Observatorio

PARALISAÇÃO DE ENTREGADORES

Minoria (17%) de entregadores se declarou a favor de Bolsonaro nos atos, diz pesquisa

Segundo resultados de pesquisa realizada com entregadores nos atos do último dia 1/07, 17% dos entregadores de aplicativos se declararam favoráveis ao governo Bolsonaro, 20% se disseram indiferentes, 39% contrários e 24% preferiram não responder a essa pergunta. Assim, entre os que responderam à pergunta sobre o governo Bolsonaro, cerca de 52% se disseram contrários, 26%, indiferentes e apenas 22%, favoráveis.

sábado 4 de julho| Edição do dia

Realizada como estreia do recém-lançado Observatório da Precarização do Trabalho e da Reestruturação Produtiva, a pesquisa em questão entrevistou 253 entregadores presentes em 9 estados (com concentração em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Rio Grande do Norte), nos atos que ocorreram no último dia 1/07. Em uma de suas perguntas, tratava da posição dos trabalhadores quanto ao atual governo Bolsonaro, sendo que 17% dos entregadores de aplicativos se declararam favoráveis ao governo Bolsonaro, 20% se disseram indiferentes, 39% contrários e 24% preferiram não responder a essa pergunta. Assim, entre os que responderam à pergunta sobre o governo Bolsonaro, cerca de 52% se disseram contrários, 26%, indiferentes e apenas 22%, favoráveis.

Já analisando do ponto de vista da renda declarada, a maior porcentagem dos contrários encontra-se na remuneração média de R$500 a 1000, faixa na qual 57,14% se declararam contrários ao governo, isto é, a maioria. Nessa faixa, estavam cerca de 17% dos entrevistados. Por sua vez, a maior porcentagem de auto-declarados favoráveis encontra-se na faixa de R$ 1500 a 2000, com 25% dizendo-se pró-Bolsonaro. A parcela que afirmou ganhar essa renda média foi cerca de 16% dos entrevistados. Assim, em nenhuma faixa de renda bruta houve maioria favorável ao governo. Com uma quantia de entrevistados semelhante, o setor acima da média que mais apoia o governo é ainda significativamente menor que o setor acima da média que mais rechaça. Foram ouvidos desde trabalhadores que dizem ter renda de até R$ 500 a entregadores que declaram mais de R$ 3 mil.

Diante disso, com o avanço da pandemia e o Brasil atingindo mais de 60 mil mortos, somado ao aprofundamento da crise econômica e às disputas no regime político, esses dados devem ser analisados com atenção. É fato que se trata de uma categoria notadamente heterogênea, com distintas posições políticas, e cujos lutadores têm se unificado em torno das demandas relacionadas às baixíssimas taxas de entrega, aos bloqueios indevidos e às condições de trabalho na pandemia. Menos do que apontar a uma visão política única, os resultados dessa inédita pesquisa nos ajudam a compreender particularmente que a menor proporção entre os entregadores em luta diz apoiar o governo, tratando-se da vanguarda da classe trabalhadora neste momento contra os efeitos da uberização do trabalho e sua superexploração pelas empresas de aplicativo.

A disputa política pelo apoio dos mais precarizados no Brasil

O país vem sendo marcado por uma crise do regime que se aprofunda desde o processo golpista que avançou contra os governos petistas, buscando aprofundar os ataques à classe trabalhadora que o PT já vinha implementando e abrindo espaço a novas formas de pensar e sentir nas massas. A princípio, isso veio sendo capitalizado pela extrema direita bolsonarista, alçada internacionalmente pelo trumpismo - que hoje enfrenta seu maior debilitamento desde o início do governo, com a luta negra contra a violência policial nos EUA.

O fato é que, mais profundamente, esses resultados da pesquisa configuram um importante alerta quanto a transformações políticas e subjetivas nos estratos precários da classe trabalhadora. Os entregadores são parte dos mais precarizados, que têm composto significativa base social de Bolsonaro. A experiência com o modo de (não) enfrentamento de Bolsonaro à crise sanitária, o aumento do desemprego e a degradação das condições de vida e salário, com as disjuntivas entre a sanha burguesa por ajuste fiscal e o apelo popular ao auxílio na renda, podem abrir espaço, em curto período, a uma importante experiência com o real significado do bolsonarismo, para além de sua falsa máscara “anti-sistema”.

