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OPINIÃO

Missão humanitária ou marketing fúnebre? Sobre as tropas de Israel

terça-feira 29 de janeiro| Edição do dia

Neste momento, familiares dos mais de 60 de mortos e dos mais de 200 desaparecidos, passam por um tremendo desespero e tristeza diante do assassinato de seus parentes e amigos e da destruição de suas casas, bairros. Não é tão difícil imaginar a situação: olhe sua casa e seu bairro e imagine-os destruídos, cobertos por uma lama tóxica de detritos, imagine todo seu dia a dia, o barzinho e o parque que frequenta com seus amigos, a escola onde levava seu filho, o shopping onde ia ao cinema, soterrados sob 15 metros de sujeira. No meio desses escombros, muitos de seus amigos e até familiares já estão mortos, esperando para terem seus corpos encontrados. Seu trabalho, o mundo no qual vivia, simplesmente desaparece num instante.

Colocam-se questões que, tanto os governos, a mídia burguesa e também a assassina direção da Vale, buscam fugir ao máximo de responder. Pelo contrário, buscam em certa medida, naturalizar. Para além de todas as ingerências movidas pela sede de lucro, desde a falta de inspeções até a falha de uma sirene, e todos os escândalos que borbulham da lama tóxica da Vale e dos governos que ignoraram a tragédia em Mariana, o ingrato prelúdio de Brumadinho, há uma questão urgente que é sumariamente ignorada.

O governo dos ricos, seja de Zema ou Bolsonaro, tão fanáticos pela gerência otimizada, pela eficiência e desburocratização em defesa das altas taxas de lucro de empresários, mostram a completa ingerência, ineficiência e falência do Estado capitalista em lidar com vidas humanas. Mostra uma tremenda lerdeza, premeditada, numa situação catastrófica como é o caso de Brumadinho.

Gilson Dantas, no seu artigo Brumadinho: por que os celulares das vítimas não foram rastreados?, escancara esse despreparo.

“Senão vejamos: a enxurrada de lama densa e tóxica foi torrencial, rápida e fulminante. Soterrou muita gente. Só que nos dias atuais, quase todo mundo anda com seu celular, seu iPhone. Por que então não foi decretado e executado IMEDIATAMENTE o rastreamento de todo dispositivo móvel naquela área, em um raio de 30 km, por exemplo? Antes que a bateria dos celulares fosse descarregada e antes que escurecesse [a catástrofe ocorreu mais de seis horas antes da noite baixar].

Existe tecnologia para rastrear pessoas desaparecidas.

Mas então por que não foram desbloqueadas todas as linhas na região, instalado um sistema eficiente [e imediato]de rastreamento de sinais de dispositivos móveis, de localização de celulares, o também o recrutamento intensivo e imediato de equipes para manejarem o Google Earth ou qualquer dispositivo de satélite para localizar pessoas a todo custo? E o georastreamento? E GPS? Por que tudo isso e muito mais não foi acionado de forma fulminante?

Em uma palavra: o governo fez o melhor que poderia fazer com a tecnologia disponível para rastreamento de pessoas?

E os drones? E uma nuvem de drones rastreando imagens por toda a zona da lama, por toda a região da mata, será que não teria feito diferença? Drones existem: quando o povo legitimamente protesta nas ruas eles nos sobrevoam lançando bombas de gás e tirando fotos. Onde estão esses drones tão usados na repressão? E todos os cães rastreadores de todas as forças de repressão do país? Onde estavam drones, cachorros e soldados naquela tarde sinistra de sexta-feira?”

Essa são indagações trancadas a sete chaves pelas classes dominantes. Embora Globo e políticos reacionários colocam-se, no momento, em solidariedade às vítimas e numa postura crítica aos absurdos da Vale, obviamente não vão dar a mínima atenção ao quão problemática está sendo a operação de resgate, até porque isso seria mais um elemento de revolta para a população. Na verdade, já circulam vídeos da população local e de voluntários denunciando que a Vale, com aval dos governos, está dificultando as operações de resgate fechando vias e estradas ou também de moradores dizendo que as tropas de Israel vem prejudicando as buscas.

