Opinião

INDÍGENAS

Minha vida como indígena na USP

Esse é um relato pessoal, porém acredito que muitos indígenas e parentes que estão no processo de auto declaração poderão se identificar.

domingo 11 de fevereiro| Edição do dia

Tudo começa quando você precisa furar o filtro social que é o vestibular. Prova esta que serve apenas para excluir a maioria da população pobre das universidades públicas. Você trabalhava oito horas por dia, e mesmo assim fazia cursinho à noite e aos fins de semana.

Não havia cotas para indígenas ainda, e mesmo se houvesse você ainda se autodeclarava parda, fazendo coro com todo o discurso institucional, que diz que se você não nasceu na floresta você não é indígena. Você cresceu achando legal “parecer” indígena como todos falam, mas devido ao etnocídio se declarava parda.

Depois de muitas batalhas, rotina incessante e sem descanso você consegue furar o filtro do vestibular. Mas você não sabe ainda o que te espera. Indígena filha de nordestina, você nasceu em São Paulo, mas seus pais vieram com os pais deles para São Paulo no êxodo nordestino, e o lugar que foi reservado para você crescer foi o centro de São Paulo, mais conhecido como Cracolândia.

Da cultura ancestral, você carrega muitas coisas, mesmo que não as identifique de imediato por parecer que o que é indígena na nossa cultura está morto. E ainda carrega a cultura urbana na sua fala as marcas conversacionais da região em que cresceu, como “velho” e “mano”.

Daí você está em uma sala de aula do seu primeiro ano, e sua professora de Introdução aos Estudos de Língua Portuguesa fica feliz ao apresentar um projeto “inovador” em que se analisou as falas dos falantes médios de São Paulo.
O comentário da professora é: “Apesar de muito bom, há algumas coisas que já vi que o estudo não contempla, como meninas na periferia que falam ‘velho’ como marcador conversacional”. Você sorri e diz: “Eu falo ‘velho’, e o que identifica é uma cara de espanto, como se aquele lugar privilegiado não fosse reservado às pessoas que falam “velho”.

Você decide fazer Tupi, afinal você quer ter acesso ao idioma que se não tivesse sido proibido seria a sua língua. E mais, você sabe que aprender uma língua é conhecer muito de uma cultura. Você de fato aprende muito, mas com um professor que defende os jesuítas.

Você não entende direito o que essa postura representa e segue a onda. Um dia esse professor olha para você e diz: “Cabocla”, que é a mistura de brancos e índios. Você não entende direito, mas sem perceber já se depara com o discurso etnocida da academia, que se pauta em Gilberto Freyre, e que criou uma nova raça para os filhos de indígenas, pois esses não têm o direito nem de serem indígenas, nem brancos.

Daí você conhece o movimento estudantil, que aparenta possuir um discurso mais avançado. Sem entender direito muito sobre a sua identidade você se abstém em uma assembleia que pauta a questão de cotas. Você diz que não entende determinada proposta, porque era insuficiente para os negros e estava dizendo isso apesar de ser parda.

O que você ouve são gritos de: “Você é negra!”, “Você é negra!”. Você obviamente não se incomoda com isso e grita: “Tá. Então eu sou negra! Não desviem o foco do assunto!”. E desde então passa a se declarar negra. Mesmo que o seu fenótipo seja idêntico ao de um indígena originário. Tudo isso porque aparentemente os indígenas não existem nas grandes cidades. E o etnocídio, que é a morte da cultura e dos costumes indígenas se perpetua.

Aí você conhece o marxismo, e de repente sua vida se transforma. Apesar de etnocida, o movimento estudantil te permite conhecer as diversas correntes marxistas. A transformação é tão grande que você decide se declarar indígena, afinal apesar de acharem que só é índio quem está na floresta, você tem a sua bisavó que era indígena de aldeia e com quem você se parece muito.

Você decide fazer uma matéria sobre a cultura afro-brasileira. Você aprende muito sobre a cultura indígena que está nas religiões de matriz africana. Mas mesmo nessas religiões os indígenas são chamados de caboclos. E o seu professor chama todos os indígenas de “mestiços”. Você não sabe se é intencional, mas você sabe agora, depois de muito tempo, que isso é novamente aquela ideia de raça nova, propagada por Freyre.

Daí você se organiza politicamente, e os outros indígenas da universidade não entendem como você pode ser uma indígena que não se contenta com um programa reduzido, de democratização do acesso para os indígenas na universidade, mas sim que lutar por uma saída eficaz e revolucionária, que é a do fim do vestibular para os indígenas e para toda a demanda. O que você ouve é que está cega pelo seu partido e que suas bases não são ancestrais e que você deve buscar a sua própria história.

Fora o tanto que você se sentiu cerceado pela linguagem imperativa pequeno-burguesa uspiana. Você teve depressão, dependeu de bolsa, repetiu matéria por não conseguir trabalhar e fazer 6 disciplinas ao mesmo tempo. Com tudo isso, você ainda ouviu de um professor de japonês que você não havia feito o exercício porque era “brasileiro”, e brasileiro deixa tudo para a última hora mesmo. Mas você persistiu, e após anos na luta você em breve vai se formar.

Ser indígena na USP é fazer parte do setor mais precário da universidade que é racista e que só aprovou cotas depois de muita luta, luta essa que você fez parte, um tempo se declarando negra, e mais recentemente, indígena. É ser pobre e viver com R$ 400,00 da sua bolsa de Iniciação Científica e viver em um cubo dentro da moradia estudantil da universidade, que você conseguiu depois de muito batalhar na assistência social.

E assim vai ser, pois os indígenas continuam sendo o setor mais pobre e precário da população brasileira, e esses novos indígenas que estão entrando na Universidade fazem parte dessa parcela. Por isso a luta continua, hoje indígena urbana e feliz, na luta para que todos os indígenas entrem livremente na Universidade e possam desfrutá-la plenamente.




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