Nesta semana, por exemplo, um articulista da Folha de S. Paulo ressaltou dados do Datafolha que destacam que os mais pobres, em 2019, correspondiam a 32% do apoio a Bolsonaro, e são hoje 52% dos que consideram o governo ótimo ou bom, relacionando à importância para o governo do auxílio emergencial neste momento, com seu papel de contenção de crises. Embora Bolsonaro tenha vetado o auxílio direcionado à categoria de entregadores de aplicativos, é possível que uma parcela seja também receptora (a que recebe menos de metade de um salário mínimo em família de baixa renda). Nesse sentido, no marco de que a popularidade de Bolsonaro mantém uma estabilidade de cerca de 30%, perdendo em setores da classe média alta que haviam sido atraídas por sua aliança com o lavajatismo, significa dizer também que os setores mais pobres são parte fundamental de seu sustentáculo social. O dado de que uma significativa minoria nos atos da última quarta-feira declarou apoio ao governo revela: é justamente um estrato permeado pelos mais pobres hoje que se coloca em luta contra empresas que são símbolo da exploração capitalista contemporânea, e na vanguarda dessa luta não há uma voz uníssona, e nem majoritária, em apoio a Bolsonaro.

Ainda assim, não é expressivo somente que uma parcela significativa dos lutadores da principal categoria mobilizada hoje no Brasil da pandemia tenham se afirmado diretamente contrários ao governo, mas também relevante que 44% tenham se mostrado indiferentes ou preferido não responder.

Dentre muitos fatores (como as próprias disputas internas ao movimento para que se coloque como “apartidário”), os indiferentes e não-declarados podem também sinalizar, à direita e à esquerda, menos firmeza, proclamação e moralização com suas próprias posições, ou seja, que há vacilação ou debilitamento nas alternativas políticas, da situação e da oposição. Isso também diz da busca de variantes da chamada direita tradicional a fortalecer figuras que possam se alçar como uma “nova velha direita”, em oposição burguesa supostamente racional e democrática (isso vindo dos velhos golpistas) que vão desde Luciano Huck a Moro, ou a tentativas do PT em buscar seu “espaço próprio” nas disputas eleitorais.

Nos anos de governo petista os mais pobres configuraram parte fundamental da base de apoio ao lulismo, tema sobre o qual teoriza, por exemplo, Singer n’Os sentidos do lulismo, tratando do deslocamento petista em sua base de sustentação às camadas mais pobres a partir de 2006. Mas foi também essa base social que se desmoralizou e em grande parte rompeu com o petismo a partir de 2013 e principalmente no segundo governo Dilma, com a agudização da crise econômica no Brasil - com proeminentes diferenças regionais e de gênero, por exemplo. Assim, evidentemente, os mais precários e empobrecidos são um setor particularmente afetado pelas crises e pioras na economia, e mesmo importantes medidas de renda básica, como o auxílio emergencial, são já limitadas, tanto por seu valor, que é expressivamente inferior ao necessário para sobreviver, quanto por sua duração. Até quando Bolsonaro conseguirá manter esse sustentáculo social? Há um magma fervilhante sob as placas tectônicas hoje no Brasil, sobre o qual os entregadores de aplicativo sinalizam importante alerta?

Tudo isso está a se ver, os rumos da atual crise do regime não estão definidos, ainda mais quando nos debruçamos sobre o peso das Forças Armadas no governo, em contraposição às disputas com forças como o STF, agora em trégua precária. Mas algo que merece atenção pode estar se passando na classe trabalhadora brasileira. Novamente se reforça que esta não está definitivamente derrotada nem aceitando passiva uma degradação histórica no mundo do trabalho. Bolsonaro não segue sem questionamentos entre os mais precários, ainda mais naqueles que se colocam em potente movimento. Ao mesmo tempo, isso não se dá sem contradições: não quer dizer que não há mecanismos de contenção nem que há hoje uma saída política clara para esse setor no Brasil. Vale dizer que o desafio da unificação dessa camada social coloca em pauta também sua capacidade de fazer despertar outros setores da classe.




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