Qual seria o motivo do governo e da Vale estarem impedindo a ajuda de voluntários qualificados nas missões de busca e resgate, de estarem fechando estradas e vias? A resposta para isso não está longe da escandalosa propaganda de uma empresa de cosméticos, Jendayi, que teve o objetivo de promover-se em meio a tragédia capitalista. Com esse mesmo fundo oportunista e desumano, começamos a enxergar uma operação que não têm por objetivo resgatar e muito menos salvar ninguém, até porque as horas críticas já passaram. Trata-se, também, seguindo o modelo empresarial liberal que Bolsonaro pretende reformar o Estado brasileiro, de uma propaganda, só que do governo. Um marketing carniceiro que se ergue sob pilhas de destroços, lamas e vidas perdidas.

Foi uma boa jogada de publicidade do governo, em especial, para fortalecer suas tendências reacionárias na política internacional. Para isso, 136 soldados do genocida exército de Israel foram retirados de seu posto no conflito, ou melhor, massacre ao povo palestino para posarem, como um manequim numa vitrine, sua suposta “ajuda humanitária”, do mesmo estado ilegítimo que prendeu Ahed Tamimi e mantém seu domínio sobre a tortura e perseguição dos palestinos. Israel nos trouxe também toneladas de equipamentos tecnológicos para prestar sua ajuda humanitária.

Não é só Bolsonaro que não nos cansa de surpreender, seus aliados sionistas parecem reafirmar que a extrema-direita é dona de um comportamento cômicamente mórbido e grotesco. Do que se trata? Segundo o comandante das operações de resgate, as toneladas de equipamentos vindos de Israel são inúteis, "“não são efetivos para esse tipo de desastre”. Ao mesmo tempo, os militares de Israel, por desconhecimento da região, ainda estão concentrados em compreender o que se passa, os problemas e características da topografia do local, enquanto que voluntários treinados são impedidos de ajudarem nas operações.

As tropas que vieram ao Brasil, fazem parte da Unidade Nacional de Resgate das Forças de Defesa de Israel, foi criada em 1984 para lidar com a defesa da invasão dos territórios palestinos e contra ataques terroristas. E, 1985 passou a participar de missões humanitárias, a questão é que as tão enfáticas 16 toneladas de equipamentos servem para lidar com situações de guerra e de extermínio de povos, não para resgatar corpos, já frios e soterrados. Trata-se de um exército de uma região desértica especializado em guerras atuando numa região sub-tropical e lidando com um rompimento de barragem.

Diante desses fatos, tal iniciativa se comprova como, nada mais e nada menos, uma jogada de marketing do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e Bolsonaro. Uma propaganda que tem por objetivo fortalecer os laços reacionários entre Brasil e Israel. O que interessa nesse cenário catastrófico, é utilizá-lo para promover a aproximação de governos exploradores, autoritários e xenófobos.

Nas redes sociais, as tropas de Israel disseram "Salvar vidas não é sobre o quão longa é a distância, mas até onde você está disposto a ir". Frase dita pelo exército do país que vendeu para o Brasil, em 2015, por R$30 milhões,caminhões blindados para serem usados pelo choque para reprimir manifestações, por um Estado genocida que anualmente inova suas tecnologias de repressão para serem exportadas pelo mundo, aparato de qualidade comprovada na repressão aos palestinos.

Frente a mortes e vidas desoladas, a ineficiência é permitida, não é preciso otimizar o resgate de pobres e trabalhadores esmagados pela lama, não foi necessário a velocidade na resposta de ação por parte das autoridades para tentar salvar o máximo de vidas. Assim também se dá todos os processos abertos contra a Vale, as multas e obrigações que essa empresa deve às vítimas de Mariana e com o meio-ambiente, uma burocracia que demora anos e mantém os atingidos em Mariana ainda sem moradia própria ou ao menos indenização. Mas quando se trata de passar o mais rápido possível ataques como a Reforma da Previdência, de impor um pacote de privatizações, aí não há burocracia, a eficiência e gerência do Estado é colocado em primeiro plano, é o ataque prioritário do governo, querem fazer com que trabalhemos até morrer.

Contra essa barbárie dizemos: Mariana, Brumadinho, quanto vale? Nossas vidas valem mais que o lucro deles!




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