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OCUPAÇÕES

Milhares de famílias moram em ocupações e são marginalizadas em Campinas

A tragédia do Largo do Paiçandu que desabrigou dezenas de famílias na cidade de São Paulo lançou um alerta geral para as grandes cidades: A especulação imobiliária e a isenção de responsabilidade dos governos podem custar muitas vidas. Em Campinas a situação não é diferente, cerca de 100 mil famílias moram em ocupações e podem enfrentar riscos similares ao do edifício Wilton ou de outra ordem.

sexta-feira 4 de maio| Edição do dia

Foto: Cedoc/RAC

Neste 1º de maio o terrível caso de desabamento de um arranha céu ocupado de São Paulo custou ao menos uma vida e trouxe desalento a dezenas de famílias que estão lançadas ainda mais friamente às ruas e ao desamparo. Rapidamente, para se eximir do que deveria ser suas responsabilidades, a prefeitura e a direita porta-voz dos grandes especuladores imobiliários investem em apontar os próprios desabrigados como culpados. Mas a capital financeira do país se mostrou nua em sua brutal desigualdade social, não é possível esconder os escombros e o abandono dos ocupantes do Largo do Paiçandu por parte do Estado.

E a situação de moradias que colocam em risco a vida de milhares de famílias não se restringe a São Paulo, em Campinas um levantamento realizado há dois anos pela Companhia de Habitação (Cohab) aponta que existe na cidade cerca de 260 ocupações de diversos tipos abrigando mais de 100 mil famílias que estão em situação de vulnerabilidade social. Casos similares ao do Largo do Paiçandu, em prédios abandonados ou com obras inacabadas também existem em Campinas, sendo que é mencionado pela prefeitura ao menos três, comportando mais de 220 famílias, localizados no centro, no bairro Jardim Guanabara e no Jardim do Itaiú.

A mídia oficial da cidade anuncia que Campinas também possui seus “esqueletos urbanos”, assim como a mídia nacional trata a tragédia de São Paulo como um conjunto de estatísticas. Até mesmo o ocupante que perdeu sua vida ajudando a salvar crianças durante o incêndio do prédio está sendo chamado de Ricardo “sem sobrenome” em muitas manchetes. O discurso é tão frio quanto a apatia diante da crise crônica da moradia nas grandes cidades brasileiras. Muito está sendo dito a respeito das condições “insalubres”, “de riscos estruturais” ou “descumprimento de normas de segurança” que foram vistos no edifício Wilton e estão presentes na maioria das ocupações. Até mesmo dos mecanismos internos de organização dos ocupantes se tem dito muito e apontado como imoral. Acontece que toda essa ladainha sufoca o que deveria ser o maior questionamento: Por que estas pessoas, e milhares de outras Brasil a dentro, estão condenadas a viver de maneira tão precária e abandonada pelos governos?

O prefeito Jonas Donizette, em pronunciamento público na última quarta, 2, afirmou que “em Campinas a situação de agravamento é bem menor”, já que se tratam de prédios privados e que estes estão com processo de reintegração de posse em andamento. Jonas ainda afirmou que a prefeitura “ tem feito até demais, pelas poucas condições e recursos que possui”. Inacreditável que o prefeito, que mora num condomínio de luxo numa região abastada da cidade e que recebe um salário superior a 23 mil reais mensais, tenha a coragem de dizer que “é feito demais”. Enquanto isso a fila para se conseguir uma casa popular na Cohab chega a 20 anos sem contemplar famílias de baixa renda. O que também é realidade em Campinas é o número crescente de pessoas em situação de rua, que há dois anos já registrava mais de 600 pessoas, que em sua maioria é de pessoas negras.

Os serviços públicos em Campinas tem em comum o descaso com a população por parte da prefeitura e de seus “parceiros”, os grandes empresários. Uma cidade que governa não para os interesses de seus trabalhadores e população pobre, mas sim para os grandes capitalistas relega as necessidades básicas e somente se preocupa com o lucro. Não a toa esses “parceiros” parasitas estão nos altos cargos de administração dos serviços essenciais, não só a moradia, mas também saúde, transporte, saneamento. O resultado vemos na vida precária que é imposta a maioria da população em contraste com os escândalos de corrupção que envolvem a prefeitura e seus amigos empresários.

Para impedir que tragédias como a do Largo do Paiçandu, bem como para garantir condições de vida digna à população, é fundamental que haja em Campinas um plano de obras públicas que garanta casa a todas as famílias que necessitam, sendo que estas obras devem ser controladas pelos próprios futuros moradores junto aos trabalhadores da construção civil. Este plano deve abarcar os edifícios abandonados pela especulação imobiliária, que devem ser expropriados para, junto a impostos sobre grandes fortunas, sirva de capital para a execução das obras. Seria um enfrentamento direto à lógica da casa para vender e especular. Uma afronta para dizer que a vida da população marginalizada e lançada aos ricos de habitações precárias vale mais que os lucros deles.




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