Juventude

Meu corpo, suas regras: a violência de “tornar-se” mulher, por uma voz anticapitalista.

“Ser mulher” no capitalismo é uma existência cercada de violência. Da infância à vida adulta violentamente vamos descobrindo o que é esse “ser”. A partir da minha experiência pessoal, e do que tem de geral encerrada nela, quero chamar minhas companheiras a se rebelarem e serem comigo uma só voz.

quarta-feira 3 de agosto de 2016| Edição do dia

Uma conhecida teórica do feminismo, Simone de Beauvoir, escreveu uma frase célebre nos círculos feministas: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. Não tenho conhecimento do sentido dado pela autora, mas o sentido que vejo, que acho correto, é que vamos nos “tornando mulher” através de todas as imposições sociais que são feitas a nós, em sua amplíssima maioria violentamente.

Na infância: tem que brincar de casinha, tem q usar saia e manter as pernas fechadas, tem que usar frufrus nos cabelos. Isso é coisa de menina? Correr na rua? Soltar pipa? Jogar bola? “Essa acha que é menino!”. Acredito que é uma violência às crianças privá-las das brincadeiras de que têm vontade, deixando-as ali entristecidas olhando os amigos pela janela, devido ao seu sexo. É aí que aquelas do sexo feminino aprendem que devem ser “recatadas e do lar”, que “mulher não pode”. Mas pode brincar de casinha, porque, se não, quem é que vai limpar a casa, fazer a comida e lavar as roupas tudo de graça? Piora muito quando você é pobre, aí quando crescer vai ver que não pode ser só do lar, não, tem que trabalhar fora de casa também, e por ser mulher você ga nha a dupla jornada de trabalho.

No início da adolescência, por isso não me surpreende tantas meninas novinhas nos atos contra a violência, descobri através do abuso que meu corpo estava se transformando, e eu estava “me tornando mulher”. Foi quando meus seios começaram a crescer, ainda muito pequenos, mas não tanto para que na aula de natação um colega da escola segurasse minha mão pra traz e passasse a mão neles e me chamasse de gostosa. Essa foi a primeira vez que alguém tocou no meu corpo, e foi sem minha permissão. Desde o início o que deveria ser um prazer, foi imposto por uma violência.

Me senti profundamente humilhada, envergonhada, e decidi “esquecer” que aquilo havia acontecido. Não foi diferente com outras partes do meu corpo, e é assim, com a objetificação, com as passadas de mão, com os assédios na rua e dos conhecidos, que nós mulheres descobrimos nosso corpo e o início de nossa “sexualidade”. No capitalismo, assim o corpo das mulheres é vendido, não por acaso, na TV, no cinema e nas revistas: como um pedaço de carne, um objeto sexual que está ali para ser usado e desfrutado ao bel prazer dos homens, e às custas da violência contra nós.

Em praticamente todas as relações que tive, amorosas, sexuais, me senti em algum momento violentada, abusada. Vocês mulheres sabem, aquela insistência básica, daquele cara por quem eu era apaixonada, a transar sem camisinha, quando a gente ainda não sabe dizer “não de verdade”. Afinal, o que é dizer não? “Eu não quero”, “prefiro com”, “melhor não, por favor”, nada disso é dizer não, porque a “mulher não pode” dizer não. É sempre “cu doce”, não é verdade? Insiste um pouco que ela cede. A gente não quer, mas cede, pra agradar, pra ser aceita, isso é violência. Aquela forçada de barra, quando você claramente não quer mais, mas... “pode aguentar um pouquinho”, “só até ele gozar”. Aguentar um pouquinho? Sexo não é pra ser algo que a gente possa aguentar, isso é violência. E não adianta dizer que não percebeu.

“Mulher não pode” pode ter prazer. O capitalismo quer nos tornar verdadeiras bonecas infláveis de carne, castradas, submissas e abusadas, esta é a sua ideologia, e isto é muito funcional a este sistema, esta violência. Gente subjugada não questiona.. mas consome. E como o nosso papel é servir ao prazer alheio, precisa ser “bela”, aí dá-lhe produto da Avon e da Natura pra ser escolhida - pelo menos - pra ser a boneca de um cara legal. Realmente é bastante lucrativo pra indústria dos cosméticos e do sexo, e degradante para nós. Agora, se for negra, esquece, é pra ser de qualquer um mesmo, ou de todos.

Aos 22 anos, esqueci de tomar a pílula no dia certo, engravidei daquele namorado que não gostava de transar com camisinha. Mas como? Eu não tinha como criar, eu não tinha dinheiro, eu não teria ajuda, eu não tinha a mínima vontade de largar tudo pra criar uma criança, eu não queria um filho de jeito nenhum. Em desespero: “quero abortar”. Mas é ilegal, é inseguro, as mulheres morrem, não posso contar pra ninguém. Com a ajuda financeira de amigos, sem o apoio emocional das pessoas que eu mais amava porque não aceitariam, e me sentindo completamente fragilizada, exposta, insegura, culpada, doente, fiz o aborto. Tive medo, tive dores, tive cólicas que não passavam e me impediam de ir pra faculdade, tive culpa. E meu companheiro não teve nada, sua vida não foi afetada em um milímetro.

