixo. [...] Imagina isso no Brasil, que sofre da mesma carência de médicos e de acesso a serviços de saúde em geral!”

Ou seja, Madayoshi aposta em se valer da precarização dos serviços de saúde para oferecer o serviço pago de consultas remotas, precarizando o trabalho de médicos e oferecendo uma “opção” bizarra de que as pessoas, frente ao desespero da falta de acesso à saúde, se consultem remotamente.

O fato de que esse monopólio gigante esteja em diversas empresas do ramo, e em multinacionais como a Rappi, apenas reforça a importância da internacionalização da luta dos entregadores, que vemos com a paralisação desse dia 1 de julho. No caso da Rappi, por exemplo, a startup tem mais de 60 mil entregadores parceiros e emprega mais de 1,5 mil colaboradores em sete países da América Latina e mais de 40 cidades. Metade delas está no Brasil, devendo chegar a mais dez no país até o final do ano. A união dos trabalhadores para golpear internacionalmente é estratégica para poder vencer sobre a sede de lucro dos patrões. O proletariado brasileiro, gigantesco, tem um papel decisivo a cumprir nessa aliança.

E não é apenas a aliança internacional, mas entre os trabalhadores de diferentes empresas que é decisiva. Como já apontava Lênin ao falar da criação dos monopólios, trustes e cartéis tão característica da época imperialista, a tendência de empresas e conglomerados dominarem setores inteiros da economia fortalece esses gigantes capitalistas, que engolem seus pequenos concorrentes. O mesmo acontece no ramo das empresas de entrega: o fato de que a Softbank invista em empresas que concorrem diretamente, como Rappi e Loggi, faz todo o sentido, como explicou o presidente da consultoria em investimentos E-consulting, Daniel Domeneghetti: “Eles não estão atrás de unicórnio, eles querem dominar uma atividade. A tese do Softbank é de consolidação do setor.” Sob controle deles, é claro.

Como vimos, os prejuízos de anos seguidos de empresas como Uber também pressionam os patrões para atacar ainda mais e com mais força os trabalhadores. A pandemia está servindo de pretexto. Esse é o momento decisivo para fortalecer a união e a luta dos trabalhadores, e estamos junto com os entregadores contra os bilionários capitalistas e sua ganância.




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