Neste episódio, descobri que o estado capitalista efetivamente era o dono dos nossos corpos, porque nele é proibido o aborto, e por isso eu deveria ser obrigada a ter este filho. O Estado te obriga a ter o filho, mas não te ajuda em nada a sustentar, eu que me virasse com a criança, com comida, creche, roupas. Não há direito de escolha, “mulher não pode” decidir sobre si. O homem pode, se não quer o filho vira as costas e vai embora. Quantos não o fazem? Nós não, nós somos obrigadas a sermos mães, e se a mulher não aceita: que morra! São um milhão de mulheres mortas por abortos clandestinos por ano, vítimas de uma tremenda violência, imposta diretamente pelo Estado. Por sorte eu não fui mais uma, me somo ao grupo das que sobreviveram, e hoje sou também uma clandestina.

Aos 23, fui perseguida numa rua deserta por caras em um carro, que gritavam que não adiantava eu correr, e eu corria, tinha certeza que seria estuprada. Não fui, consegui aos gritos chegar à casa de um amigo. Mas sofri por um ano com crise de pânico ao andar em qualquer rua deserta. Aí foi que descobri que “mulher não pode” andar na rua sozinha, usar roupa curta, andar a noite, porque se não, “ta pedindo” mesmo. Por que a rua não é lugar pra mulher estar, nem o bar, nem o cargo de chefia, nem as profissões “pensantes”, nem a política. Mulher lá tem capacidade pra entender de política? Os progressistas respondem que sim, mas quantos acreditam mesmo nisso? Tem certeza que o homem não é um pouco mais competente? Controlado? Não, tenho certeza absoluta que não.

Nada do que relatei aqui é algo particular meu, todas vocês sabem disso, e que a lista seria sem fim e não caberia nem em todos os artigos desse diário digital. O que muitas de nós não sabemos, e temos que descobrir definitivamente, é que tudo isso é fruto do sistema capitalista no qual vivemos, esse sistema onde tudo é rifado em troca de acúmulo de capital, de lucro, de dinheiro pros grandes empresários.

No livro “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, Marx e Engels desenvolvem cientificamente como começou tudo isso, como a opressão às mulheres não é algo natural, e sim criada junto ao desenvolvimento da propriedade privada. A origem da opressão às mulheres esta na divisão da sociedade em duas classes: os exploradores e os explorados. As mulheres foram as primeiras a serem exploradas e oprimidas. Possuir metade da humanidade como inferiores, desrespeitadas, violentadas, faz com que se possa, por exemplo, rebaixar nossos salários. E assim, lucrar em cima de nós e aproveitar pra rebaixar também o salários dos homens, e lucrar em cima de todos tudo o quanto puder. Nos fazer odiar os homens, que pensamos muitas vezes serem a raiz dos nossos problemas, é também uma forma eficaz de dividir os explorados, e diminuir nossa força de resistência e luta contra os exploradores.

Eu decidi não aceitar, não abaixar a cabeça, e entendi que se agüentei toda essa violência e ainda tenho vontade pra lutar, é porque sou forte, porque “se tornar mulher” por essa via, na verdade nos torna fortes, e uma força que o capitalismo teme. Todas as “Marias” desse Brasil são antes de tudo fortes. E dentro de cada mulher que se rebela contra a opressão sob o capitalismo há uma semente de uma revolução que pode nos emancipar, a única coisa que pode nos emancipar. Aquela revolução proletária que Marx e Engels falam, mas que as grandes Rosa Luxemburgo e Clara Zetkin falam também.

Por isso, chamo todas as minas que sofrem como eu, e que querem resistir e lutar como eu, a serem junto a mim e centenas de outras minas uma voz anticapitalista e revolucionária! A lutar bravamente e decididamente contra esse sistema, não temos nada a perder, a não ser nossos grilhões. Temos muito a ganhar, temos tudo a ganhar. E por isso, porque é a única pré candidatura que fala abertamente contra a raiz de nossos problemas, que não está ali pelo voto, mas pela luta, eu apoio Diana Assunção, para sermos milhares de vozes anticapitalistas.

Quero que possamos levar essa voz a milhares de outras mulheres, em cada luta, em cada mídia, em cada espaço parlamentar nojento essa voz anticapitalista vai ecoar se formos muitas. Pra construir uma força real que possa lutar nas ruas, nas escolas e nas fábricas, e botar abaixo e sse sistema, e junto com ele, acabar com toda a violência contra as mulheres. Quero que a Diana faça nossa voz ser ouvida nesse país. Vem comigo e construa essa campanha com centenas de mulheres inssuretas!




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